Júlio Furtado é orientador educacional e escritorDivulgação
Publicado 14/10/2026 23:31
Chega mais um 15 de outubro e, como acontece todos os anos, escolas se enchem de mensagens, flores, bombons e homenagens. As redes sociais ganham frases sobre a nobre missão de ensinar, alunos produzem cartões e vídeos emocionantes e, durante algumas horas, o professor volta a ocupar um lugar de destaque.
Não há absolutamente nada de errado com as homenagens. Todo professor guarda na memória aquele aluno que voltou anos depois para agradecer, a família que reconheceu seu trabalho, a turma que o escolheu como paraninfo. São presentes que alimentam a alma. O problema começa quando transformamos afeto em política salarial, aplauso em plano de carreira e gratidão em condições de trabalho. Professor não vive de homenagem.
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Durante muito tempo construímos uma narrativa perigosa em torno da docência. Ensinar virou missão, sacerdócio, vocação. E, evidentemente, há algo de profundamente humano no ato de educar. O professor trabalha com uma matéria-prima diferente de todas as outras: potencialidades humanas. Ele olha para alguém e precisa acreditar que esse alguém pode saber mais, compreender melhor, ampliar seu mundo e tornar-se uma pessoa diferente daquela que entrou pela primeira vez em sua sala de aula.
Mas exatamente por ser tão importante, a docência não pode depender apenas de vocação. Professor é profissão. Valorizar esse profissional significa garantir uma carreira que permita enxergar o futuro, ter tempo para estudar, ter formação continuada de qualidade, segurança e condições dignas para ensinar. Significa ter uma jornada que não obrigue alguém a correr de escola em escola para completar renda.
Em vez de perguntar apenas “como homenagearemos nossos professores?”, poderíamos perguntar: que condições estamos oferecendo para que deem boas aulas? Que perspectivas de futuro enxergam na carreira? Quanto tempo possuem para estudar e planejar? Estamos cuidando de sua formação? Estamos ouvindo seus reais problemas? E, principalmente, estamos construindo uma profissão que nossos melhores jovens tenham vontade de escolher?
Se as respostas forem desconfortáveis, talvez o 15 de outubro esteja cumprindo uma função mais importante do que distribuir parabéns. Porque o Dia do Professor não deveria servir apenas para celebrar quem permaneceu. Deveria também nos obrigar a pensar por que tantos estão desistindo e por que tão poucos desejam começar.
Júlio Furtado é Orientador Educacional e Escritor
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