Publicado 18/10/2026 00:02
Acendeu o silêncio logo depois da dor causada ter feito tanto barulho. Ela, inquieta, queria sair. Ele prosseguia com ameaças. A voz e os dizeres eram cortantes. Dizia do poder que tinha e, também, da pouca inteligência dela. Ela chorava. E ele aumentava o volume da insensatez.
PublicidadeA vontade que tive foi de faxinar aquele ambiente. De pegar uma vassoura e varrer a covardia. Quando ela saiu, eu fiquei. Eu era jovem demais e estava iniciando em um posto de responsabilidade profissional. Dirigir pessoas nunca é simples.
Ele, então, prosseguiu falando dela. E, no prosseguimento da fala, os preconceitos iam tomando o espaço, e os sons da humilhação faziam com que eu perguntasse para dentro: "O que estou fazendo aqui?".
Tentei algum dizer e ele cortou as minhas palavras tentando acariciar o meu ego. Dizendo o quanto eu era inteligente e preparado com tão pouca idade. Eu ainda tentei insistir no meu incômodo e vasculhava alguma sensibilidade naquele homem tão incerto. Ele disse:"Esqueça, e de onde ela veio, tomou tanto sol que fritou os neurônios". E riu. Eu não ri. Saí dali sabendo que dali sairia.
Fui estar com ela. Entrei e a vi olhando a ausência. Ela disse, sem eu nada dizer, que precisava do emprego. Que ganhava bem. Que tinha filhos. Que rezava todos os dias para que os dias dele estivessem mais calmos.
Eu também queria aquele emprego. Era uma oportunidade grande. Grande, entretanto, era o meu desconforto. Falei com meu pai, tão simples e tão sábio. E disse da impossibilidade de mudar aquele homem. Argumentei e contra-argumentei. Poderia ficar mais um tempo. Poderia ensinar a ele a gentileza. O meu pai disse desconfiar da minha possibilidade. E nada disse sobre o que eu deveria fazer.
Eu também queria aquele emprego. Era uma oportunidade grande. Grande, entretanto, era o meu desconforto. Falei com meu pai, tão simples e tão sábio. E disse da impossibilidade de mudar aquele homem. Argumentei e contra-argumentei. Poderia ficar mais um tempo. Poderia ensinar a ele a gentileza. O meu pai disse desconfiar da minha possibilidade. E nada disse sobre o que eu deveria fazer.
Voltei no dia seguinte, ainda em pensamentos em gestação. Estava na minha sala organizando um grande evento de ética, quando a secretária pediu que eu fosse até a sala dele. Entrei. Ele pediu que eu aguardasse. E, mais uma vez, ouvi destemperos. Era uma outra diretora. E, segundo ele, "inútil". Mais lágrimas. E um pedido de desculpas dela. E ele mandando que se retirasse. E, então, pediu que fizesse alguma coisa que nem me lembro.
Lembro que disse que agradecia a oportunidade e que precisava ir. Ele estranhou. Disse que não aceitava. Que eu era muito parecido com ele. Que eu, um dia, seria como ele.
Eu, tão jovem, disse que não. Que eu jamais gostaria de tratar as pessoas como ele tratava. Ele desentendeu o meu dizer e propôs um aumento. Imaginou que eu tivesse outra proposta melhor. Eu agradeci e ele ofereceu um abraço e entendeu que eu havia aceitado. Eu disse que não. Ele disse que eu pensasse. Na minha idade, ninguém pagaria o que ele estava oferecendo. Agradeci mais uma vez. Fui para a sala que ainda era minha e escrevi uma carta de despedida.
Contei ao meu pai que sorriu a vida com a minha decisão. Sempre escrevi sobre o amor, sempre falei sobre o amor. Como, então, não viver o amor? Como ter a hipocrisia de organizar um evento sobre ética, quando quem paga o meu salário, quem lidera a minha organização destrata os mais próximos?
Ele havia pedido que eu preparasse a fala dele. Poderia até ter feito. Mas as palavras precisam estar entranhadas para que sejam verdadeiras.
A vida deu oportunidades de reencontros. Ele teve uma doença muito grave, perdeu parte da empresa, disse a mim que Deus não foi bom com ele. Eu sorri dizendo que Deus é bom e ponto. Ele ainda soltou o quanto eu aprendi com ele em tão pouco tempo. Eu disse nada. E prossegui a vida. Desde cedo, aprendi a escolher os lugares de trabalhar e os amigos a frequentar.
Aos que causam dor no outro, prefiro a tentativa de algum conserto ou, então, parto. Parto, em parto meu, em busca de luz. Sou dos que acreditam que nascemos grávidos de amor. O amor é uma proibição de deixar o outro só, principalmente, em um dia covarde.
Aquelas duas prosseguiram minhas amigas. E eu pude ajudá-las a trabalhar em ambientes onde as gentilezas fossem cultivadas. Entendo que a gestão de pessoas exige correções, demissões, caminhos que nem sempre agradam a todos.
Entendo, também, que tudo isso pode ser feito com respeito e com cuidado. Talvez, por isso, goste tanto de poesia e de cachorros e de silêncios e de encontros.
Um dia covarde é um dia que não vale a pena viver.
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