Publicado 19/02/2021 07:00
Um parlamentar truculento, sem respeito ao sistema democrático, ao país, à própria casa legislativa que frequenta, ao outro. Preso após divulgar vídeo com pesadas ofensas aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e com apologia ao AI-5, ato mais violento da repressão na ditadura militar, o deputado Daniel Silveira (PSL-RJ) mostra que há algo muito errado não só com ele, mas com os próprios eleitores que o definiram como seu representante na Câmara Federal.
"Ele é um caso de claro transtorno de personalidade narcisista (apaixonado por si mesmo, arrogante). Tem uma necessidade enorme de ser admirado e um desrespeito muito grande ao sentimento dos outros, que não existem para ele", avalia um psiquiatra clínico com 41 anos de carreira, que prefere não se identificar.
Cientista político e sociólogo da UFRJ, Paulo Baía diz que Daniel Silveira é um parlamentar que representa a brutalidade e a violência. "Ele foi eleito nessa onda de brutalidade, de desajuste com as instituições e com a normalidade de uma sociedade civilizada, que se pauta pelo respeito mútuo", afirma. "É de um individualismo violento e fóbico (de aversão ao outro), que quer extirpar tudo aquilo que o outro representa", acrescenta Baía.
Consultora política, Fernanda Galvão lembra do episódio em que o então candidato Daniel Silveira quebrou a placa da vereadora Marielle, brutalmente assassinada: "Esse episódio o fez entrar no radar das pessoas, deu mídia. A partir da eleição, o PSL rachou e ele se tornou um soldado da família Bolsonaro. Sempre manteve a fala agressiva, beligerante. Como candidato, sempre deixou isso claro, não é surpresa". O que surpreende mesmo é o apoio de 31.789 eleitores, um batalhão de brasileiros que optou pela truculência e pelo desrespeito ao próprio voto.
Para um professor universitário de Psicologia, que também prefere o anonimato, as posições abjetas de Daniel Silveira refletem o meio em que vive: "É o que chamamos de condicionamento. As pessoas são condicionadas a pensar assim, a achar que, se a outra não pensa como ela, deve ser eliminada. É mais ou menos o pensamento que todo ditador tem, independentemente da origem".
PSIQUIATRA CLÍNICO que prefere não se identificar
PAULO BAÍA, cientista político e sociólogo da UFRJ
FERNANDA GALVÃO, consultora política
PSICÓLOGO que prefere não se identificar
"O Daniel Silveira foi condicionado pelo ambiente em que foi criado. Ele tem posições abjetas, mas está apenas perpetuando algo do meio em que vive, no qual essas ideias se propagam. Essas mesmas ideias promovem esse tipo de pessoa. É o que chamamos em Psicologia de condicionamento. As pessoas são condicionadas a pensar assim, a achar que, se a outra não pensa como ela, deve ser eliminada. Se o STF não faz o que eu penso, então vamos fechar o STF. É mais ou menos o pensamento que todo ditador tem, independentemente da origem. Essas pessoas costumam ter o pensamento muito pequeno, posições idiotas de que é preciso fechar o Supremo, acabar com todos os direitos, numa ideia que cabe apenas em grupos fundamentalistas, que querem impor a posição deles para o restante da população".
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