Publicado 16/01/2022 09:00
Era fim do segundo sábado do ano, pós-plantão do jornal. Depois de tomar banho e jantar, eu me deitei no sofá da sala, onde sempre conversava com a minha mãe. Ainda peguei uma almofada para apaziguar o meu descanso. No aplicativo de música do celular, a melodia seguia sem pausas, como um doce balanço no meu coração. Afinal, depois que descobri o álbum 'Silva canta Marisa', eu me apaixonei especialmente pelos versos iniciais de 'Pecado é lhe deixar de molho'. "Falados os segredos calam", diz a canção, numa poesia encantadora composta por Carlinhos Brown, Marisa Monte e Cezar Mendes.
Naquela noite, quem estava de molho era eu, após mais um dia de trabalho. Enquanto a música tocava, eu conferia alguns perfis de que gosto no Instagram. Até que me dei conta de que a vida, nessa correria arrebatadora, me fez perder a notícia da morte do pai de uma escritora, no dia do Natal. Enquanto lia os posts em que ela compartilhava a dor do luto, eu confirmava a força de um grande presente: ter um lar para voltar — física e emocionalmente.
Na verdade, penso nisso com frequência. Como no dia 2 de janeiro, ao chegar em casa após uma folga na Região dos Lagos. Naquela tarde, reforcei o sentimento de que é ótimo viajar, conhecer novos lugares e pessoas, mas estar em casa é especial. "Como é bom voltar!", pensei, enquanto andava pelo quintal já chamando pelo Bryan, nosso pastor canadense.
Logo depois, curti o banho no chuveiro de água quente inigualável da minha casa e pensei também na alegria de deitar na minha cama, mesmo que o colchão e o travesseiro já estejam dando avisos de que precisam ser trocados. E aproveitei para desembaraçar o cabelo com o pente usado pelo meu pai, num ritual que faz ele sempre perguntar o motivo de eu não preferir a minha escova, perdida pela casa. Afinal, até os momentos de implicância do cotidiano fazem parte do alicerce familiar.
Abri, assim, a porta de volta para a minha rotina, como fiz em vários momentos durante a minha trajetória no jornalismo. Não foram poucas as vezes em que viajei mundo afora e era recebida pela minha mãe com a comida que eu mais queria reencontrar naquele momento e só era servida em casa. Até hoje, guardo uma mensagem dela de 2013, durante a Copa das Confederações, quando aguardava o meu retorno ao Rio: "Filha, parece que amanhã vai chegar uma rainha".
Hoje, o seu abraço físico me falta. Mas continuo certa de que debaixo do nosso chuveiro, ou no sofá de casa, ouvindo as músicas que tocam o nosso coração, estaremos sempre na melhor realeza da vida.
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