Publicado 01/05/2022 09:00
A cena se repete todos os dias pela manhã: quando acordo, o meu pai já está sentado no sofá, em frente à televisão ligada, com a caneta em mãos, fazendo o seu passatempo. O desafio consiste em descobrir a palavra-chave a partir de uma definição, e cada letra corresponde a um símbolo. Observando a facilidade com que o avô sempre completa as revistinhas, o meu sobrinho de 12 anos se interessou e comprou recentemente algumas para ele. Como bom iniciante, resolveu começar pelo nível mais fácil. "Daqui a pouco você vira um dicionário", alguém brincou aqui em casa. Prontamente, ele respondeu: "O vovô já é!"
E, assim, a brincadeira monopolizou a nossa atenção outro dia, quando estávamos tentando decifrar um dos "enigmas". "Lugar inabitável: o que pode ser?", perguntou meu sobrinho. Matutamos daqui e dali até chegarmos à conclusão de que a reposta era inóspito. Um adjetivo que, particularmente, eu não uso. Mas a língua portuguesa é assim, cheia de caminhos e riquezas que nos encanta e desafia. Aprendi isso em casa, entre os dicionários e gramáticas da minha mãe, professora de Português.
Por outro lado, a gente cria um caso de amor com determinadas palavras. Um amiga, por exemplo, reparou no meu uso frequente de "mimo", nada comum para ela. Num outro bate-papo recente entre amigos, alguém reavivou uma fala da mãe, dita quando algo lhe causa nervoso, mal-estar ou aflição: "Isso me dá uma gastura!" Usual para ela, mas não para a gente.
Escrita ou falada, a palavra guarda memórias de quem cruzou nosso caminho. Também carrega o poder do afeto e da mágoa, do bem e do mal. E vira amor confidenciado através dos apelidos dos enamorados.
É também fascinante a facilidade com que os poetas conectam as muitas possibilidades de um termo, como se brincassem num quintal das palavras. De tanto admirar, eu gravei na mente e no coração o poema 'A Descoberta', de Manoel de Barros: "Anos de estudo e pesquisas: era no amanhecer que as formigas escolhiam seus vestidos".
E o amor? De tão inspirador, só posso acreditar que ele é muito mais do que o significado contido nos dicionários. Afinal, alguém ousa reduzi-lo a uma só definição? Eu fico mesmo com a psicanalista Ana Suy, que não esgota, mas ainda expande essa palavra: "De todos os mal-entendidos, o amor é o meu preferido".
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