Publicado 21/08/2022 09:00
Estacionei na rua da casa do Luarlindo Ernesto, mestre do jornalismo, na manhã do sábado retrasado, 13 de agosto. O friozinho dos dias anteriores no Rio havia finalmente dado uma trégua para o fim de semana de festa. Luar, como o chamamos carinhosamente, já estava na porta do seu famoso quintal em Água Santa para fazer as honras da casa. Ainda no portão, confirmei se o seu aniversário era mesmo naquele dia ou no domingo. "É hoje, eu ainda me lembro", respondeu ele, com a sua habitual irreverência. E prosseguiu dizendo que estava completando 79 anos, mas na verdade nem se imagina com 70. Sua mente está na casa dos 60, dizia ele.
No entanto, ouso dizer que nunca conseguiremos datar a nossa alma de fato. Estava claro no cenário montado com todo o carinho na sala daquela casa da Zona Norte do Rio pela Jô, mulher do Luar. Entre relíquias como telefones de discar, vitrola e gramofone, havia balões, que permeiam a nossa imaginação desde as primeiras festas infantis, além de bolo com uma velinha com o número 1. Talvez Luar ainda seja mais criança do que eu. Sorte a dele.
Após o parabéns, veio o simbólico momento de apagar a velinha. Lembro que, na infância, nos concentramos nele com toda a nossa fé, com a certeza de que os pedidos feitos naquele instante poderão ser de fato realizados. Na verdade, tudo o que queremos, mesmo já crescidos, é que ninguém duvide da nossa fantasia. Ela estará sempre ali, na caminhada pela vida, como a âncora que nos salva dos piores naufrágios — aqueles bem silenciosos, que ninguém consegue ver, mas que fazem muito rebuliço dentro da gente.
É preciso guardar, em memória ou em objetos, algo da infância que nos resgate na vida adulta: uma boneca, uma pipa, uma bola de gude, uma amarelinha, uma brincadeira de elástico no pátio da escola na hora da merenda... Um coração de quem só quer andar pelos balanços da vida sem a vergonha de estar crescido demais para isso. Aliás, de uns tempos para cá, tenho percebido que sou mais feliz quando me sinto criança suficiente para rodopiar ao ar livre sem achar que todos estarão me julgando.
Em casa, também percebo que o lúdico me salva nos piores dias. No fundo, talvez eu acredite que cada objeto decorativo, trazido das minhas andanças pelo mundo, tenha vida própria. E eu nem preciso adormecer ou sair de perto para que isso aconteça. Cada artesanato fala por si só, através do colorido e das lembranças de cada lugar em que já estive.
Foi exatamente isso o que a Jô comentou no nosso bate-papo daquela manhã em Água Santa: "O Luar diz que, às vezes, eu tenho umas brincadeiras de criança". Ela não negou e ainda defendeu a sua postura dizendo que é preciso ser assim para lidar com tantas responsabilidades do dia a dia. É mesmo, Jô. Talvez a nossa grandeza esteja mesmo lá atrás. E a gente se ilude achando que cresceu de fato agora.
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