Nessa permuta sem leis, estipulamos um tratado do coração, sem cobranças ou vitoriosos, em que recebo recortes do mundo e retribuo com a felicidade de ter sido lembradaArte: Kiko
Publicado 04/12/2022 09:00
Felizmente, tenho amigos que andam pela vida e me emprestam o olhar do que veem por aí. De volta, ganham o meu afeto genuíno. É uma troca natural, sem cláusulas nem obrigações. Nessa permuta sem leis, estipulamos um tratado do coração, sem cobranças ou vitoriosos, em que recebo recortes do mundo e retribuo com a felicidade de ter sido lembrada. Nele, só cabe a recordação não forçada.
Para a minha sorte, acontece comigo com frequência. Como em julho, na época das férias escolares. Os dias estavam lindos e, pelas redes sociais, eu via aquele vaivém de quem curtia um merecido descanso com filhos ou amigos. Confesso que bateu uma vontade de estar lá com eles também. Na impossibilidade de realizar esse desejo, fiquei feliz quando um entardecer ganhou mais cor com imagens do Centro do Rio brotando no meu celular. “Fotos de hoje que lembram Ana. Lembramos bastante”: era a mensagem escrita por Paloma, uma amante da poesia que a minha amiga Gisele me apresentou.
As duas estavam juntas e haviam visitado uma cafeteria de que gosto muito, fotografando vários detalhes da decoração. Já conhecia muitos deles, mas os enxerguei pela ótica das duas amigas. “Ler é viajar sem sair do lugar”, eram os dizeres de um quadro, logo abaixo de dois vasinhos de plantas. Entre os cliques, estavam fotos dos pés adornados por um piso, parecidas com as que costumo tirar. Afinal, sou amante da ideia de saber onde estou andando e de me revezar entre a admiração pelo céu e pelas nossas raízes.
É belo e generoso quando alguém compartilha a sua visão e os seus passos em andanças por aí. Assim, posso estar em casa, mas janelas de possibilidades surgem através de mensagens carinhosas. É sutil e terna, ao mesmo tempo, essa maneira como alguém caminha pelo mundo e se lembra da gente.
Assim, uma outra amiga, a Tainara, numa viagem fora do país, me presenteou com fotografias de lugares por onde passou, numa jornada de autoconhecimento. Não eram cliques dos famosos pontos turísticos, mas de capturas bem particulares. Daqui, fiquei fantasiando sobre o universo daqueles recortes. Uma das fotos era de um objeto de arte, de onde flores brotavam da cabeça, confirmando que as boas energias são germinadas dentro de nós. 
Em outro registro, um coração decorativo aparecia pendurado no puxador de um móvel, mostrando que o afeto é a chave para os nossos maiores tesouros. Também recebi cliques de um telefone de discar à moda antiga, e constatei como a velha e boa ligação é uma conexão real, da qual sou muito fã.
De fotografia em fotografia, percebo como é especial aquilo que não tem um custo definido por moedas. Ser lembrado — com a chance de ver o mundo pelo olhar do outro — não faz parte de nenhum contrato. E talvez por isso tenha um imenso valor.
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