Foto do grupo de amigos e escaladores denominado de Os Excursionistas, em foto no Morro dos Cabritos, entre Copacabana e Lagoa, em 1952Acervo Rafael Cosme
Publicado 01/05/2023 08:18 | Atualizado 03/05/2023 15:54
Publicidade
Rio - Foi a partir de buscas por objetos antigos e recortes de jornais para escrever um livro de memórias do Rio de Janeiro que o jornalista e pesquisador Rafael Cosme, de 38 anos, percebeu que a história da cidade poderia ser melhor contada através de fotografias de pessoas comuns.
A inspiração veio quando Rafael se deparou, durante um garimpo pela feira de antiguidades da Praça XV, no Centro, com slides coloridos que mostravam uma mãe com a filha pequena, na Praia de Copacabana, nos anos 1960. Ali, naquele momento, ele constatou que imagens antigas de acervos pessoais seriam o passaporte perfeito para embarcar na construção de uma narrativa da cidade. 
O pesquisador passou, então, a recorrer aos registros amadores dos anos de 1900 a 1980 encontrados nas feiras de antiguidades, para traduzir a essência carioca a partir do retrato despretensioso do cotidiano. Os achados passaram a ser publicados no Instagram (@villlalobos) e no Twitter (@Rafael__Cosme). Em breve, eles também estarão em uma galeria de arte que Rafael pretende abrir, em uma série de TV que rodará o país atrás de acervos, e em um livro. "Eu acredito muito que fotografia amadora é produção artística", exalta Rafael, que atualmente se dedica apenas à pesquisa da fotografia amadora brasileira.
O projeto é possível por conta dos garimpeiros, trabalhadores que circulam pelos bairros das zonas Oeste, Norte e Sul do Rio, de segunda a sexta-feira, revirando o lixo e, no meio de tanto descarte, encontrando tesouros. Eles os expõem em tapetes, aos sábados, nas feiras de antiguidades, e toda semana tem novidade, trazendo novos prefácios para a narrativa.
"Grande parte da história da cidade está jogada no lixo. Boa parte da cidade acaba na Feira da Praça XV. O que há de oficial, nos museus, por exemplo, é muito pouco perto do que há nas casas. A memória da cidade não se faz apenas nas instituições. A memória da cidade está em todos os armários, em todas as residências. Tudo é recordação e tudo contribui para a gente contar a história. É muito importante registrar", analisa Rafael, que todo sábado chega às 6h Praça XV atrás de lembranças.
Em seguida, ele chega em casa com "um mar" de fotos e negativos, digitaliza o material e, a partir dali, vê o que tem de preciosidade para compor o acervo. Já a organização fica por conta de temas como carnaval e fotografias de estúdios, além da geografia. Todos os bairros têm suas seções.
Em seus achados, Rafael coleciona diversas fotos inéditas e preciosas, entre as quais um retrato 3x4 de um Noel Rosa então desconhecido, feito em 1935 no Foto Câmara (estúdio fotográfico que existia na Praça Tiradentes) para a sua carteira de trabalho, e imagens do cantor Milton Nascimento jovem, provavelmente em 1968, em sua, também provável, primeira viagem ao exterior.
Estas últimas foram encontradas pelo pesquisador na Rua do Lavradio, na Lapa, em uma mala repleta de slides. Eram milhares. No meio de tantas paisagens e pessoas desconhecidas, Rafael se surpreendeu com o rosto familiar. As fotos foram restauradas pela colorista Marina Amaral.
Mesmo amparado pelo trabalho dos garimpeiros, Rafael também aplica o seu olhar afiado e vai atrás de repertório em suas andanças pela cidade. Semanalmente, ele mesmo garimpa por carrinhos de ferro em becos e ruas do Centro e da Glória em busca de recordações descartadas. Em uma ida em uma rua perto do Beco do Rato, na Lapa, encontrou algo que o deixou mexido.
"Uma das coisas mais impressionantes que encontrei, até agora, foi um envelope com muitos negativos. Levei pra casa e analisei, pois ali na rua eu não conseguia visualizar. Quando fui ver, digitalizei aquele material, entendi que era um grupo de amigos que tinha o hábito de escalar os morros da cidade nos anos 40 e 50. E aí são centenas de fotos lindas, da cidade descortinando, eles no alto. São os excursionistas", relata, empolgado.
Os amigos eram integrantes do 'Centro dos Excursionistas', fundado em 1919 e que incentivava a prática do montanhismo pela cidade. Hoje, é o mais antigo clube de montanhismo do Brasil.
"O Rio de Janeiro é um prato cheio para quem se interessa por história. Uma cidade que oscila entre períodos gloriosos e decadentes. Uma cidade repleta de heróis e heroínas pouco celebradas. Há muito a ser revelado e as fotografias amadoras antigas me ajudam a buscar essas respostas sobre o cotidiano da cidade, sobre as coisas pequenas, as miudezas, os encontros. Isso é muito pouco tratado quando se conta a história de um lugar. A forma que encontrei de contar a história da cidade foi pelo olhar íntimo das pessoas. A fotografia não profissional te dá essa possibilidade, te coloca dentro da casa da pessoa, te dá uma perspectiva que fotos de grandes nomes não te dão", diz, emocionado.
A fotografia amadora abraça o que tem de mais humano e complexo por trás de uma cidade. Não é possível falar sobre as particularidades de um lugar sem os registros íntimos, estilo "voyeur", na visão de Rafael. Os registros permitem a entrada na vida do carioca do passado. Muitos seguidores reveem sua trajetória e acessam as próprias histórias perdidas no trabalho publicado por Rafael. 
Caso de Frida Richter, que foi reconhecida em uma foto de uma festa de Réveillon de 1977, em um terraço de um apartamento de Copacabana, na Zona Sul. Ela era adolescente e estava com um grupo de amigos na mesma faixa de idade. As fotos mostram os jovens dançando, conversando, fumando. Os registros terminam de manhã, já no final da festa, com fotos borradas. Uma amiga da filha de Frida a viu nas fotos e escreveu na publicação do Instagram o comentário: 'Rosa, aquela ali não é a sua mãe?', marcando a filha de Frida.
"A Frida se viu, ficou emocionada, começou a marcar os amigos na publicação, a festa toda se reconheceu. Três dias depois o autor daquelas fotos me ligou chorando. Contou que a mãe dele tinha morrido a dois anos atrás e o irmão, com quem ele não se relaciona, tinha jogado no lixo as fotos dele que estavam na casa da mãe. Muitas dessas fotos acabaram sendo garimpadas por mim. Conversamos bastante ao telefone, revelei a ele que tenho fotos dele no verão de 1977, quando ele foi à Praia da Barra com os amigos. Eu tinha o reconhecido nas fotos do Réveillon. Acabei resgatando aquelas memórias", conta Rafael.
Outro episódio marcante aconteceu com a publicação de fotos de desfiles de escola de samba no início dos anos 1970. Em uma das imagens da concentração, havia uma mulher fantasiada como destaque do G.R.E.S Acadêmicos do Salgueiro, de mãos dadas com um menino com cerca de 3 anos. Quando colocou as fotos no ar, a "criança" se reconheceu nas imagens e ficou super emocionada. O "pequeno" cresceu e virou um dos integrantes da diretoria do Salgueiro e a mãe dele, presente nas imagens prestes a desfilar pela agremiação, faleceu recentemente.
Daqueles tempos para cá, as transformações mais evidentes na cidade são as urbanas, vistas principalmente pelos registros feitos do alto. A essência da cidade em si mudou muito pouco, segundo Rafael. "Viver no Rio me parece sempre ter sido uma vida de muita paixão e espanto pela beleza deste lugar, uma vida muito eufórica. A gente, que mora aqui, sempre soube desfrutar desta geografia. E sempre foi uma cidade de muito afeto e encontros. Quando vejo uma foto de 80 anos atrás, o normal seria me assustar com a diferença, mas na verdade me assusta a semelhança em geral", declara.
"É claro que existe uma mudança de costumes, de praia mais frequentada, de vestimentas. Neste sentido, podemos destacar que, até os anos 40, o Rio carregava um ideal europeu, mais francês ou português no modo de se vestir. O Centro da cidade era repleto de pessoas com terno, alinhadas. A cidade foi encontrando aos poucos a sua real essência, que é distante desses costumes europeus. Ela vai encontrando a sua própria alma com o tempo. É muito curioso ver essa transformação da cidade que vai se sentindo mais à vontade, menos refém desses costumes que não têm a ver com o Rio", pondera.
Outra pérola foi encontrada em um simplório envelope de papel pardo, em uma das idas de Rafael ao Centro. Trata-se do acervo de um retratista e fotógrafo de rua (antigamente chamado de 'lambe-lambe') que, no fim dos anos 1970, circulava entre as praias de Botafogo e Flamengo registrando os banhistas.
"Ele saía com a câmera pelas praias fotografando as pessoas e vendendo as fotografias em monóculos. Encontrei 530, a sobra daquilo. Mesmo sem saber, ele mapeou os frequentadores de um lugar em uma época específica. Isso é muito valioso para a cidade. A Praia do Flamengo, na época, era frequentada pelos nordestinos e pessoas da Zona Norte. Era o oposto da Praia de Copacabana. Rostos que não eram muito fotografados ganham, por conta deste fotógrafo, registros importantes. Ele produziu algo preciosíssimo para a cidade", relata o pesquisador, comovido com a descoberta.
O plano de abrir uma galeria dedicada exclusivamente à fotografia amadora vem do desejo de honrar as pessoas que contribuíram para compor as lembranças do Rio de Janeiro. "Todo mundo é artista, todo mundo é capaz de produzir memória, grandes obras, mesmo que não saiba. O meu trabalho é ver uma foto que não tinha a menor pretensão de ser artista e entender que tem um valor artístico naquilo ali. A galeria vai expor tudo isso", garante.
Publicidade
Leia mais