Heitor dos Prazeres em seu ateliê, em 1963Patrick Ward / Popperfoto
Publicado 03/07/2023 05:00 | Atualizado 03/07/2023 07:51
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Rio - Artista plástico, compositor, cantor e designer de moda e mobiliário. Muitas são as qualidades de Heitor dos Prazeres (1898-1966), carioca nascido na região da Pequena África dez anos após a abolição da escravatura, e figura fundamental para a criação de escolas de samba como Portela, Mangueira e Deixa Falar, que deu origem à Estácio de Sá. Não à toa, o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) abriga a exposição 'Heitor dos Prazeres é meu nome', uma das maiores retrospectivas históricas da obra do multiartista, com mais de 200 trabalhos no campo visual, musical, literário e da moda.
Com curadoria do também sambista, escritor e ator Haroldo Costa, de 93 anos, junto com Raquel Barreto e Pablo León de La Barra, a mostra ocupa 10 salas do CCBB e é dividida por núcleos. Canções de sucesso de Heitor, como 'Pierrô Apaixonado', composta com Noel Rosa, foram selecionadas para reprodução em som ambiente nos espaços.
"A iniciativa, a ideia central da exposição da obra de Heitor, que apropriadamente tem o título 'Heitor dos Prazeres é meu nome', é para trazer de volta a figura de um artista que a maioria do povo não conhece e que é de grande importância pela sua origem e consequência do seu trabalho", afirma Haroldo.
"Ele é um milagre brasileiro, pois tinha tudo para dar errado: pobre, preto, com toda a dificuldade que representa a população carioca e negra, e que deu uma visibilidade para este Rio marginal, pois mostra salão de bilhar, jogo de cartas, casa de prostituição, músicos e capoeiristas. Essa contribuição de Heitor é fundamental para conhecer e sentir o Rio a partir da década de 1910, 1920. Ele se criou como jovem adulto em outros morros e bairros do Rio, tanto que denominou a região que vai da Pedra do Sal à Praça Onze como ‘Pequena África’, pois é uma porção de pessoas de várias etnias, muitas baianas de Salvador e Vitória da Conquista. Essas baianas, como a Tia Ciata que foi morar na Praça Onze, trouxeram o samba, onde nasceu o primeiro samba, assim como todas as cerimônias ritualísticas do candomblé e festivas, como a feijoada. Foi onde nasceu o prefácio do samba, digamos assim, a semente do samba, pois Heitor dos Prazeres muito jovem, junto com Pixinguinha e João da Baiana, frequentavam a casa dessas baianas e plantaram ali a semente do samba. Todo esse ambiente foi registrado em pintura e música, como a Pierrô Apaixonado", completa.
Sem formação acadêmica, Heitor ascendeu como grande artista plástico com o estilo conhecido como "arte naïf", que significa "ingênuo" em francês, nomenclatura destinada à pintura daqueles que não tiveram uma formação tradicional, sugerindo uma arte original e instintiva.
"Ele era criador popular, sem formação, e se tornou um artista premiado em bienais de São Paulo e Veneza. Pintor que vai além da classificação genérica que foi dada a ele, como ingênuo, chamado naïf, que flagrava a vida que ele frequentada. Ingênuo não era depreciativo, mas ele era muito mais que isso", arremata Haroldo.
Pintor de excelência, Heitor retratava, com tons vibrantes e movimentos ritmados, os espaços de sociabilidade negra vivenciados por ele. São trabalhos que refletem a realidade pós-escravagista da população negra. No momento em que as elites do Rio e do Brasil estavam voltadas para os valores do branco europeu, da matriz colonialista, o artista, em sentido oposto, reproduzia em suas obras o que via e experimentava nas vivências como homem negro: os fluxos migratórios de africanos e seus descendentes, a mudança do campo para a cidade, a religiosidade, a repressão policial, a capoeira, o samba e a afetividade.
A obra ‘O Sonho’ (1939), um dos primeiros trabalhos de Heitor, é a mais antiga da exposição. Ela foi criada apenas dois anos depois de o artista ter perdido sua mulher para a tuberculose, mas como ainda a reencontrava em sonho, ele pintou um desses momentos.

O núcleo 'Paisagens, territórios e cartografias de Heitor' abre a exposição reunindo paisagens pintadas pelo artista, o que inclui o Norte Fluminense ruralizado, a formação dos subúrbios e das favelas e cenas rurais do início do século XX, onde hoje estão localizadas as zonas Norte e Oeste do Rio.
Na sequência, o núcleo 'Um pintor extraordinário' é dedicado exclusivamente à pintura, destacando o domínio da técnica e a consciência estética do artista.
Já a vida da população negra no século passado está no núcleo 'Heitor dos Prazeres, um pintor da vida moderna negra' em que há obras sobre feiras e fábricas, relações afetivas, brincadeiras e jogos, boemia e malandragem.
O núcleo 'O pintor e a modelo' traz a vivência na casa de Tia Ciata, que reuniu nomes importantes do samba, como Pixinguinha e Cartola, o carnaval e as rodas de samba.
Outro espaço da mostra, 'África em miniatura' destaca a religiosidade de matriz africana. O artista era intensamente conectado com a cultura popular, principalmente com afro-brasileira.
Além destes, a exposição é composta ainda pelos núcleos 'Ballet do IV Centenário + obra + mobiliário' (que exibe o figurino criado por Heitor para o IV Centenário do Balé da Cidade de São Paulo), 'Cronologia 1888-1937', 'Cronologia 1938-1954' e 'Cronologia 1955-1966'. 
Quadros que dificilmente deixam os museus também estão em cartaz no CCBB. Entre eles, obras do Museu de Arte de São Paulo (Masp), do Museu de Arte Moderna do Rio (MAM), do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro) e do Museu Castro Maya, localizado no Museu do Açude, no Alto da Boa Vista, de onde a obra 'Praça XV' saiu totalmente restaurada. Para mais, quatro pinturas da coleção particular de Gilberto Chateaubriand são ainda uma pequena amostra.

Obras expostas em bienais
A retrospectiva destaca obras de Heitor expostas em três bienais, eventos considerados os mais importantes no mundo da arte, como 'Calango' (1950), que esteve na I Bienal de Arte de São Paulo em 1951, 'Praça XV' (1965), que participou do histórico I Festival de Artes Negras, em Dakar, Senegal, em 1966, e 'A mulher abstrata' e 'Jogadores de sinuca', que fizeram parte da VI Bienal de São Paulo.
Com 'Calango', Heitor ganhou o prêmio de pintura nacional na primeira edição da Bienal de São Paulo, a segunda mais antiga e tradicional bienal de artes do mundo. A notícia da premiação de Heitor, um pintor autodidata em meio aos mais importantes e eruditos artistas da época, causou surpresa ao então presidente Getúlio Vargas (1882-1954), por o pintor consagrado na bienal ocupar um cargo modesto de contínuo no Ministério da Educação e Saúde, o de menor remuneração do serviço público federal à época. Getúlio Vargas, então, receberia Heitor no Palácio do Catete, onde vivia.

Acervo familiar
Heitor dos Prazeres Filho, conhecido como Heitorzinho dos Prazeres, é filho e responsável pela gestão e pelos direitos sobre a obra de Heitor dos Prazeres, e tem trabalhado com afinco para preservar o legado paterno, que resgata a identidade negra na pintura brasileira.
"Esta exposição é de uma importância muito grande não só para a visibilidade da cultura brasileira, principalmente da cultura preta, do negro brasileiro, como uma coisa que papai sempre almejou em ver divulgada a nossa arte, a nossa cultura, os nossos costumes, que ele sempre batalhou por isso e enfrentou muitas barreiras, inclusive barreiras de discriminação. Ele as venceu com elegância, perseverança e arte. A importância da exposição é imensa, é toda uma importância para a nossa cultura negra", afirma Heitorzinho.
Ele abriu todos os arquivos da família e disponibilizou para o MT Projetos, responsável pela coordenação da exposição, discos, estudos, desenhos, móveis, partituras e, sobretudo, suas experiências e memórias com o pai. Além disso, é coautor do livro 'Heitor dos Prazeres, sua arte e seu tempo' (2003), da editora ND Comunicação.

Criação de carnavalescos
Produzida no barracão da Grande Rio pelos carnavalescos campeões Gabriel Haddad e Leonardo Bora; pela carnavalesca da Acadêmicos do Cubango e passista da Império da Tijuca, Jovanna Souza; e pela carnavalesca da Pimpolhos da Grande Rio e produtora de arte de rodas de samba, Winnie Nicolau, a obra 'Roda Gira' simboliza a Pequena África, expressão cuja criação é atribuída a Heitor, para se referir à região dos bairros Saúde, Santo Cristo e Gamboa, na Zona Portuária.
A instalação reproduz imagens de corpos extraídos das pinturas de Heitor, traduzindo cores, ritmos e saberes. A figura central é de uma porta estandarte e pastora ressaltando a importância de matriarcas do samba e do candomblé, como a Tia Ciata, Perciliana e Fé.
Winnie, de 36 anos, conta que o processo de criação foi pensado no contexto da roda de samba como arte. "Nós criamos um coletivo de criação. A gente construiu pensando na parte estética e também em todo contexto de uma roda de samba como arte. Nós decupamos algumas imagens de vários quadros de Heitor e montamos praticamente um quadro novo. Nossa proposta foi a mesma que ele usou na Bienal da Arte Negra em Dakar, onde ele usou esculturas parecidas com as que montamos na rotunda", afirma. 
Serviço
CCBB: Rua Primeiro de Março 66 – 1º andar - Centro. Segundas, quartas, quintas, sextas e sábados, das 9h às 21h; e Domingos, das 9h* às 20h.
*Aberto ao público com deficiência mental / intelectual das 8h às 9h, em atendimento à Lei
Municipal nº 6.278/2017.
Entrada Gratuita. Informações: 21 3808-2020 | ccbbrio@bb.com.br
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