Ter vindo de algum quintal da vida é isso. Ofertar ao outro um doce ou a doçura da vida, mas não julgar se ele come muito ou pouco, de acordo com os nossos parâmetros. Arte: Paulo Márcio
Publicado 02/07/2023 09:00
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A vida é repleta de mágicas. Uma delas promove o encontro dos quintais da nossa existência. Pode acontecer debaixo de um pé de manga, mas não necessariamente precisamos viver nesse lugar mais amplo, com espaço para correr, pegar sol e cuidar dos animais da casa. Para mim, vir de um quintal é ter pisado com os pés descalços na simplicidade da vida e ter colhido do pé os frutos de uma convivência sem frescuras.
Um dia desses, aliás, revirando fotos antigas, me deparei com uma imagem da minha mãe em uma festa em um sítio, estendendo um pedaço de bolo para um dos convidados. E aquele registro não saiu mais da minha memória. Não sabia da existência daquele clique, mas ele representa o que era a minha mãe: a pessoa que oferecia bem-querer.
Ter vindo de algum quintal da vida é isso. Ofertar ao outro um doce ou a doçura da vida, mas não julgar se ele come muito ou pouco, de acordo com os nossos parâmetros. É fazer com que a típica frase "sinta-se em casa" vire verdade. É abraçar o outro e dizer: "Que bom que você veio!" É um ato natural, sem programação, onde apenas somos quem somos. Não precisamos medir palavras, desde que sejamos educados, é claro.
Aliás, em tempos de tantos filtros, me parece luxo apenas sermos nós mesmos. Sem buscar algum recurso longe da nossa essência só para impressionar o outro. O que é artificial logo se desmorona de tantos retoques que exige de nós. O bom mesmo é quando (re)conhecemos alguém que até então era um estranho, mas temos a sensação de que já nos encontramos antes. Inclusive, ter nascido e crescido nos quintais da vida desfaz estranhamentos. Afinal, a gente identifica afinidades mesmo diante de histórias tão diferentes e particulares.
Quando os quintais se encontram, a gente (re)descobre muitas pessoas: as que choram em filmes e séries, as mais contidas, as que se empolgam tanto ao contar uma história e quase dão spoiler, as que resumem rapidamente... A gente percebe que o outro também tem lembranças da juventude e com os irmãos; carrega a memória familiar no coração ou fala sobre a vida do seu par com tanto entusiasmo como se já o conhecesse há muitos anos.
Encontrar pessoas que vieram dos quintais da vida é conhecer alguém que estaria naquela mesma foto em um sítio com a minha mãe. Pessoas assim nos estendem a mão e nos oferecem, sem rodeios, a sua simplicidade. Afinal, quem veio de um quintal sabe como é boa a vida sem os manuais que insistem em nos padronizar.
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