Companhia Contra Bando de Teatro & Outras Patifarias, do Complexo de Favelas do Alemão, completa 10 anos Cleber Mendes / Agência O Dia
Publicado 24/07/2023 06:00 | Atualizado 24/07/2023 06:49
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Rio – "Contra os bandos que oprimem". É assim que a Companhia Contra Bando de Teatro & Outras Patifarias, do Complexo de Favelas do Alemão (CPX), na Zona Norte, define a sua existência. O grupo foi criado no conjunto de comunidades – são 16 no total - após um incêndio criminoso, em 2013, que deu fim à unidade da Organização Não Governamental (ONG) onde abrigava aulas de teatro e também funcionava, entre outras coisas, a redação do jornal comunitário 'Voz das Comunidades'. Alguns meses depois, e com muita coragem, o grupo ressurgiu como Contra Bando de Teatro & Outras Patifarias, completando dez anos este mês como uma potência cultural do CPX, com prêmio no currículo.

Após o episódio, que aconteceu na madrugada de 16 de julho de 2013 e atingiu dois pavimentos do prédio, na Favela da Grota, Mauro Marques, que era então o professor de teatro da ONG, criou no Facebook uma página com os alunos "órfãos" da ONG, para que não deixassem de acreditar na arte.

"O nome da companhia surgiu a partir deste grupo, já que não queríamos uma exposição dos seus componentes. O título permaneceu porque acreditamos que a arte é um posicionamento social e político (no bom sentido) e que, muitas vezes, é marginalizada e combatida por diversas seções e instituições da sociedade", comenta.

Desta forma, apoiando-se no teatro como ferramenta de resistência e de resgate da autoestima, nasceu o Contra Bando de Teatro & Outras Patifarias, como explica Nilda Andrade, de 33 anos, diretora e atriz à frente do grupo hoje.

"O nosso conceito vem de que a violência não pode parar a arte, por isso nós somos resistência. O grupo surgiu a partir da violência, nós fomos violados, mas continuamos fazendo teatro no amor mesmo. A violência existe, mas nós somos a resistência a tudo isso. Costumo até dizer que nós somos traficantes de arte porque a gente é contrabando", conta, aos risos.

Maria Oliveira, de 29 anos, atriz que comanda o grupo com Nilda, acha que a ideia da página foi incrível, mesmo sabendo que o grupo poderia correr perigos com relação à segurança.

"Achei maravilhoso. Ela impediu que desistíssemos daquilo que sempre trabalhamos e amamos fazer. Muitas pessoas puderam, através da página, conhecer o Contra Bando e nossos trabalhos. Os moradores do Complexo do Alemão puderam conhecer melhor o grupo de teatro da sua localidade", afirma, animada.

Os ensaios foram retomados fora da comunidade, em um local longe dos olhos dos agressores, por causa de medo de uma nova represália. Apoiando-se no teatro como ferramenta de resistência e de resgate da autoestima, um dos conceitos do grupo, havia uma superação a cada ensaio até que veio um prêmio no embalo.

"Foi uma época bem difícil, a nossa força de vontade de montar o nosso primeiro espetáculo foi gigantesca. Conseguimos ser recebidos no festival 'Rola Teatro', da Federação de Teatro Associativo do Estado do Rio de Janeiro (Fetaerj), em 2014, onde ganhamos o prêmio unidade de elenco com a peça 'Nada me Aflige'", diz Nilda.

Com cerca de 10 integrantes entre 17 e 40 anos, o grupo alterna apresentações, intervenções culturais e aulas abertas para a população sem nenhum custo no Complexo do Alemão. Nilda esclarece que a ideia é levar ao público outras perspectivas da favela que geralmente não estão retratadas na mídia ou no audiovisual.

"As pessoas nos julgam (os moradores das comunidades) o tempo todo. Somos chamados de carentes, dizem que queremos chamar a atenção e ainda generalizam a favela a todo o momento, quando tem muita coisa acontecendo dentro do Alemão. O Contra Bando de Teatro entra neste lugar", afirma a diretora. "E é importante saberem que temos cultura, sim. É importante conhecer as outras, mas a gente tem a nossa, sim. Usar boné é cultural, soltar pipa também. Nos apropriamos da nossa cultura como um fator de autoestima", completa.

Entre as ações que realizam na favela está a 'Café no Ponto', idealizada para levar alegria às primeiras horas da manhã dos moradores do Complexo. Munidos de uma garrafa térmica com café quentinho, fantasias e animação, o grupo se reúne, por volta das 5h, em algum ponto de ônibus da comunidade e oferece a bebida em troca de um sorriso.

"Quando alguém chega e sorri para a gente quando falamos 'este café é o mais caro do mundo, vale um sorriso' a gente sabe que está acertando", avalia Nilda.

O coletor de lixo Renato Sorriso, figura conhecida como 'Gari Sorriso', é um dos que aprovam o Café no Ponto: "Levanta o astral dos passantes, até mesmo de quem não é morador, de quem sai de longe e vem para o território, como é o meu caso. Adoro a forma como eles trabalham".

A iniciativa do café começou após o menino Eduardo de Jesus Ferreira, de 10 anos, ser morto na porta de casa, em 2015, por um tiro disparado por policiais durante um confronto. Um laudo feito por peritos da Polícia Civil concluiu que Eduardo foi morto por um tiro de fuzil. Os agentes militares não foram indiciados. "Nós sentimos que a favela ficou muito para baixo com este episódio, então precisávamos fazer algo. Pensamos no coletivo e decidimos fazer um ato de gentileza com café, que todo mundo gosta. Essa intervenção é uma das coisas mais gentis da companhia, e ela também serve para mostrar para o nosso território que aqui dentro também tem atores, não é só lá fora. Queremos ser referência para o nosso território", pondera Nilda.

Outras coisas boas também aconteceram nestes 10 anos. O grupo comemora, por exemplo, o profissionalismo que tem alcançado através de editais culturais de artes cênicas, já que não conta com nenhum apoio financeiro e nem ajuda de custo ou investimento de esferas públicas ou privadas.

"É legal poder comemorar esses dez anos e saber que conseguimos levar algo com certo profissionalismo por conta dos editais que ganhamos. Agora temos um programa bonitão, em um bom papel, sem ser filipeta fininha, papel fininho. Fico até emocionada quando penso nisso. Neste tempo, sobrevivemos principalmente com atividades que fizemos profissionalmente com o Sesc de Ramos, rodas de conversa, esquetes em que falamos sobre a autoestima do morador periférico, coisa que nunca tivemos e o teatro trouxe para as nossas vidas", comenta Nilda.

A maior dificuldade que ainda enfrentam é em relação ao financeiro. As aulas gratuitas, oferecidas para pessoas a partir de 7 anos de idade (não há limite de idade para ser recebido nas oficinas do Contra Bando), acontecem na Oca dos Curumins, ONG que há mais de 45 anos funciona no CPX com aulas do berçário ao 9º ano. O espaço é emprestado graças à solidariedade da proprietária, conta com pouca estrutura e não tem ventilador, que faz bastante falta. Além disso, o grupo não tem como arcar com lanche e nem passagem para os alunos, que têm que pagar do próprio bolso, o que, muitas vezes, é um custo alto. O sonho principal do Contra Bando, neste momento, é ter uma sede para realizar as atividades e também um ônibus para o deslocamento dos participantes. Os cursos duram, em média, um ano e há entrega de certificado e apresentação final para pais e amigos.

Mariana da Silva Pereira, de 26 anos, moradora de Engenho da Rainha, é aluna há um ano da companhia e se identifica com o grupo por partilhar do pensamento da arte como uma dimensão política que atravessa o Contra Bando. "Me identifico com o Contra Bando principalmente pela parte da resistência, da luta, da garra que ele tem. Quem sabe da história desse grupo sabe que foram muitas lutas pra mantê-lo ativo. Tem a questão da união, da força de vontade, do amor e da resistência pela arte, pois sem isso é praticamente impossível chegar onde queremos chegar. A união faz a força. A arte na favela é resistência!", exclama a atriz.

Força de vontade, resistência e resiliência são atributos que devem fazer parte do currículo dos atores periféricos. Leonardo Dias Batista, de 40 anos, outro aluno da companhia, já conseguiu o DRT, registro exigido para atores e atrizes em trabalhos profissionais em emissoras de TV, produtoras de cinema e publicidade, estúdios de dublagem e outras áreas de atuação a nível profissional. Ele já fez parte do elenco de apoio de 'Arcanjo Renegado' e 'O Jogo que Mudou a História', séries do Globoplay. Participou também do elenco de apoio do próximo filme estrelado pela atriz Fernanda Montenegro, Dona Vitória, que conta a história real de uma senhora que aos 80 anos filmou com uma câmera própria a rotina do tráfico de drogas na Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana, Zona Sul. Ainda assim, mesmo com o nível profissional, Leonardo sente dificuldades para encontrar trabalhos por ser morador de comunidade.

"Tenho dificuldades de me estabelecer como ator por eu ser da comunidade. As oportunidades não aparecem muito, as informações de testes de elenco não são muito divulgadas para geral, uma pequena minoria fica sabendo", afirma.

Mesmo sendo um grupo de teatro baseado em comunidade, a temática abordada nos trabalhos do Contra Bando nem sempre tem a ver com a favela. Porém, a próxima peça a ser produzida, que ainda não tem nome, será um compilado de situações reais que os moradores da periferia vivem, como não conseguir chegar em casa devido a tiroteios entre policiais e bandidos, carros de aplicativo que não podem entrar no complexo e aulas de dança que acontecem na favela e descobrem talentos, para apresentar a realidade das comunidades através do teatro.

Atualmente em cartaz, até o dia 30 de julho, está a peça 'Pipas', de quinta a domingo, no Teatro II do Sesc Tijuca, no bairro da Zona Norte. Trata-se de um monólogo, apresentado por Nilda, que aborda episódios de mulheres do complexo, como uma colcha de retalhos de histórias: "Estamos muito felizes pois as pessoas têm se emocionado, a nossa história tem tocado o público de alguma maneira".

Antes de saber o que era teatro, Nilda já queria ser atriz. Cria do CPX, via as pessoas na televisão e realizava que era aquilo que desejava para ela. Até que percebeu que era o teatro que vinha antes "daquela gente diferente". Procurou ONGs para fazer aulas. Sempre estudou a partir das organizações.
"Pelo teatro eu mostro que tenho essa potência que nunca tinha visto em mim. Ver as pessoas olhando com carinho para gente, por conta do Contra Bando, é muito gratificante. Achava que para ser escritora, por exemplo, precisava ter mestrado e doutorado, mas meu texto ficou entre os finalistas do prêmio da Fetaerj este ano. Sou uma mulher da favela, fora do padrão, e o teatro me recebeu de uma maneira que não esperava. Encontrei na dramaturgia um lugar de acolhimento, então eu tento acolher a história dos alunos do grupo. Também os ensino a se amarem, digo que é bom ser diferente", conta.

Em agosto, Pipas circula pelo Rio, em espaços culturais da Prefeitura, como as arenas de Bangu, Anchieta e Dicró, na Penha Circular. Também terá apresentação na Oca dos Curumins e na Casa Voz, ambos no Complexo do Alemão. Já em setembro, estará no Centro Cultural Justiça Federal (CCJF).
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