O professor de Língua Portuguesa Leandro Melquiades e a historiadora Jaciana Melquiades são os idealizadores do projeto Dandara nas escolasCleber Mendes/Agencia O Dia
Publicado 06/08/2023 07:00
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Rio - Em 2011, a historiadora Jaciana Melquiades e o professor de Língua Portuguesa Leandro Melquiades não conseguiam achar brinquedos representativos para o filho Matias, hoje com 12 anos. Diante da situação, eles se uniram e tiveram a ideia de criar e comercializar bonecas negras e outras peças. Com o tempo, o negócio cresceu e deu origem a um projeto educativo, o "Dandara nas escolas", que distribui bonecas pretas para escolas municipais, através de parcerias com outras empresas. Jaciana e Leandro também são autores do texto da peça "Erê", que acaba de estrear no Sesc Tijuca, na Zona Norte.
A historiadora e o professor destacam-se, ainda, por promover oficinas de educação antirracista para professores. O empreendimento também garante renda para famílias da Zona Portuária. "A Era Uma Vez o Mundo é uma empresa de impacto social que desenvolve brinquedos e atividades educativas afro-referenciadas, pensando na infância preta como protagonista", explica Leandro, de 36 anos, que não é mais casado com a mãe do seu filho. Os dois, no entanto, seguem amigos e sócios.

Jaciana, 39, conta que quando criança sentia muita falta de se sentir representada em brincadeiras. "Eu não tenho referências de bonecas negras na minha infância, eu tive uma Barbie e uma outra boneca branca que era um bebê. Eu lembro da sensação de abrir a minha Barbie: eu tinha cerca de 6 anos, pedi muito e ganhei. É curioso como essa boneca criou uma distorção de imagem. Para brincar com a boneca, eu colocava uma toalha na cabeça para fingir que eu tinha o cabelo grande", relembra.


Para a historiadora, a falta de representatividade não só nos brinquedos, mas também na televisão, fizeram com que ela crescesse com uma imagem distorcida de si: "Querendo muito ser uma pessoa diferente do que eu era."

"A representatividade na infância é importante para a gente crescer alinhado mesmo com a imagem. Brincar com brinquedos diversos, ensina para a gente que o mundo é diverso, mas a gente precisa estar dentro dessa diversidade para a gente respeitar o outro, mas se ver também existindo no mundo", diz.
Sucesso de vendas para mulheres

Atualmente, a empresa vende bonecas não somente para adultos que querem presentar crianças, mas também para mulheres que sentiram falta de terem suas imagens refletidas nos brinquedos na época da infância.

"Tem um público grande de mulheres negras que compram as bonecas para se presentar, para curar mesmo essa ferida de não ter tido bonecas negras, de não ter sido representadas. É um carinho que essas mulheres fazem", detalha Jaciana.

A empresa também nota um crescimento de vendas para responsáveis por crianças, não necessariamente só pessoas negras. "Mas um público que também é de pessoas brancas que compram e estão interessadas em levar essa conversa de um jeito lúdico para dentro de casa e ensinar para as crianças a partir de uma perspectiva antirracista", reforça a historiadora.

Em 2017, os empreendedores criaram bonecos e bonecas negras inspirados em pessoas reais, que tinham relevância nas redes sociais e falavam sobre temas ligados à negritude, como recorda Leandro. "A gente escolheu 30 influenciadores para fazer bonecos que fossem eles, e os nossos bonecos já se chamavam Dandara e Zambi. Todos aceitaram e a partir desse momento, por conta dessa conexão, a gente passou a ser um pouco mais conhecido dentro desse circuito preto."

A primeira loja de bonecas exclusivamente negras no Brasil foi aberta por eles em 2019, na Rua dos Andradas, no Centro. Com a pandemia e dificuldades de manutenção, no entanto, o comércio fechou, mas eles continuaram criando as bonecas no ateliê com equipe e vendendo pela internet.

"Como somos educadores e a gente traz isso para nossa existência, a gente criou alguns projetos educativos porque a gente entende que não basta fazer uma boneca negra e colocá-la numa prateleira, a gente vive num país racista em que só 7% das bonecas que estão nas prateleiras são negras, o restante são bonecas não negras, especificamente bonecas brancas. A gente entende que não existe uma cultura de valorização da estética da boneca negra, como uma estética de beleza. Isso começa a ser valorizado há muito pouco tempo. A gente está neste lugar de educar as pessoas de olhar para a boneca negra como um reflexo positivo, um presente, um brinquedo bonito e potente", analisa Leandro.

Emprego para mulheres periféricas

A veia empreendora de Leandro e Jaciana também é responsável por empregar mulheres do Morro do Pinto, no Santo Cristo, dando a possibilidade de que elas confeccionem parte das bonecas em suas casas após capacitação.

"A gente cria oficinas educativas com as nossas bonecas e leva para as escolas contando com apoio de empresas ou pessoas que façam essa ponte financeira. Quem produz nosso material são mulheres periféricas, fazendo a economia circular", explica Leandro.

Dandara nas escolas

Promover ações antirracistas com crianças e adolescentes da rede pública é outra alegria para os fundadores da empresa, que já conseguiram quatro financiamentos para desenvolver o projeto 'Dandara nas escolas'.

"Empresas compram essa boneca, e a gente leva com elas para as escolas uma oficina de educação antirracista para professores. É uma boneca com roupas de profissões, inspiradas em mulheres reais. Ao mesmo tempo, a gente cumpre esse papel e realiza esse desejo de estar na educação para as pessoas entenderem a potência que é uma boneca negra. Ao mesmo fazemos com que ela seja um produto que possa estar na prateleira daqui a alguns anos sem essa escassez", diz o professor e empresário.

Jaciana complementa contando que o projeto começou de um jeito meio tímido, pequeno, no meio da pandemia, em 2020. Em 2021, eles fizeram uma atividade remota com os professores e distribuiram o kit com os bonecos para os docentes.
Pouco depois, eles deram um passo ainda maior, como explica Jaciana. "Em 2022, a gente fez uma atividade com um pouco mais de grandiosidade. A gente distribuiu duas mil bonecas nas escolas municipais, através de parceria com a Gerência de Relações Étnico-Raciais (Gerer), da prefeitura. Eles deram a abertura para a gente entrar nas escolas, organizaram um dia para a gente reunir os professores, e a gente entrou com as bonecas como doações e a oficina realizada com os professores."

A "Dandara nas escolas" é uma atividade que fala sobre profissões do futuro. "É sobre sonhar com futuros possíveis. A boneca Dandara vai com cinco profissões. A criança tem uma atividade lúdica para montar a roupinha da boneca e dentro desse acesso que ela tem, ela vai entender a profissão de professora, não só fazendo o que ela faz, mas com uma referência preta dentro desse universo. Tem a profissão de astronauta negra para ela ver que é um sonho possível, por exemplo. Ela dá a possibilidade de usar a boneca como referência, exemplo real de pessoas que conseguiram ser com a profissão que a gente está apresentando para ela", conclui a empresária.
Além das bonecas e das oficinas, a Era Uma Vez o Mundo produz livros de pano. Um deles, com o personagem Erê, virou peça. O espetáculo homônimo, estrelado pelo ator Junnior Dantas, fica em cartaz até 13 de agosto, aos sábados e domingos, às 11h e 16h, no Sesc Tijuca (Rua Barão de Mesquita 539). A classificação é livre, com recomendação a partir de 3 anos. Os ingressos custam R$ 5 (meia-entrada).
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