Publicado 24/09/2023 09:00
O sol resolveu aparecer e nem foi preciso colocar casaco em um daqueles dias que marcavam o fim do inverno em Congonhas. Aliás, a cidade histórica de Minas Gerais se mostrava diferente naquela visita. A praça do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos estava tomada de gente, por conta do Jubileu. Era um cenário bem distinto do que havia conhecido anos antes, na companhia da minha mãe e da Lurdinha, grande amiga da nossa família, que abriu as portas de sua casa em Conselheiro Lafaiete.
Minha mãe agora estava na memória. Assim, eu, a Lurdinha, sua irmã Cida e o meu namorado, Felipe, percorremos a tradicional festa religiosa. Depois, paramos em um local para uma breve refresco. Naquele barzinho simples, encontramos dois senhores, sendo um deles o dono. Enquanto eu revia as fotos tiradas no celular, a Cida comprava tapetes na feirinha. E os senhores puxaram a prosa.
Logo levantei o rosto e voltei ao presente de fato. Olhei para os dois, que degustavam uma cachaça, e percebi a simplicidade na fisionomia deles. Um era natural de Mariana, cidade vizinha; o outro era de Congonhas — este, inclusive, falou sobre a vontade de conhecer o Rio de Janeiro dos lugares turísticos, como o Theatro Municipal e a Confeitaria Colombo.
Comentamos também sobre os atrativos de Minas, como Inhotim, o belo museu a céu aberto em Brumadinho. "Aquele 'trem' de Inhotim é muito doido, difícil de entender", disse um deles. Achei curiosa e bela a constatação. De fato, não compreendemos tudo, mas às vezes fingimos saber. O bom mesmo é reconhecer que não alcançamos todas as coisas...
Saímos dali com ânimo renovado pela boa prosa. Naqueles dias de descanso, ainda visitamos outros pontos de Minas. Em Ouro Preto, por exemplo, subimos e descemos as ladeiras. Tudo "logo ali", como dizem os mineiros. Assim, os dias se passaram com muito a ser visto e saboreado. O céu estava ensolarado e, à noite, fazia um friozinho bem gostoso. Entre uma parada e outra, tomamos café na casa da Cida. Na mesa, havia queijo de Minas, broinhas de canjica e também bolo de fubá feito por ela e entremeado com um queijinho.
Antes de voltar ao Rio, ainda nos encontramos à noite em uma pizzaria em Lafaiete, e a Cida levou para o restaurante um generoso pedaço de bolo na bolsa, como forma de presente. Também acho lindo esse hábito mineiro de saborear momentos.
Levei a iguaria na bagagem de volta para casa, assim como um chaveiro que o Gui, filho da Lurdinha, havia comprado um ano antes em Ouro Preto. Nele, estava escrito o meu nome. "Não poderia ver e não comprar para única Ana Carla que eu conheço!!!", ele me escreveu. Como é bonito ser lembrada de maneira singela.
No ônibus de volta para o Rio, carregamos também outros mimos. Tais lembranças não pesavam na bagagem, mas eram infinitas e, na verdade, impossíveis de serem medidas. No retorno, constatei como é bela a vida compartilhada em um vilarejo de afeto com os mineiros. É acolhedor estar com aqueles rostos tão familiares, que me chamam de Carlinha e me perguntam: "Cê tá boa?" A gente facilita a nossa existência quando se veste de simplicidade, admite que há uns 'trens' difíceis de serem compreendidos e que é possível levar um afago em forma de bolo dentro da bolsa.
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