Levantamento mostrou as gírias mais populares entre os internautas ao longo do anoArte: Kiko
Publicado 08/12/2024 06:00 | Atualizado 08/12/2024 15:06
Se vivos fossem, os escritores Machado de Assis, Carlos Drumond de Andrade, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Cecília Meirelles, Clarice Lispector ficariam curiosos e intrigados ao se deparar com tantas mudanças e modas que inventam em tempos de Big Brother e Internet no que tange ao português escrito e falado. É que o mundo mudou e as expressões linguísticas também, mas vamos convir que umas são engraçadas e até dá para entender. Já outras o entendimento é bem complicado e o que falar das redes sociais pois tudo é abreviado e até o você que atualmente virou apena vc.
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Nos últimos meses, quantas vezes você ouviu expressões como casca de bala, biscoiteiro e pode pá dentro (e fora) das redes sociais? A resposta é muitas. De de acordo com um levantamento sobre o tema, essas foram algumas das gírias mais populares entre os internautas ao longo do ano, rendendo debates, conteúdos virais e milhares de idas aos mecanismos digitais em 2024. Os dados são da Preply, plataforma que, recentemente, analisou as milhões de pesquisas online feitas pelos brasileiros e constatou: apenas de janeiro até hoje a procura pelo significado de expressões informais, interjeições e bordões diversos gerou mais de 3,2 milhões de buscas na internet, em sua maioria relacionadas a um termo que deu o que falar entre os jovens: calabreso, difundido especialmente durante o reality Big Brother Brasil e líder do topo dos mais procurados de Norte a Sul.
Calabreso e casca de bala: as gírias mais pesquisadas do ano
Ela se popularizou graças ao humorista Toninho Tornado, repercutiu pelo país com ajuda de Davi Britto, participante da última edição do BBB, e chegou a se tornar até mesmo um hit musical da banda baiana La Fúria. Mas, afinal, o que de fato significa calabreso, expressão responsável por consideráveis 138 mil buscas no Google ao longo de 2024?

Visto que muitas gírias variam conforme a época e situação, como divulgado pela plataforma, é preciso que os confusos busquem observar seu uso em contexto, sobretudo entre as pessoas ou grupos que a popularizaram. Nesse caso, por exemplo, as próprias discussões do ex-BBB Davi com seus oponentes de jogo já indicam do que o termo se trata: algo como briguento, mal-educado ou esquentadinho, ou seja, uma forma bastante provocativa de apelidar quem, supostamente, tende a brigar por pouco. Fácil de entender, não?

Tão fácil quanto sua definição, cabe dizer, é ainda o sentido da segunda gíria mais buscada pelos internautas, outro sucesso nacional por trás de 70 mil pesquisas na internet. No caso de casca de bala, no entanto, não foi um reality show o responsável por sua viralização, mas uma música de sucesso do cantor Thullio Milionário, que diz "eu e casca de bala, eu e casca de bala, ‘nós não perde’ uma vaquejada, nós não perde uma vaquejada". A expressão, nesse sentido, faz referência àquele amigo do peito que todo mundo tem… e que está ali para o que der e vier.
Adeptas da 'língua diferente'

Formada em Relações Públicas e diretora de arte designer, Amanda Portela Leitão, de 25 anos, é adepta de gírias e tem até as prediletas. "Geralmente eu uso mais tá ligado, pode crer e boto fé. Então é sempre meio que para concluir uma frase, eu quase como o Bá daqui do Sul. São mais essas que eu costumo usar". A profissional diz que é muito auditiva e acaba pegando novas formas de falar com os amigos. "Vou ouvindo meus amigos falando e acabo aderindo. E muito pela internet também, conteúdo de pessoas de streaming, conteúdo pelo YouTube, pessoas podcasters que eu escuto também, às vezes. Alguns têm um projeto mais informal, então eu acabo pegando desses diálogos também".

Em relação às abreviações nas redes, Amanda acredita que seja uma forma de otimizar o tempo. "Não sei se chega a ser preguiça de escrever, mas realmente fica mais rápido e meio que as pessoas já têm uma concordância do que significa quem usa geralmente essas abreviações. Então, a comunicação se faz, se completa, assim". Por trabalhar numa empresa de comunicação, Amanda acredita que as linguagens se misturem. "Então, a gente acaba misturando as palavras tipo branding, questão das reuniões, a gente fala timeline, essas coisas assim. Não chegamos a usar mais gírias. Mas sempre depende do ambiente, da equipe também, porque a comunicação, pelo menos dentro dessa área um pouco mais flexível e informal, assim. Claro que tudo depende de com quem que a gente está falando''.
Consultora Executiva de Relacionamento e Negócios, Vanessa Ferreira, de 29 anos, acha que as gírias surgem de acordo com a região, com a cultura do local e personalidade das pessoas de diferentes estados e assim como Amanda não vê preguiça nas abreviações em redes sociais.
"Aqui no Rio acredito que pela forma rápida e íntima que falamos com todos, é um bora, tamo junto, brotar (aparecer), amassar (comer com gosto), tá ligado (pode servir para muita coisa, como uma fofoca, uma pergunta…) , dizer que é papo reto (não faz rodeios para falar), bagulho/parada (para coisas e situações), é mermo (confirmando algo) , ainda (confirmando) , aonde (duvidando) , bolado (de com raiva ou falando de algo tipo comprei um relógio boladooo, partiu/tiupar (confirmando que vai ou chamando para ir), sussa, kaô, azeitando (enrolando), papo de groselha (mentiroso ou enchendo linguiça.) Acho que é mais uma personalidade do que preguiça ou abreviar, vai muito no automático no meu dia a dia".
Quando as palavras viram abreviações

Se compreender a definição de algumas gírias pode parecer um desafio por si só, imagine conseguir desvendar seus significados quando, em tempos de internet, elas ganham formas abreviadas, como é o caso de vlw (forma curta de valeu), tlgd (tá ligado) e tmj (tamo junto)?
Provando que a dificuldade é mais comum do que se imagina, ao longo do ano, não faltaram abreviações por trás de recordes de buscas entre os internautas, em geral usadas em mensagens de texto e redes sociais.
Um bom exemplo é o termo pdp, por trás de cerca de 25 mil buscas no período: estamos nada mais, nada menos que falando da versão reduzida de pode pá, dizer usado para confirmar ou concordar com algo de maneira informal, especialmente em comunidades urbanas e entre jovens. Espécie de prima da também comum pode crer costuma substituir as expressões "com certeza" e "é isso mesmo" entre os mais novos, como no seguinte diálogo: "vai assistir ao jogo de futebol hoje, mano?", "pode pá, vou, sim!".

Algo similar também se aplica a pprt”, slc” e “btf”, presentes no ranking elaborado pela Preply. Abreviações de, respectivamente, “papo reto”, “boto fé” e “sê é louco”, cada qual traz consigo sentidos simples, mas que podem dar um nó na cabeça de quem as ouve pela primeira vez.
Por meio da primeira, por exemplo, seu interlocutor quer enfatizar que está falando sério, enquanto, com a segunda, a ideia é expressar a sensação de espanto (basta pensar no diálogo: "vamos ao show hoje?", "sê é louco, vai estar lotado!', onde a gíria surge para enfatizar negação).

Mas e quanto a btf, cujo significado fez com que os mecanismos de busca registrassem mais de 13 mil pesquisas em 2024? Aqui, como pontua a plataforma de idiomas, o sentido gira em torno de acreditar ou confiar em algo ou alguém. Boto fé, portanto, seria usada informalmente para demonstrar concordância, confiança ou aprovação, como em eu boto fé nesse projeto (acredito que o projeto vai dar certo) ou boto fé em você. (confio em você). Deu pra sacar?
Quem saca muito do assunto é a professora de português e doutora em língua portuguesa pela Uerj, Arilda Riani. "As gírias sempre são usadas na linguagem informal, mas passaram a ser utilizadas no Modernismo como recurso de linguagem. Dificilmente elas constarão no dicionário da língua portuguesa. Quanto às abreviaturas recentemente utilizadas na rede social, ainda é cedo para afirmar se constarão em algum vocabulário de abreviaturas. A Academia Brasileira de Letras já está mais aberta aos usos populares e deve estar de olho para ver até onde esse uso irá. Como o povo diz, o uso do cachimbo faz o formato da boca".
 Muitas pesquisas no Google

Para desvendar as gírias e expressões de maior interesse entre os internautas, foram consideradas pesquisas no Google realizadas pelos brasileiros desde janeiro de 2024. A investigação foi orientada pelas expressões "gíria", "gírias" e suas variações, abrangendo todas as buscas relativas ao tema de Norte a Sul. Em seguida, os termos populares foram dispostos em um ranking baseado no volume total de buscas ao longo do ano.
A Preply é uma plataforma online de aprendizagem de idiomas que conecta professores a centenas de milhares de alunos em 180 países em todo o mundo. Atualmente, mais de 40.000 tutores ensinam mais de 50 idiomas, impulsionados por um algoritmo de aprendizado de máquina que recomenda os melhores professores para cada aluno. Fundada nos Estados Unidos, em 2012, por três ucranianos, Kirill Bigai, Serge Lukyanov e Dmytro Voloshyn, a Preply cresceu de uma equipe de três pessoas para uma empresa com mais de 600 funcionários de 62 nacionalidades diferentes, com escritórios em Barcelona, Nova York e Kiev.
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