Investigadores apontaram que grupo movimentou R$ 82 milhões em cerca de sete mesesPedro Teixeira/Agência O Dia
Publicado 14/01/2025 13:01 | Atualizado 14/01/2025 14:51
Rio - Os investigadores que desarticularam um esquema de fabricação clandestina e venda ilegal de anabolizantes disseram que a quadrilha tem "potencialidade lesiva imensa". O grupo criminoso conseguiu movimentar mais de R$ 82 milhões, em cerca de sete meses de investigações, com a divulgação dos produtos pelas redes sociais e por influenciadores.
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De acordo com as investigações, a organização criminosa investia em embalagens que passavam credibilidade aos consumidores, mas a composição tinha, entre outras, substâncias repelentes de insetos. A Operação Kairos, realizada pela 76ª DP (Niterói) com o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco/MPRJ), prendeu 15 pessoas, nesta terça-feira (14).
Em entrevista coletiva na Cidade da Polícia, no Jacaré, Zona Norte, o promotor do Gaeco, Pedro Simão, afirmou que durante as investigações houve quebra de sigilo telemático e mensagens interceptadas dos criminosos revelaram conversas em que o líder da organização ensinava aos outros membros a fórmula dos anabolizantes.

"Foi identificada uma conversa na qual essa receita de como se fabricava clandestinamente os anabolizantes, a utilização da substância benzoato de metila, que é uma substância utilizada em tratamento de sarna e de infestação de piolhos, gerando, portanto, risco não somente à integridade física dos consumidores, como também da própria vida de quem adquiria e fazia a utilização dessas substâncias", apontou.

Segundos os investigadores, os anabolizantes eram feitos de forma caseira e um alvo de busca e apreensão no Distrito Federal fornecia as embalagens. Nelas havia um QR Code, que leva o consumidor diretamente para a página de compras. A Polícia Civil investiga também a existência de um laboratório usado pelos bandidos, que estaria em uma área de risco, mas ainda não foi localizado.

Os delegados titular e adjunta da distrital explicaram que o esquema se trata de uma fabricação clandestina, por meio da criação de marcas irregulares, como a Next e Thunder, principalmente, e não falsificação de outros produtos. "As marcas são empresas que essa estrutura criminosa abriu e não é cópia de nenhuma outra marca. Eles se colocaram numa posição de fazer algo muito profissional, para de fato trazer uma verossimilhança", disse a delegada Iasminy Vergetti.

"É um produto feito de forma clandestina, não há falsificação, há uma produção. Eles compram os insumos e, chegando, eles fazem a mistura, o que eles vulgarmente tratavam como "cozinhar o suco", que significa fazer o anabolizante. Então, não é falsificado, é produzido de forma clandestina, com toda aparência de um laboratório constituído legalmente, pode ver que a qualidade do material chama atenção e possibilita enganar o usuário. Não é uma cópia, nem uma falsificação, é uma produção clandestina caseira", apontou o delegado Luiz Henrique Marques. 

A subcoordenadora do Gaeco, Gabriela Aguilar, no entanto, destacou que apesar da quadrilha ter criado marcas, elas não podem ser tratadas como legais, já que não têm registro e autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e as embalagens não contém requisitos obrigatórios, como CNPJ e composição.
"Quando a gente fala em marca, não é uma marca propriamente dita, é uma produção deles. Não tem aprovação de ninguém, eles vendiam aquilo como se tivesse aprovação nos órgãos competentes, registro da marca, e realmente não tinha. Então, num primeiro momento, procurou-se resguardar a integridade física de possíveis usuários, já que a potencialidade lesiva dessa associação é imensa".

"Esses anabolizantes eram feitos de forma caseira, sem nenhuma fiscalização. As matérias-primas eram adquiridas também de forma clandestina, ou seja, essas substâncias consumidas de forma endógena, traziam sérios danos à saúde e à vida daquele consumidor final", continuou Vergetti.
Operação tem 15 presos, anabolizantes e armas apreendidas

A operação pretendia cumprir 15 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão, expedidos pela 5ª Vara Criminal da Comarca de São Gonçalo. Os agentes estiveram em endereços em Irajá, Vicente de Carvalho, Guadalupe, Méier e Olaria, na Zona Norte, em Niterói, São Gonçalo e Maricá, na Região Metropolitana, e no Distrito Federal. Entre os alvos, 14 foram presos e uma pessoa detida em flagrante, com armas e drogas. Com um deles, foram encontrados mais de 2 mil ampolas de anabolizante produzido pelo grupo.

Entre os presos, está o chefe da quadrilha, Miguel Barbosa de Souza Costa Júnior, conhecido como Boss, em um imóvel de alto padrão, em São Gonçalo. Imagens da TV Globo registraram placas com frases ameaçadoras na residência do criminoso, como "Propriedade particular. Invasores serão alvejados. Sobreviventes serão alvejados novamente" e "Atenção. Da cerca pra dentro agimos igual ao STF. Acusamos, julgamos e executamos a pena!".
Com Bossa, foram apreendidos três pistolas, uma escopeta e munições. A mulher dele, conhecida como Capitã e líder do grupo, também foi detida no local. Um outro chefe da organização criminosa, que é responsável pela marca Thunder, está em um navio de cruzeiro e os agentes realizam diligência para conseguir prendê-lo.
"Essa estrutura hierárquica criminosa monitorava toda essa ação através dos grupos. Nós tínhamos os principais alvos, os cabeças, de vulgo Boss ou Escobar e a Capitã, que eram os líderes dessa organização criminosa. Eles coordenavam desde a produção até o consumo final desse produto", explicou a delegada adjunta.
As investigações começaram em junho de 2024, quando o setor de Segurança dos Correios identificou grandes quantidades de remessas de substâncias anabolizantes enviadas diariamente por encomenda para diversos locais do Rio e outros estados. Ao longo da apuração do esquema, foram apreendidas mais de 2 mil substâncias ilícitas que seriam remetidas, causando prejuízo de mais de R$ 500 mil ao grupo.
Entretanto, o Gaeco apontou que o número representa apenas cerca de 10% do total efetivamente distribuído pelos criminosos. "Nós estamos falando de 26 estados que essas marcas estão presentes. Porque nós temos a marca Next, mas eles abriam outras empresas, como a Thunder, para simular uma concorrência entre si. Estamos falando de uma estrutura criminosa muito grande, que atinge 26 estados", destacou o delegado titular da 76ª DP.
Os denunciados vão responder por associação criminosa, crime contra a saúde pública e crimes contra o consumidor. Somadas, as penas podem chegar a 20 anos de prisão. Os presos na operação foram encaminhados para a Divisão de Capturas e Polícia Interestadual (DC-Polinter), onde ficarão à disposição da Justiça. 
Segunda fase vai investigar participação de influenciadores

As investigações descobriram que os anabolizantes eram vendidos em sites e nas redes sociais. Apesar dos preços variarem de acordo com os componentes, os produtos eram comercializados abaixo do preço de mercado. A Polícia Civil identificou que para maximizar as vendas, o grupo também patrocinava grandes eventos de fisiculturismo e atletas profissionais, além de pagar influenciadores digitais para alavancar as vendas, que chegavam a receber mais de R$ 10 mil mensais para promoção da marca.

"Agora, a gente tem que voltar essa investigação, para entender essa dinâmica da divulgação dessa marca, pelos atletas e fisiculturistas influenciadores que têm uma grande gama de seguidores nas redes sociais e que divulgam essa marca. Inclusive, eles recebem para divulgar essas marcas e cumprem metas, esses criminosos estabeleciam metas para esses atletas angariar seguidores e retorno de compra", destacou Vergetti. A expectativa é analisar de forma detalhada a atuação dos investigados. 
"A Polícia Civil vai voltar a investigação para esse segmento, para a gente poder analisar de forma detalhada e individualizar a conduta de cada um, porque é uma marca vultuosa, que patrocina os maiores eventos de fisiculturismo do Brasil", completou a delegada. 

Também foram identificados diversos operadores financeiros, que lavavam a entrada e saída de quantias milionárias para dificultar a ação da polícia. A segunda etapa das investigações ainda vai apurar como funcionava o esquema de lavagem de dinheiro das vendas ilegais.
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