A dupla Espoleta e Zureba faz muito sucesso durante as apresentaçõesDivulgação
Publicado 13/07/2025 06:00 | Atualizado 13/07/2025 15:42
Alegres, coloridos e ingênuos, eles não interpretam. Os palhaços são os próprios atores expondo seu universo lúdico, a inocência e o lirismo na forma mais pura de expressão da arte. Eles se conectam ao estado de desprendimento completo do ser social e moral preestabelecido na sociedade para despertar no imaginário do respeitável público as mais variadas sensações. E invadem as telas de cinema e TV, como nas manhãs do SBT, com Patati Patatá; os palcos, como a dupla Espoleta e Zureba, e até os ambientes corporativos, como faz o palhaço e palestrante Márcio Libar, que abrirá turmas em setembro e novembro  para a oficina 'A Nobre Arte do Palhaço'.Dentro da História conhecida existem registros da palhaçaria pelo mundo há pelo menos quatro mil anos. Há relatos de figuras semelhantes ao palhaço dos dias atuais desde o Egito Antigo, assim como foram encontradas outras referências em Roma, Grécia, China, até em civilizações americanas, como as dos Astecas.
Nos tempos antigos, era comum que esses personagens adquirissem postos nobres ao lado de reis e imperadores, devido à capacidade de fazer a elite e os plebeus refletirem questões morais e político-sociais sem serem levados à guilhotina pelas verdades ali expostas através das palhaçadas.
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A grande verdade é que, dentro da cultura e educação milenar, eles sempre estiveram presentes e estão até hoje cativando adultos e crianças. Aqui no Brasil, são diversos exemplos de figuras apaixonantes com suas maquiagens, perucas, roupas, narizes vermelhos e sapatos engraçados.
Compromisso com a alegria
O sucesso destes profissionais do riso é tanto  que o SBT trouxe de volta às telas a dupla Patati Patatá, que nasceu nos anos 80 como uma trupe. Mas o sucesso dos palhaços explodiu e a dupla conquistou o coração da criançada, fazendo shows em programas de TV, pelo país e gravando LPs e, depois, DVDs. O retorno do programa infantil 'Bom Dia & Cia com Patati Patatá' aconteceu no último mês de maio, integrando na nova programação da emissora paulista. A atração é transmitida ao vivo e já pode ser conferida, diariamente, das 9h às 11h, pelo canal aberto do SBT.
Durante a coletiva de apresentação para a imprensa, Patati falou sobre a importância da missão de levar alegria e brincadeiras para os pequenos: "como é especial estar aqui.A gente fica muito contente e sabe da responsabilidade de trazer alegria para uma nova geração de crianças no Brasil inteiro". Patatá complementou, ressaltando a iniciativa do SBT em investir na programação: "Obrigada ao SBT pela coragem em apostar no Patati Patatá para juntos levarmos alegria e entretenimento para as casas de todos os brasileiros. As crianças merecem a alegria, a inocência o lúdico. E vamos fazer de tudo para levar o melhor para elas".
Embora vinculados aos circos, os palhaços não se prendem ao picadeiro e podem atuar também em espetáculos abertos, teatros, em programas de televisão ou em qualquer outro ambiente. Em várias ocasiões é o personagem que tem a tarefa de entreter o público entre as apresentações, especialmente nos circos mundo afora, e até em outros tipos de apresentações como os rodeios.
Amor pelo picadeiro e formação para palhaços e artistas
No Brasil, um dos maiores nomes do universo circense é o do ator, trapezista e empresário Marcos Frota. Sua história começou em 1986, quando interpretou Henrique na novela 'Cambalacho', exibida pela Rede Globo. Henrique era um jovem que largava os estudos na PUC para se tornar um trapezista de circo. Após esse personagem, a paixão pelo picadeiro veio com força. Desde 1995, ele mantém o Grande Circo Popular do Brasil, conhecido também como Marcos Frota Circo Show, no qual ele próprio atuou no trapézio algumas vezes.
Frota é  também embaixador do Circo dos Sonhos, e mantém a Universidade do Circo (Unicirco), uma escola de formação de artistas circenses, que funciona na Quinta da Boa Vista, Zona Norte do Rio. Marcos  é o idealizador e fundador do Mirage Circus, que é responsável por espetáculos grandiosos.
Palhaço, trapezista ou malabarista… a arte de todos é abraçada pelo circo, na visão do artista. "Aqui no Brasil, não precisa ser formado, bonito, feio, preto ou branco. Qualquer pessoa pode ser de circo. Usar o circo como instrumento de inclusão é apenas dar ênfase à vocação dos artistas", declarou Marcos antes de uma das apresentações do circo.

Música e educação para celebrar nossa raízes

Outra dupla que tem feito a cabeça da criançada é a dos palhaços Espoleta e Zureba, dos atores circenses Maurício Maia e Kaká Teixeira, respectivamente. O duo está a todo vapor com o projeto abraçado pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado do Rio de Janeiro. O espetáculo passou por Itaocara, na região Noroeste, e segue sendo apresentado nas escolas pelo Estado.
"Trata-se de um projeto cultural que combina música e educação para resgatar as cantigas de roda do folclore brasileiro e africano, ‘Espoleta e Zureba: Cantando Nossas Raízes’ é voltado ao público infantil e busca preservar as raízes culturais, destacando canções, histórias e brincadeiras tradicionais", explica Maurício Maia ( Espoleta). "Nossa inspiração veio do folclore e das cantigas de roda africana. A apresentação convida as crianças a uma jornada mágica, promovendo a conexão com suas tradições e identidade cultural e trata-se de uma belíssima celebração que visa não apenas entreter, mas educar e promover a valorização da identidade das nossas crianças", finaliza Kaká Teixeira (Zureba).
De cara limpa
Didi, Dedé, Mussum e Zacarias. O quarteto mais fantástico do humor no Brasil reinou décadas no coração do púbico brasileiro. Considerados ‘palhaços de cara limpa’, os Trapalhões divertiam crianças e adultos com suas aventuras na telinha e eram campeões de bilheteria, brilhando em 21 filmes muito antes de sonharmos com o Oscar. Nascido no circo, Dedé, ou Manfried Sant’ Anna, filho de Oscar, o Palhaço Picollino e da contorcionista Ondina, fez de tudo um pouco sob essa lona encantada.
Atuou como palhaço, acrobata, trapezista, domador de elefantes e brilhou também se arriscando no 'globo da morte'. Chegou a interpretar o palhaço Arrelia no próprio circo do artista, quando o titular se ausentou para gravar seu programa, o Circo do Arrelia. Como se desdobrava entre o trabalho em uma confecção pela manhã e as apresentações na matinê à noite, uma vez Dedé chegou atrasado para o espetáculo e esqueceu de pintar o rosto. O público se divertiu ainda mais e ele passou a ser chamado de palhaço de cara limpa. Vem daí a origem do termo que se estenderia aos quatro humoristas.

Foi Dedé quem ensinou muitas piruetas e movimentos típicos do circo a Renato Aragão, com quem firmou parceria na TV Excelsior, nos anos 1960, em Adoráveis Trapalhões, ao lado de Wanderley Cardoso, Ivon Cury e Ted Boy Marino. Mais tarde, o mangueirense carioca Antônio Carlos (Mussum) e o mineirinho Mauro Gonçalves (Zacarias) completaram o quarteto, que estreou o programa 'Os Trapalhões', na Rede Tupi, em 1973 e que depois migrou para a TV Globo, em 1977. Foram mais de 30 anos de exibição e um sucesso que os tornou inesquecíveis.
Patch Adams: risos que curam

Quem ama palhaços certamente se encantou com filme "Patch Adams - O Amor é Contagioso". Estrelado pelo ator Robin Williams, o longa conta a história do médico Hunter Doherty Adams, que se tornou referência internacional por usar o humor e um atendimento humanizado como métodos de tratamento. Para o americano, nascido em Washington D.C., Estados Unidos, em 1945, o foco principal precisa ser o paciente e não a doença. Suas ações e filosofia de vida levaram à criação do Instituto Gesundheit, entidade que oferece atendimento gratuito com esse direcionamento holístico.
Antes de se formar em medicina, Hunter sofreu com a morte do pai e por três vezes foi internado em hospitais psiquiátricos. Estudava na Virginia Medical University e, no tempo livre, realizava apresentações como palhaço. Fundou o Gesundheit, em 1972 e, em 1980 adquiriu 317 acres de terra na Virgínia para construir a sede do instituto. Desde 1985 e ainda hoje, Hunter e sua equipe de palhaços viajam pelo mundo para levar sua alegria a comunidades carentes, territórios em situação de guerra e campos de refugiados. Em 2019, a trupe esteve no hospital do Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer (Graacc), na Vila Mariana, Zona Sul de São Paulo.
"Não acredito em doenças mentais. O que é chamado de doença mental é uma perda de conexão com a natureza e uma desconexão com as artes. Isso não é doença, é um problema social. Amor sem humor pode ficar estranho. Amor nos coloca pra cima, mas o humor ajuda o amor a se manter lá no alto", completou o Dr, Patch Adams durante a visita.

Palhaçada no ambiente corporativo
"Eu sou ator, mas quando alguém na rua me pergunta o que eu faço na vida, eu respondo: Para ser sincero eu sou palhaço. Só para ser sincero". Assim se define Márcio Libra, ator, diretor teatral de formação e palhaço por especialização. Ele conta que sempre sonhou ser reconhecido como um grande ator teatral e acabou no picadeiro, com toda grandeza que esse espaço tão amado tem. Nos anos 1990, Márcio criou o evento 'Anjos do Picadeiro: Encontro Internacional de Palhaços", realizado por quase duas décadas.
Hoje é um dos mais influentes palhaços em atuação no Brasil e criou a metodologia 'A Nobre Arte Do Palhaço', que pode ser aplicada tanto no campo da arte, da educação, na gestão pública e no mundo corporativo. Isso mesmo: as empresas também descobriram a arte do palhaço como ferramenta para potencializar o desempenho de equipes para a alta performance no ambiente de trabalho. Em entrevista ao jornal O DIA, Márcio Libar fala mais da sua arte.


O DIA: Como se descobriu um palhaço e porque as pessoas se encantam tanto com essas figuras através dos tempos?

Márcio Libar: Ano que vem me torno um sexagenário. Esse ano completo 40 anos de carreira, comecei aos 20 e venho do teatro. Grande parte da minha carreira se fez no teatro de rua. Desses 40 anos, 35 são dedicados à arte do palhaço. Antes de ser arte, o palhaço é ofício, e como qualquer ofício, precisa de pelo menos 10 anos para se aprender. Aprender um número, aprender a fazer rir, aprender técnicas. Mas de todos esses aprendizados, o maior de todos é aprender cada vez mais sobre você. E essa parte não se aprende, ela se revela. O palhaço é o que sobra quando a máscara cai, quando o personagem não dá conta; O palhaço é a única coisa que fica de pé depois que você vê ruir todas as ilusões daquilo que você achava que era. Como eu sempre digo: Jamais Serás quem tu não és.


O DIA: Por que a palhaçaria é uma boa ferramenta para o mundo corporativo? Como você trabalha isso?

Márcio Libar: O palhaço é importante para todas os ambientes e profissionais ligados no modo alta performance. Pessoas ligadas nesse modo têm o seu senso de valor e autoestima baseada nos resultados que ela produz ou é capaz de produzir. Resultados bons, autoestima elevada. Resultados medianos, autoestima mais ou menos. Resultados ruins, autoestima no ralo.  Tem um texto que gosto de usar nas minhas dinâmicas que diz mais ou menos assim: Na empresa em que o palhaço trabalha — o circo — o que se vende é o desafio à morte e à lei da gravidade. O salto é mortal, o Globo é da Morte. Os funcionários voam, se equilibram a 15 metros, controlam objetos no ar. Nós, na plateia (os clientes), pagamos pra ver a excelência da performance. A coragem do trapezista. O foco do equilibrista. A flexibilidade do contorcionista. E saímos admirados. Mas também um pouco humilhados. Aplaudimos porque sabemos que aquilo está longe do nosso alcance.  Mas aí… entra ele. Careca, barrigudo, tropeçando, levando tombo, sendo cuspido da cama elástica. Perdendo as calças no trapézio e a plateia explode em riso. 
O DIA: Como a filosofia do palhaço pode contribuir para melhorar nosso mundo, que anda sem graça?

Márcio Libar: Acho que estamos diante de duas realidades inegáveis, o déficit de saude mental. O Brasil é o numero 1 no mundo em ansiedade. E as vésperas de uma realidade em que a IA provocará grandes transformações na humanidade, principalmente no que se refere a importância do ser humano no mundo do trabalho. O fato de a máquina ser infalivelmente mais eficiente, mais inteligente e até mais criativa e mais gentil em alguns casos, nos abre uma grande janela de oportunidades. Pela primeira vez a humanidade poderá, de forma coletiva, se sentir imperfeita, inacabada, vacilante e incompetente.

O DIA:  Fale um pouco sobre suas oficinas e a próximas edições.

Márcio Libar: Minha oficina A Nobre Arte do Palhaço, acontece quatro vezes por ano. Esse ano ainda tem mais duas, setembro e novembro. Eu já faço ela há quase 30 anos e mais de 5 mil pessoas entre artistas e não artistas já passaram por ela. Quem quiser saber detalhes sobre ela, tem o link na minha bio no Instagram @MarcioLibar. As datas estarão disponíveis nas minhas redes.
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