Depois de tudo que passou, Paulo Zsa Zsa quis alertar outros paisArquivo pessoal
Publicado 03/08/2025 00:00
Eles são novos, têm inúmeras dúvidas e uma vida inteira pela frente, mas a adolescência pode ser muito cruel quando aqueles que mal deixaram de ser crianças encaram uma série de desafios. E não estamos falando de uma prova na escola, do primeiro beijo ou da briga com a melhor amiga. Plataformas da internet como a Discord roubam a inocência de quem jamais precisaria passar por mutilações e tentativas de suicídio. Pensando nisso e com o objetivo de alertar a outros pais, Paulo Zsa Zsa escreveu o livro Aconteceu com a Minha Filha, da editora Geração. Ele preferiu usar um pseudônimo para não expor sua filha, que no livro tem o nome de Júlia, e a idade correta, 13 anos. A intenção ´maior é mostrar o que pode estar por trás da tela de um computador ou de um celular."Se eu tivesse em mãos um livro como esse, talvez não passasse por coisas como a que aconteceram com Júlia". Ele é viúvo e cria a menina sozinha, com a ajuda de uma funcionária, desde que a mãe dela morreu de câncer há cerca de oito anos. "Um dia fomos tomar banho de mar e uma amiga percebeu que ela tinha marcas de cortes na virilha. Júlia já vinha se mutilando há algum tempo e disse que fazia porque sentia um vazio. Meses depois vi cortes nos braços e pelo corpo todo. Eram 23 horas de um domingo, eu estava assistindo a um filme quando a vi toda cortada. Ela estava de calcinha e sutiã e disse: pai, eu surtei, me interna. Eu me desesperei e a levei ao hospital e posteriormente procuramos ajuda com psiquiatra e psicóloga", diz Paulo Zsa Zsa.
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Ele conta que ficou surpreso quando sua funcionária pegou o celular da Júlia e descobriu que ela participava de desafios na internet. "Nós, pais, não fazemos a menor ideia destes absurdos. Em um dos diálogos de uma das participantes a seguinte frase: Eu não fico feliz enquanto alguém não se suicidar", disse ele, que recebe de 10 a 15 mensagens no Instagram falando sobre o assunto. Atualmente, o livro está em sexto lugar entre os de não ficção.
O autor doou 100% da arrecadação para um instituto que dá apoio para alunos de escolas públicas do Rio de Janeiro também envolvidos nesses desafios nefastos. "Eu tive como pagar psiquiatra e psicóloga para minha filha, mas muita gente não tem. O livro virou uma causa e eu já recebi quatro propostas para que seja transformado em filme’’, conta Paulo.
Ele critica a forma como acontecem os 'encontros' com os adolescentes, as chamadas panelas: são servidores fechados nos grupos que não tem como monitorar. "As plataformas não param porque ganham milhões. Quanto maior a polêmica, mais vendem. O Discord é uma terra de ninguém e não tem fiscalização. O negócio é bizarro. Você usa o Discord para jogar e esse jogo acaba virando comunidades incontroláveis, sem nenhum controle e é usado para o mal. A ferramenta deveria ter filtro".
Depois do episódio com a filha, que, além das mutilações, também tentou o suicídio duas vezes, Paulo tirou o celular e quando ela está com o aparelho sempre fiscaliza. "Adolescente não tem que ter privacidade. Se ela pegar o celular tem recaída. Depois de muito tempo, dei de volta, mas tirei as redes sociais e espelhei no meu. É um processo de vigia constante e a primeira solução é o conhecimento’’, explica.
Quando viu a palavra 'lulz' no celular da fllha achou que estava escrito errado. Somente depois entendeu que se trata de uma brincadeira horrorosa ao estilo do mestre mandou de antigamente, mas com ordens do mal do tipo: "Hoje quero fazer lulz – quero que você jogue seu cachorro na privada e de descarga e filme, agora quero que você corte seu braço e jogue álcool. Só quem está vendo é quem participa ao vivo". Uma infinidade de horrores via internet.
A dinâmica desses grupos virtuais é marcada pelo anonimato. Atrás de avatares e apelidos, as verdadeiras identidades dos participantes ficam ocultas, o que dificulta saber com quem se está falando. Em muitos casos, adultos se passam por adolescentes — mas há também uma grande presença de jovens reais. "São adolescentes induzindo outros adolescentes a participar de práticas perigosas, em busca de aceitação", alerta o autor do livro Aconteceu com Minha Filha.
"A lógica desses grupos é perversa: quanto mais vulnerável o jovem, maior a chance de ser manipulado por esse ambiente tóxico, onde se formam laços virtuais com quem parece ser um 'amiguinho' compreensivo, mas pode ser alguém com intenções criminosas. Para enfrentar esse cenário, a polícia tem atuado com agentes infiltrados nesses grupos online, justamente por conta da dificuldade de identificar os responsáveis pelas postagens. O objetivo é monitorar comportamentos suspeitos, reunir provas e punir possíveis autores de crimes digitais".
Segundo o escritor, vários delegados de secretarias de segurança pública, especialmente os que atuam no combate a crimes cibernéticos seguem o perfil. "Eles têm nos procurado por meio do perfil do livro nas redes sociais para relatar que vêm recomendando a leitura a suas equipes. Segundo eles, o livro apresenta de forma clara e didática como esses grupos funcionam e os riscos que representam para crianças e adolescentes", explica o autor.

Investigação digital avançada

Lidar com a adolescentes nesta época de internet é difícil e a tarefa de identificar pessoas que cometem crimes virtuais não é fácil, mas possível. O delegado da Prerrogativas da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ) e vice-presidente da Comissão do Tribunal do Júri da Anacrim (Associação Nacional dos Advogados Criminalistas), Carlos Alberto Almeida Moreira da Silva, fala sobre o assunto. De acordo com o profissional, o ambiente digital é tão perigoso quanto chegar em casa depois das duas da manhã, principalmente se não houver acompanhamento.
"Não temos acesso a quem está do outro lado. Pode ser outro adolescente mal-intencionado, uma criança inocente ou até um adulto pedófilo. Não dá para saber. Muitos pais usam o dispositivo Family Link, que estipula horários, bloqueia o celular e permite que eles saibam o que os filhos estão fazendo", orienta.
Segundo o advogado criminalista, a investigação digital está bastante avançada no país. "Para a preservação da prova digital, existe um site chamado Verifact, que grava tudo. Mas acho que deveríamos ter uma Política Pública de combate aos crimes cibernéticos, e não temos. Existe apenas uma delegacia no Estado do Rio dedicada a isso, e não é suficiente para combater tantos crimes digitais", afirma.
Ainda assim, ele explica que a justiça vem tentando melhorar a investigação. "A internet não foi feita para ser fiscalizada, mas é a investigação que impede a impunidade. Imagine quantos casos passaram despercebidos até chegar à iniciativa de publicar este livro. Quantos mais acontecem até que o judiciário seja acionado? E, nesse meio tempo, muitas pessoas já ficaram prejudicadas, com mortes ou automutilações. Não tenho dúvida", exemplifica.
Apesar das dificuldades durante o processo, é possível obter mais acesso a dados, claro, sempre com o aval da justiça."Pouca gente sabe, mas hoje é possível fazer a quebra da nuvem de aparelhos Android e iPhone, além de computadores. Isso é chamado de Quebra de Dado Telemático. Todos nós temos uma garantia constitucional sobre nossos dados telemáticos e comunicações, como correspondências e ligações telefônicas. O meio digital também é protegido pelo sigilo. Assim, a justiça, o delegado de polícia e o Ministério Público podem solicitar ao judiciário a quebra de dado telemático", salienta.

Ele acrescenta que o Ministério Público e a Polícia Civil adquiriram do Estado de Israel um programa chamado Celebrite (que oferece softwares e serviços de análise forense de dispositivos eletrônicos). "Esse software é capaz de analisar qualquer equipamento eletrônico, quebrar senhas — seja qual for — e até mesmo descriptografar dados e recuperar arquivos que tenham sido apagados de dispositivos digitais, que nós já tenhamos apagados e não temos mais acesso, mas ele é capaz de recuperar. E tudo isso em, no máximo, uma hora", conclui o advogado criminalista.

Necessidade de pertencimento
Psiquiatra dos hospitais Universitário Cajuru e São Marcelino Champagnat, de Curitiba/PR, Marcelo Heyde aborda o fato de muitos adolescentes seguirem esses desafios na internet. "Existem vários fatores envolvidos e esses desafios e comportamentos são cíclicos. Por natureza, os seres humanos são fortemente influenciados pelo ambiente em que estão inseridos, e isso é ainda mais intenso nos adolescentes que ainda estão moldando a personalidade e tem menos mecanismos de freios comportamentais".
O especialista afirma que os adolescentes têm, geralmente, uma forte necessidade de pertencimento a um grupo. "Se estes comportamentos e desafios estão presentes no convívio dele, ele pode se sentir tentado a reproduzir para fazer parte. Mesmo em adolescentes, existem pessoas com algum grau de perversidade já desenvolvido, e esta pessoa pode forçar outras mais frágeis a realizar essas práticas. Adolescentes mais fragilizados, com algum transtorno de humor não diagnosticado ou tratado, ou em uma personalidade mais instável emocionalmente (o que chamamos de transtorno de personalidade borderline na vida adulta), encontra, nesse comportamento, uma forma de 'alívio' da dor emocional", pontua.
Para Heyde, a exposição as telas e redes sociais devem ser adiadas ao máximo, mesmo que a pressão social seja alta. "Quando o adolescente ganhar um celular, ele deve ser supervisionado pelos pais, com o uso preferencialmente quando estiverem todos no mesmo ambiente. A questão da privacidade neste momento é secundária, e com o passar do tempo e maturidade, ele pode ir ganhando mais privacidade gradativamente. Deve haver, por parte dos responsáveis, um ensinamento sobre as possíveis armadilhas, e, em caso de dúvidas, deve existir a confiança para avisar os responsáveis, bem como existem aplicativos de barreira que permitem apenas o uso adequado para cada faixa etária".

‘Isolamento pode indicar vício’

A psicóloga clínica e jurídica Andreia Calçada fala sobre a consequência que esses desafios online podem trazer para adolescentes e jovens. "O uso excessivo das redes sociais já se configura como um dos principais fatores de risco para a saúde mental na juventude. Entre os sinais de alerta estão os longos períodos diante de telas, o abandono de atividades cotidianas, alterações no sono, perda de apetite, isolamento familiar e social e queda no rendimento escolar’’, explica.
Se esse adolescente ou jovem tiver uma família disfuncional, a situação se agrava. "Para jovens que já enfrentam conflitos familiares ou apresentam distúrbios emocionais, o impacto pode ser ainda mais intenso. Muitos acabam buscando nas redes sociais uma forma de suprir carências afetivas ou de expressar sua dor, tornando-se alvos fáceis para influenciadores e pessoas mal-intencionadas e comunidades virtuais perigosas. Podemos citar como exemplo, os grupos que incentivam os jovens a não se alimentarem visando a magreza, promovem comportamentos autodestrutivos com desafios e jogos, o que representa uma ameaça real, principalmente para adolescentes emocionalmente fragilizados", afirma.
De acordo com a profissional, os pais devem ficar atentos quando observarem que o adolescente deixa de interagir com a família, passa a virar a noite em jogos online ou navegando em redes sociais. Esse isolamento pode indicar vício digital ou até esconder quadros mais graves, como depressão ou ansiedade. Mas ela alerta que a melhor forma de proteger os adolescentes não é a proibição total do uso das redes, mas sim o acompanhamento ativo.
"Ferramentas de controle parental, limites de tempo de uso e, principalmente, o diálogo aberto e sincero entre pais, filhos e educadores são fundamentais para prevenir danos. Os pais precisam estar presentes, conversar, entender o que os filhos consomem e com quem interagem e até pedir sugestões para eles, mas sempre lembrando que eles precisam ter limites e monitoramento. Pais devem estabelecer uma relação de autoridade e respeito com os filhos", orienta.
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