Publicado 07/08/2025 06:00 | Atualizado 07/08/2025 15:06
Rio - O movimento Agosto Lilás marca o mês da conscientização pelo fim da violência contra a mulher. Em um cenário de números crescentes de feminicídio e tentativas de feminicídio, iniciativas que promovem acolhimento e fortalecimento de mulheres em situação de violência ganham ainda mais relevância. É o caso do Programa Empoderadas, que oferece aulas práticas gratuitas de defesa pessoal, apoio jurídico, psicológico e social, além de cursos profissionalizantes voltados à autonomia financeira da mulher. Atualmente o coletivo está presente em 60 polos ativos no estado do Rio de Janeiro.
PublicidadeCriado para atender mulheres que passaram por situações de violência doméstica ou em espaços públicos, o coletivo disponibiliza aulas com duração de 1h30, no mínimo duas vezes por semana. A metodologia inclui técnicas de defesa pessoal baseadas em situações reais do cotidiano, ministradas por monitoras e professoras faixa-preta em jiu-jitsu ou judô.
Uma dessas mulheres que faz parte do coletivo, e prefere não se identificar, teve sua vida completamente transformada após uma noite de violência extrema, em dezembro de 2024, na Baixada Fluminense. A vítima, de 50 anos, diz que estava saindo de um bar, aguardando um carro de aplicativo, quando foi abordada por dois homens. "Me empurraram para dentro de um carro. Pararam na Via Light e fizeram barbaridades comigo. Eu chorava e tentava gritar, mas eles só riam", lembra.
Depois de ser estuprada, foi deixada na rua. Conseguiu chegar em casa sozinha, em choque, e desmaiou logo em seguida. No dia seguinte, além das marcas físicas e emocionais, ainda enfrentou o julgamento de familiares. "Por vinte minutos de prazer, esses desgraçados acabaram comigo e com a minha autoestima", desabafa. Desde então, ela tenta seguir em frente e busca forças na rede de apoio do Programa Empoderadas. Mesmo com todo o suporte, a vítima confessa que ainda não teve coragem de denunciar o crime na Polícia Civil.
Depois de ser estuprada, foi deixada na rua. Conseguiu chegar em casa sozinha, em choque, e desmaiou logo em seguida. No dia seguinte, além das marcas físicas e emocionais, ainda enfrentou o julgamento de familiares. "Por vinte minutos de prazer, esses desgraçados acabaram comigo e com a minha autoestima", desabafa. Desde então, ela tenta seguir em frente e busca forças na rede de apoio do Programa Empoderadas. Mesmo com todo o suporte, a vítima confessa que ainda não teve coragem de denunciar o crime na Polícia Civil.
Dias depois do episódio de abuso, ela conheceu o Empoderadas. "Eu conheci o coletivo através do Instagram e fiz contato com a equipe multidisciplinar, que rapidamente conseguiu me ajudar. Eu sofro muito até hoje com tudo que aconteceu, mas encontrei nas Empoderadas o que eu precisava", afirma.
Ela diz que o impacto do projeto foi além do acolhimento emocional. "Mudou a minha postura. Hoje eu ando em alerta, percebo os sinais. Tem todos os protocolos que as professoras ensinam no tatame e verbalmente também. Minha visão periférica está muito mais atenta. A gente vai aprendendo muita coisa. Só foi acrescentado. Me sinto muito mais segura", afirma.
Ela destaca ainda o quanto o projeto vai além da defesa pessoal. "Toda mulher precisa participar de projetos como esse ou deveria pelo menos visitar e ver que outras passam por isso. Eu não perco nada, nenhum encontro. Só vem acrescentar, independente se você já passou por situações como essas ou não. É agir como prevenção", reflete.
Atualmente, ela carrega consigo os aprendizados na prática. "Os protocolos de segurança que eu seguiria naquela situação que me colocaram seriam ficar com as pernas mais firmes e esticadas, poderia ter usado a minha visão periférica, vendo a lateral e percebendo a traseira", analisa.
Ela diz que o impacto do projeto foi além do acolhimento emocional. "Mudou a minha postura. Hoje eu ando em alerta, percebo os sinais. Tem todos os protocolos que as professoras ensinam no tatame e verbalmente também. Minha visão periférica está muito mais atenta. A gente vai aprendendo muita coisa. Só foi acrescentado. Me sinto muito mais segura", afirma.
Ela destaca ainda o quanto o projeto vai além da defesa pessoal. "Toda mulher precisa participar de projetos como esse ou deveria pelo menos visitar e ver que outras passam por isso. Eu não perco nada, nenhum encontro. Só vem acrescentar, independente se você já passou por situações como essas ou não. É agir como prevenção", reflete.
Atualmente, ela carrega consigo os aprendizados na prática. "Os protocolos de segurança que eu seguiria naquela situação que me colocaram seriam ficar com as pernas mais firmes e esticadas, poderia ter usado a minha visão periférica, vendo a lateral e percebendo a traseira", analisa.
Pequenos hábitos fazem a diferença
A urgência de iniciativas que protejam as mulheres ficou evidenciada recentemente com o caso do jogador de basquete Igor Eduardo Pereira Cabral, de 29 anos, que desferiu 61 socos contra a namorada dentro de um elevador na Zona Sul de Natal.
Para Érica Paes, superintendente de Empoderamento e Equidade de Gênero do Estado do Rio de Janeiro e referência nacional em segurança feminina, pequenos hábitos de atenção podem ter um impacto significativo na prevenção da violência contra a mulher.
"Quando estiver esperando um carro de aplicativo, por exemplo, procure ficar em locais iluminados e movimentados, sempre de costas para a parede, com visão ampla do entorno. Confirme a placa, o modelo e o nome do motorista antes de entrar. Compartilhe a corrida com alguém de confiança. Evite ficar distraída no celular na rua. E, principalmente, confie nos seus instintos: se algo parecer errado, não hesite em cancelar ou pedir ajuda. A prevenção começa pela atenção e pela atitude", orienta a especialista.
Além da segurança física, Érica destaca o papel do empoderamento emocional no processo de reconstrução das vítimas. "O impacto é profundo. Muitas chegam retraídas, com medo, com a autoestima completamente abalada. Ao longo do processo, vemos uma mudança no olhar, na postura, na maneira como se posicionam no mundo. Elas redescobrem o próprio valor, retomam a confiança e, principalmente, passam a entender que não são culpadas pela violência que sofreram. O empoderamento emocional é, muitas vezes, o que salva essas mulheres, e quando isso acontece, a transformação é visível e irreversível."
"Quando estiver esperando um carro de aplicativo, por exemplo, procure ficar em locais iluminados e movimentados, sempre de costas para a parede, com visão ampla do entorno. Confirme a placa, o modelo e o nome do motorista antes de entrar. Compartilhe a corrida com alguém de confiança. Evite ficar distraída no celular na rua. E, principalmente, confie nos seus instintos: se algo parecer errado, não hesite em cancelar ou pedir ajuda. A prevenção começa pela atenção e pela atitude", orienta a especialista.
Além da segurança física, Érica destaca o papel do empoderamento emocional no processo de reconstrução das vítimas. "O impacto é profundo. Muitas chegam retraídas, com medo, com a autoestima completamente abalada. Ao longo do processo, vemos uma mudança no olhar, na postura, na maneira como se posicionam no mundo. Elas redescobrem o próprio valor, retomam a confiança e, principalmente, passam a entender que não são culpadas pela violência que sofreram. O empoderamento emocional é, muitas vezes, o que salva essas mulheres, e quando isso acontece, a transformação é visível e irreversível."
Rio concentra 7,2% dos feminicídios registrados no Brasil
A 19ª Edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado no último dia 24 de julho, mostra que o Brasil teve 1.492 vítimas de feminicídio em 2024. O número é o maior já registrado desde 2015, quando a legislação que tipifica o crime entrou em vigor.
No recorte do estado do Rio de Janeiro, os dados também revelam um cenário preocupante. Foram 107 feminicídios em 2024, contra 99 no ano anterior, um aumento de 8%. Esse número representa 7,2% de todos os feminicídios ocorridos no país no ano passado.
O caso mais recente aconteceu no último sábado (2), quando Bárbara Magna da Silva, de 46 anos, foi morta a facadas pelo ex-marido no bairro Jardim América, na Zona Norte do Rio. Ele agressor se entregou à polícia e foi preso em flagrante.
As tentativas de homicídios de mulheres também cresceram. Em 2024 foram contabilizadas 4.696 casos no estado, ante 3.742 em 2023, aumento de 25,4%. Dessas, 4.025 foram classificadas como tentativas de feminicídio.
Como denunciar
De acordo com a Polícia Militar, a violência contra mulher/violência doméstica ocupa a segunda posição no ranking de chamadas para a Central de Emergência 190 da corporação do Rio de Janeiro. Mais de 10% dos acionamentos de viaturas são para atender casos de violência contra mulher.
"Apesar do grande número de acionamentos, é importante lembrar que a Patrulha Maria da Penha não foi criada para atendimentos de emergências, mas sim para o acompanhamento de mulheres com medida protetiva", alerta a major Bianca Ferreira, coordenadora do programa Patrulha Maria da Penha – Guardiões da Vida.
Segundo ela, é muito importante que, diante de uma situação de violência, a mulher procure uma delegacia da Polícia Civil para registrar um boletim de ocorrência contra o agressor. Isso porque o registro é o primeiro passo para que a Justiça possa emitir a medida protetiva.
A major lembra que a denúncia pode ser feita em casos de diferentes tipos de violência, como prevê a Lei Maria da Penha: agressões físicas, ameaças, abusos psicológicos, violência sexual e até situações de controle financeiro ou destruição de bens, por exemplo.
Para garantir que as medidas protetivas sejam concedidas com mais rapidez e segurança, o programa Patrulha Maria da Penha trabalha em parceria com diversos órgãos, como a Polícia Civil, o Ministério Público, o Tribunal de Justiça e outras instituições públicas e da sociedade civil. Juntos, formam uma rede de proteção para ajudar mulheres a saírem do ciclo da violência e retomarem suas vidas com dignidade e segurança.
"Apesar do grande número de acionamentos, é importante lembrar que a Patrulha Maria da Penha não foi criada para atendimentos de emergências, mas sim para o acompanhamento de mulheres com medida protetiva", alerta a major Bianca Ferreira, coordenadora do programa Patrulha Maria da Penha – Guardiões da Vida.
Segundo ela, é muito importante que, diante de uma situação de violência, a mulher procure uma delegacia da Polícia Civil para registrar um boletim de ocorrência contra o agressor. Isso porque o registro é o primeiro passo para que a Justiça possa emitir a medida protetiva.
A major lembra que a denúncia pode ser feita em casos de diferentes tipos de violência, como prevê a Lei Maria da Penha: agressões físicas, ameaças, abusos psicológicos, violência sexual e até situações de controle financeiro ou destruição de bens, por exemplo.
Para garantir que as medidas protetivas sejam concedidas com mais rapidez e segurança, o programa Patrulha Maria da Penha trabalha em parceria com diversos órgãos, como a Polícia Civil, o Ministério Público, o Tribunal de Justiça e outras instituições públicas e da sociedade civil. Juntos, formam uma rede de proteção para ajudar mulheres a saírem do ciclo da violência e retomarem suas vidas com dignidade e segurança.
Canais de atendimento
Entre os canais disponíveis para denúncias de violência contra a mulher, destacam-se:
Serviço 190 e o Aplicativo Rede Mulher da Secretaria de Estado de Polícia Militar;
Disque 180: canal do Governo Federal para denúncias e orientações;
Disque 100 - Cidadania e Direitos Humanos: canal de denúncias, reclamações e orientações que funciona 24 horas por dia e sete dias por semana ( Telefone: 0800-023-4567 / WhatsApp: (21) 97706-2831);
Disque Denúncia: registra denúncias 24 horas por dia e sete dias por semana, por meio dos telefones: (21) 2253-1177 (Região Metropolitana) e 0300-253-1177 (nas demais regiões com custo de ligação local);
Ouvidoria do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ): atende denúncias e pedidos de informação de segunda a sexta-feira (dias úteis), de 9h às 18h (telefones 127 – capital e (21) 3883-4600 – demais localidades);
Programa Empoderadas
O Programa Empoderadas, criado pelo Governo do Rio de Janeiro, oferece rede de apoio multidisciplinar, gratuita, voltada à prevenção e ao enfrentamento à violência contra a mulher. As atividades incluem aulas técnicas para leitura corporal para desvencilhamento, ministradas por professoras especialistas, em tatames; assistência e acolhimento nas áreas jurídica, social e psicológica; além de cursos profissionalizantes para combater a dependência financeira. Para se inscrever, basta acessar este link.
O Programa Empoderadas, criado pelo Governo do Rio de Janeiro, oferece rede de apoio multidisciplinar, gratuita, voltada à prevenção e ao enfrentamento à violência contra a mulher. As atividades incluem aulas técnicas para leitura corporal para desvencilhamento, ministradas por professoras especialistas, em tatames; assistência e acolhimento nas áreas jurídica, social e psicológica; além de cursos profissionalizantes para combater a dependência financeira. Para se inscrever, basta acessar este link.
Leia mais

Comentários
Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.