Publicado 14/08/2025 14:47
Rio — Fáceis de transportar, as bicicletas têm se tornado alvos cada vez mais frequentes de criminosos, sobretudo na Zona Sul. Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) revelam que, de janeiro a julho de 2025, foram furtadas 408 bicicletas apenas entre Leblon e Ipanema — um aumento de 254,8% em relação ao mesmo período do ano passado, quando houve 115 ocorrências. Em meio à insegurança, ciclistas revelaram ao DIA alternativas para continuar pedalando na cidade.
PublicidadeDe acordo com o levantamento, o total de casos em julho foi o dobro do registrado em 2024, chegando a 48. Incluindo bairros como Copacabana, Humaitá, Botafogo, Catete, Cosme Velho, Flamengo, Glória e Laranjeiras, o sétimo mês de 2025 contabilizou 103 furtos — 39 a mais do que o ano anterior, o que corresponde a um acréscimo de 61%.
O comparativo juntando os 10 bairros é ainda mais alarmante. De janeiro a julho deste ano houve 891 ocorrências - 472 a mais do que em 2024, o que representa um aumento de 113%.
Os roubos desse meio de transporte também cresceram na região do Leblon e de Ipanema. Em seis meses, foram 12 ocorrências, contra apenas quatro na mesma ocasião de 2024. No mês de julho, o crime não foi constatado. Nas demais regiões, o número de roubos diminuiu.
De acordo com ciclistas que circulam pela Zona Sul, entre as alternativas para andar em segurança estão formação de grupos, boa tranca e seguro para os veículos, além de atenção nas ruas.
Ao DIA, um dos atletas, Pedro Cury, 45 anos, disse que criou há mais de 20 anos um site sem fins lucrativos, voltado para ajudar a localizar bicicletas furtadas e roubadas. Na plataforma, bicicletasroubadas.com.br, o Rio de Janeiro consta como o segundo estado com mais ocorrências.
"Eu criei o site porque eu tinha medo de ser roubado e a gente está falando de muitos anos atrás, não tinha nem seguro de bicicleta. Naturalmente, temos um aumento no número de registros, até porque aumentou muito o número de bicicletas, mas a gente vê que tem situações que nunca se resolvem, e que acabam entrando nesses ciclos onde a gente tem mais roubos no geral", disse.
Pedro frisou que os casos que mais ocorrem são de furtos. "Eu acho que uma coisa que as pessoas não percebem muito é sobre trancar a bicicleta corretamente. Então, você dá uma boa tranca e efetivamente saber trancar é uma coisa muito importante. E realmente o seguro é a melhor solução, porque mesmo com um rastreador você não vai conseguir recuperar sua bicicleta. Além de ficar atento, para não virar um alvo", reforçou.
Outros ciclistas ouvidos pela reportagem contaram ainda já terem passado por situações de roubos na região, como é o caso do ministro religioso Eduardo Transcoveski, de 62 anos.
"Foram duas situações de incidentes. Em uma eu estava pedalando com um amigo no Alto da Boa Vista, e levaram os nossos celulares. Seis meses depois, nós tivemos outra situação, estávamos em quatro ciclistas e três assaltantes nos abordaram e levaram três 'bikes'. Ou seja, mesmo andando em grupo a gente acabou tendo essa dificuldade. Isso foi no Aterro, às 4h30, em um local e horário fechado só para ciclistas", afirmou.
Os incidentes ocorreram com Eduardo há cerca de 2 anos, mas ele explica que a sensação de insegurança aumenta cada vez mais.
"Não mudou nada porque a gente vê os colegas todos reclamando, a gente sabe de situações diversas nesse sentido. Então, acho eu que a coisa só piorou na verdade, não houve nenhuma melhora. Infelizmente, a gente está à mercê dessas ocorrências, porque eu duvido que a gente vai ter, por exemplo, policiais na rua nesse horário", lamentou.
O ciclista citou que é difícil garantir segurança, mas comentou o que faz para minimizar os riscos. Uma das alternativas, segundo ele, é andar em grupos grandes, de 20 a 30 ciclistas, como costumam fazer ao sair da Praça Sáenz Peña, na Tijuca, para o Aterro do Flamengo.
"A gente minimiza andando em grupo, mas nem sempre você consegue depender de quatro, cinco ou seis para pedalar, às vezes você tem que ir sozinho. Uma outra coisa é escolher um horário um pouco mais claro, mas nem sempre todos podem, porque a gente pedala para depois trabalhar. Então, fica difícil sair 6h ou 7h, temos que sair de madrugada. Além disso, acho que escolher o trajeto é muito importante, como não ir para locais onde o índice de roubo é alto", explicou.
Outro condutor, José Augusto, de 44 anos, relatou que após ser roubado em outubro do ano passado, passou a pedalar apenas depois de colocar o seguro no veículo.
"Às vezes não é nem tanto pelo valor, mas pela sensação de segurança. É uma alternativa para conseguir andar tranquilo na rua. A gente sai muito em grupo, acabamos pedalando muito cedo por conta do trânsito e tudo mais, por causa do fluxo de carros, então a gente evita sair sozinho por conta da insegurança. Geralmente, saímos em um grupo com 15 a 20 pessoas, é difícil estar sozinho", afirmou
José sofreu um assalto à mão armada ao sair do Aterro do Flamengo a caminho da Tijuca, na Zona Norte. Posteriormente, ele encontrou a própria bicicleta sendo vendida em um site de compras na internet.
"Eu e um colega sofremos um acidente e ficamos sem condição de pedalar. Aí um outro colega nosso foi buscar a gente de carro. Quando a gente estava retornando para Tijuca, um carro fechou a gente e levou tudo. Nisso, ficamos monitorando com a polícia até que a bicicleta apareceu em uma plataforma e foi vendida logo depois", relatou.
Com a ajuda da plataforma e de amigos, ele conseguiu contato com o comprador, que devolveu o veículo. "Na época, a polícia tentou reaver, marcando de buscar essa bicicleta, de tentar comprar e tudo mais, mas não conseguiu. E aí eu também anunciei a bicicleta em um site de bicicletas roubadas. Até que o comprador entrou em contato com o site, que entrou em contato comigo. Conversamos e eu fui lá buscar a bicicleta", finalizou.
Especialistas explicam fatores para aumento dos casos
Ao DIA, o professor de direito penal do Ibmec, Taiguara Libano Soares e Souza, explicou alguns fatores que podem contribuir para o aumento de casos na Zona Sul, como por exemplo, a localização e a grande circulação de turistas.
"Primeiro, por ser uma zona turística. Pela natureza da cidade do Rio de Janeiro, que é uma cidade litorânea, temos um público que busca a praia. Então, as bicicletas, geralmente, são alugadas nessa região de orla e o turista é uma potencial vítima desses crimes, por vezes, por não fazer o uso da língua, por não conhecer pessoas ou por se deslocar de maneira um pouco mais desavisada. Esses fatores contribuem para que o turista seja um alvo preferencial deste tipo de crime", disse.
Outra possibilidade, segundo Taiguara, é o crescimento deste meio de transporte como alternativa para fugir do trânsito.
"É um transporte que não só o turista, mas os cariocas também gostam de utilizar, especialmente nesta região. Então, esses fatores acabam revelando que o crime de furto de bicicletas é um crime de oportunidade. Há fatores que permitem concluir que a prática desse delito se torna viável, em razão daquelas circunstâncias, como uma multidão, uma dificuldade de identificação do autor do delito", explicou.
Já para o perito criminalista, José Ricardo Bandeira, um dos principais pontos é que a região da Zona Sul é um grande atrativo para os bandidos.
"A Zona Sul é um local atrativo para os criminosos por ser uma região com maior poder aquisitivo. Isso significa que há uma probabilidade maior de encontrar bicicletas de alta qualidade e valor, aumentando o lucro potencial para os ladrões. A demanda por bicicletas de segunda mão de alta qualidade também é maior, o que facilita a revenda dos produtos furtados", disse.
Segundo Bandeira, mais uma possibilidade é a facilidade de revenda. "O ciclismo se tornou um hobby e um meio de transporte mais comum, e muitas bicicletas de alta performance são vendidas por preços elevados, tornando-se um alvo lucrativo para ladrões. Existe um mercado paralelo para as peças e as bicicletas roubadas, facilitando a revenda dos produtos", ressaltou.
Outro fator destacado pelo especialista é a falta de segurança. "A maioria das bicicletas é presa a postes ou grades com cadeados simples, que podem ser facilmente quebrados. A falta de bicicletários seguros e a pouca atenção por parte dos ciclistas em relação à segurança também contribuem para a vulnerabilidade", acrescentou.
Bicicletas elétricas
Bicicletas elétricas também têm se tornado alvo dos criminosos. De acordo com o tenente-coronel Marcelo Corbage, um dos bandidos presos durante operação na Cidade de Deus e Gardênia Azul, na Zona Oeste, na quarta-feira (12), estava se especializando em roubos deste meio de transporte.
Conhecido como Da Bahia, o traficante foi baleado em confronto com policiais. Ele também é considerado responsável por roubo de cargas na Zona Oeste. "Hoje o tráfico de drogas é um dos braços financeiros dessa facção, eles são responsáveis por roubos de cargas, bicicletas elétricas, parte também do crime ambiental. Isso tudo faz parte da exploração financeira dessa facção", informou Cobarge.
Segundo o perito criminal José Ricardo Bandeira, a popularidade dessas bicicletas influencia diretamente o aumento dos furtos. "Elas são consideravelmente mais caras que as bicicletas tradicionais, o que as torna alvos mais lucrativos. Além disso, a revenda desses equipamentos é mais fácil no mercado ilegal, pois a demanda é alta", mencionou.
Ele reforçou ainda que a especialização de criminosos no furto de bicicletas elétricas traz diversos prejuízos à sociedade. "As forças de segurança podem combater este tipo de crime através de ações de inteligência, sendo crucial investigar e desmantelar as redes de receptação, que compram e revendem as bicicletas roubadas, pois o combate ao mercado ilegal é a chave para diminuir o crime", justificou.
Para o diretor penal Taiguara Libano, o valor dos veículos também é um dos fatores. "O valor do bem subtraído acaba tornando o crime uma atividade com bom custo-benefício. Eventualmente, uma bicicleta elétrica pode custar até R$ 10 mil, ou seja, é o valor de uma moto usada. Então, a facilidade do furto de uma bicicleta elétrica, com o próprio condutor ali numa situação de vulnerabilidade acaba sendo um fator convidativo, além de que nem sempre as autoridades policiais estão presentes na localidade", argumentou.
Mais segurança e policiamento
Para conter o aumento dos casos, Taiguara acredita que a melhor forma é o policiamento preventivo, além de câmeras de segurança na região.
"Uma ferramenta prática e inevitável é a presença do policiamento ostensivo e preventivo. Apesar da dificuldade devido à extensão da orla, é fundamental ressaltar sua importância, pois esses locais reúnem muitos turistas e têm grande circulação de pessoas e ciclistas. Outra medida preventiva essencial é a instalação de câmeras adequadas nas vias públicas, que permitam identificar o autor do delito e recuperar o bem posteriormente", concluiu.
Além do policiamento estratégico, Bandeira reforça que cabe ao governo orientar a população através das forças de seguranças sobre medidas protetivas como o uso de cadeados mais resistentes e locais seguros.
"Outro fator importante é o registro de ocorrências e a denúncia de locais de revenda ilegal que também podem ajudar nas investigações e diminuição nos índices deste tipo de crime", frisou.
Aplicativo da PM permite cadastro de bicicletas
O aplicativo 190RJ é uma ferramenta de emergência desenvolvida pela Secretaria de Estado de Polícia Militar do Rio de Janeiro (PMERJ) para conectar cidadãos e turistas com os serviços de emergência. Com ele, você pode solicitar ajuda da PM de forma rápida.
Dentre as funcionalidades principais do sistema estão o “cadastro de bike”, que permite registrar sua bicicleta, incluindo modelo, marca, cor e número de série, facilitando a recuperação em caso de furto ou roubo.
Saiba como fazer o cadastro:
- Acesse a página inicial do aplicativo
- Vá até o menu Bike e clique em Cadastrar Bike
- Preencha as informações: modelo, marca, cor e número de série (geralmente localizado na parte inferior do quadro da bicicleta)
Em caso de furto, um alerta é gerado imediatamente, incluindo a localização do ocorrido. No aplicativo, as pessoas podem cadastrar qualquer tipo de bicicleta: speed, mountain bike, ebike e entre outras. Se a bicicleta for recuperada, a PM entra em contato pelo número cadastrado no sistema. E durante abordagens, os agentes podem consultar se há registro de furto ou roubo.
O aplicativo 190RJ está disponível gratuitamente para Android e iOS.
Aplicativo da PM permite cadastro de bicicletas
O aplicativo 190RJ é uma ferramenta de emergência desenvolvida pela Secretaria de Estado de Polícia Militar do Rio de Janeiro (PMERJ) para conectar cidadãos e turistas com os serviços de emergência. Com ele, você pode solicitar ajuda da PM de forma rápida.
Dentre as funcionalidades principais do sistema estão o “cadastro de bike”, que permite registrar sua bicicleta, incluindo modelo, marca, cor e número de série, facilitando a recuperação em caso de furto ou roubo.
Saiba como fazer o cadastro:
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- Vá até o menu Bike e clique em Cadastrar Bike
- Preencha as informações: modelo, marca, cor e número de série (geralmente localizado na parte inferior do quadro da bicicleta)
Em caso de furto, um alerta é gerado imediatamente, incluindo a localização do ocorrido. No aplicativo, as pessoas podem cadastrar qualquer tipo de bicicleta: speed, mountain bike, ebike e entre outras. Se a bicicleta for recuperada, a PM entra em contato pelo número cadastrado no sistema. E durante abordagens, os agentes podem consultar se há registro de furto ou roubo.
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