Diana não é contra os computadores mas acha que deve haver controleLeon Lerner / Divulgação
Publicado 31/08/2025 00:00
Em tempos de telas digitais, escrever à mão, apesar de ser uma prática cada vez mais escassa, continua sendo uma ferramenta poderosa para o desenvolvimento do ser humano. É preciso que a criança em seus primeiros anos de vida tenha menos contato com os computadores e teclados e muito mais com lápis, brincadeiras e afins para que sua capacidade de refletir seja mantida. Tirar a criança de junto de aparelhos celulares e computadores é de grande valia como explica a psicóloga Diana Quintella e diretora da escola MiniMe Educação Infantil, na Barra da Tijuca, que atende a crianças de 0 a 6 anos."Escrever à mão ativa áreas do cérebro diferentes das envolvidas na digitação. Quando escrevemos manualmente, o cérebro é estimulado a organizar o pensamento, selecionar vocabulário e estruturar frases com mais clareza. Escrever à mão envolve coordenação motora fina, ritmo perceptivo, memória sequencial e planejamento linguístico, habilidades que se desenvolvem a partir das experiências psicomotoras da infância", aponta.
Publicidade
De acordo com Quintella, a e escrita manual está desaparecendo do cotidiano dos jovens, o que é muito prejudicial para a geração Z, os nascidos entre 1995 e 2012, conhecidos como nativos digitais. "Crescidos em um mundo digitalizado, muitos desses jovens dominam com destreza telas sensíveis ao toque, navegam com fluidez entre aplicativos e produzem conteúdo em velocidade impressionante, mas esbarram na habilidade de escrever à mão", diz a profissional, citando a importância da parte motora e psicomotora na primeira infância. "Trata-se do entendimento do mundo, de como eu convivo, como eu me relaciono".
A profissional explica que mais do que uma prática escolar tradicional, a escrita manual está profundamente ligada ao desenvolvimento neurológico e cognitivo, sobretudo nos primeiros anos de vida. "É nela que se constroem os fundamentos motores, sensoriais e simbólicos que permitirão à criança, mais tarde, organizar ideias, resolver problemas e se comunicar com clareza. A psicomotricidade, campo que integra o desenvolvimento motor à constituição do eu e do pensamento, é peça-chave nesse processo".
Prejuízo ao cognitivo
Recentes pesquisas indicam que cerca de 40% dos estudantes dessa faixa etária relatam dificuldades em escrever à mão de forma funcional e legível, revelando não apenas uma mudança cultural, mas um possível prejuízo ao desenvolvimento cognitivo. "A dificuldade crescente que jovens da geração Z enfrentam para escrever de forma legível, ortograficamente correta e com encadeamento lógico de ideias levanta um alerta sobre as bases que sustentam o pensamento estruturado", diz Diana.
Quintella afirma que antes mesmo de formar letras no papel, a criança experimenta o mundo com o corpo. "Ela rabisca, corre, pula, constrói, desmonta. Cada gesto, cada movimento, cada brincadeira aparentemente simples, mas que são bastante complexas, está ajudando o cérebro a organizar informações, formar redes neurais, criar padrões e consolidar aprendizagens".
Segundo a profissional, a escrita cursiva, em especial, exige um encadeamento motor que favorece a fluidez do raciocínio. Por isso, ao perder essa habilidade, a geração Z pode estar comprometendo também sua capacidade de refletir, planejar e argumentar.
Superpoder escondido
A pedagoda da Old School, Claudine Dacal Rodrigues, também destacaa escrita manual. "O escrever à mão é quase um superpoder escondido. Quando a criança pega no lápis e começa a formar as letras, ela não está apenas aprendendo a escrever — está ativando o cérebro, desenvolvendo coordenação motora, atenção, memória e organização do pensamento. É um combo completo. Diferente da digitação, o ato manual exige ritmo, esforço e consciência espacial, o que fortalece conexões neurais essenciais para a aprendizagem. Além disso, escrever à mão ajuda a criança a estruturar ideias, o que impacta diretamente na forma como ela aprende e se expressa".
A profissional vai além. "Não é só uma questão de tradição — é neurociência. O cérebro se ativa de forma diferente quando escrevemos à mão, e para a criança, que está em fase de desenvolvimento, isso é ouro. Claro que a tecnologia tem seu lugar, mas papel e lápis ainda são ferramentas poderosas para formar uma base sólida de aprendizagem. Escrever à mão também estimula a criatividade. Quando a criança escreve, ela se conecta com o que está pensando. É quase como se estivesse desenhando o próprio raciocínio. Isso fortalece a imaginação, a expressão pessoal e até a autoestima — porque ela vê ali, no papel, o que foi capaz de construir com as próprias mãos.Em resumo: escrever à mão é um treino cognitivo completo — e insubstituível", finaliza Claudine.
Introdução da tecnologia na hora certa
Professora da educação infantil e diretora da Escola Waldorf Rudolf Steiner,Fernanda Martins Fontes, vem de encontro a opinião das outras duas profissionais." A escrita à mão é fundamental para o desenvolvimento das crianças, pois fortalece a coordenação, a memória e a concentração. Ao formar letras no papel, a criança ativa áreas do cérebro ligadas ao raciocínio, à criatividade e ao processamento da linguagem, o que contribui diretamente para o aprendizado escolar. O uso intensivo da digitação substitui o treino da motricidade fina, essencial para a caligrafia e para a construção cognitiva que a acompanha".
Ela fala ainda queo acesso irrestrito a dispositivos móveis pode reduzir o tempo dedicado a práticas fundamentais, como leitura e escrita manual, favorecendo a dispersão, dificuldades de atenção e até atrasos na consolidação da alfabetização. "Adiar o acesso às telas e incentivar práticas como diários, listas e desenhos ajuda na alfabetização, na criatividade e na autonomia. Não se trata de negar a tecnologia, mas de garantir que ela seja introduzida na hora certa", orienta Fernanda.
Vida corrida
A psicóloga Diana Quintella conta que não 'diaboliza' o computador. "Só não podemos substituir totalmente. Temos que saber escrever à mão com habilidade, e não só escrever digitando em um teclado ou em uma tela de celular. Em especial na infância, é mais importante que a criança escreva do que digite. Mas a geração Z parece que ficou tão ansiosa que quer fazer tudo com muita pressa, não conseguem esperar o tempo natural e necessário de todas as tarefas, e esta característica corre o risco de se tornar um comportamento padrão quando esta criança ou jovem chegar na vida adulta. A ideia de que  'a minha vida é tão corrida' é refletida na escrita. Este jovem precisa que a tecnologia entregue para ele inclusive a palavra pronta, para que nem o trabalho do raciocino do término de uma palavra ele precise ter. Isso é perigoso", avalia.
De acordo com Diana, hoje são observadas crianças recebendo diagnóstico de TDAH, por exemplo, quando neurologicamente ela não teria este diagnóstico. "As  características desta condição aparecem pela agitação e falta de concentração que o excesso de telas gera. Observamos também este impacto quando este jovem chega no mercado de trabalho. Ele não tem paciência para estudar e aprender, de respeitar a curva de aprendizagem. Ele quer que tudo chegue para ele na hora, que entreguem pronto, assim como o corretor automático entrega a palavra pronta. É a síndrome do Rei", pontua.
Ela acrescenta que no trabalho, assim como em todas as esferas da vida real, a gente escuta um monte de não. "Saber lidar com o não é fundamental para que esta criança e o jovem se tornem adultos saudáveis, que saibam lidar com a frustração de maneira minimamente estruturada, com resiliência que a vida – e a saúde mental – exigem. A resiliência para lidar com os nãos, para batalhar pelos seus objetivos, para se relacionar e saber lidar com pessoas de todos os tipos", analisa.
Mãe de dois filhos, um de 12 anos e outro de 10, Diana demorou muito a dar celular para o filho apesar do 'mundo lá fora' e ainda assim está sempre supervisionando o que acontece. "Tenho esperança de que a situação melhore. Quando meu filho de 12 tinha 10 anos todo sala de aula tinha celular , menos ele. Foi o último a ter e eu controlo. Se antigamente, era status a escola conceder computador, hoje já existe uma ação contrária, como o Movimento Desconecta que adia o uso de smarthsphones e afins por crianças", diz ela.
Malefício gritantes
Além do problema de não se configurar um cidadão mais resolutivo na vida adulta por excesso no mundo digital, muitas outras coisas vêm à baila. "A Inteligência Artificial está bombando e os malefícios desse mergulho digital estão gritantes. A gente nunca teve um índice tão grande de suicídio de crianças  e adolescentes. Nos últimos 20 anos, a taxa de suicídio entre crianças e adolescentes na faixa de 10 aos 19 anos cresceu mais de 200%. Pesquisas deste ano apontaram o número de atendimentos por transtornos como depressão e ansiedade entre jovens de 15 a 19 anos cresceu mais de 3.000% desde 2014. Para a faixa dos 10 a 14 anos, o aumento ultrapassou 2.500%, sendo que há 15 anos mal se falava em depressão infantil. Estes números são muito preocupantes e exige uma atuação urgente de toda a sociedade – pais, escolas, governos.", avalia.
Ela alerta que o pré-adolescente, em especial meninas, por causa de Instagram acabam fazendo um nível de comparação que não é real. "Aquela vida linda, perfeita, que esta criança e a adolescente vê na rede social gera uma comparação impossível, muito sofrimento e a busca do inalcançável É um absurdo o número de crianças de 8 a 10 anos comprando produtos de beleza para adultos e fazendo rotina de skincare. A adultização que a internet gera nas crianças e adolescentes apresenta um perigo real para a saúde publica. A criança não tem cérebro maduro ainda. Nosso cérebro, neuro cientificamente, só se desenvolve totalmente aos 25 anos", explica.

Geração ansiosa
A psicóloga também cita o livro Geração Ansiosa, de Jonathan Haidt, que aborda o perigo das telas para o adolescente. "Segundo Haidt, o adolescente deveria receber o primeiro celular apenas aos 14 anos, ter acesso às redes sociais somente a partir dos 16, e estudar em escolas com uso bastante restrito de telas. Além de incentivos a brincadeiras sem telas e interações presenciais, com tempo ao ar livre". Ela acrescenta que ao permanecer em um ambiente escolar sem telas e com espaço para conversas e trocas presenciais, o aluno também aprende a pensar de forma mais crítica e autônoma, além de se relacionar de maneira mais saudável.
"No Brasil, são quatro horas ou um pouco mais de aulas, mas se ampliarmos esse tempo na escola será muito melhor. E sem tela, é claro. Até um tempinho atrás era status a escola que dava o computador para o jovem. Atualmente, felizmente, diante das confirmações dos malefícios do excesso de tela para as crianças e adolescentes as escolas estão revendo a prática do uso de tela, restringindo para uso pedagógico e em menores proporções. Na Suécia, por exemplo — um país altamente tecnológico — o governo decidiu reduzir significativamente o uso de telas na educação infantil e nos primeiros anos escolares", explica.
Para Diana, foi um acerto a solução de se proibir o uso de celulares nos colégios do Rio de Janeiro."Agora os adolescentes interagem na hora do recreio, brincam com o copo, jogam bola, se movimentam, conversam. Antes da proibição era comum ver vários jovens na hora do Recreio, todos isolados, interagindo apenas com o celular. Sem falar na dificuldade com a escrita. Em aula o professor 'lutava' para fazer a criança escrever em aula, e aí logo em seguida ia para o recreio digitar. A criança precisa movimentar o corpo, precisa da psicomotricidade trabalhada, para que a escrita se estabeleça bem", afirma a profissional.

Movimento Desconecta

Trata-se de um movimento criado por famílias que querem a redução, o controle e adiamento do acesso a smartphones e redes sociais pelos nossos filhos. É a favor do futuro e do bem-estar das nossas crianças. Do tempo de qualidade. Do aprendizado, das conversas atentas, da conexão humana. Das brincadeiras e trocas, dos tropeços e conquistas, das risadas e frustrações.

Leia mais