Publicado 20/10/2025 08:00
Eis que de repente o amor acaba se transformando em dor e o sonho de serem felizes para sempre vai por água abaixo. Como dizem por aí, o coração é terra que ninguém pisa, mas ás vezes as mágoas são tantas de ambos os lados que fica muito difícil reconstruir um relacionamento em terra que não está mais fértil pois as pisadas viraram grande feridas. Com isso, a melhor decisão pode ser cada um ir para o seu lado. Nem sempre o tempo é o senhor de tudo. Prova disso é que quase metade dos divórcios vem de matrimônios que não chegam a atingir uma década. fotogaleria
PublicidadeDe acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados em 2025, 47,8% dos divórcios formalizados no Brasil em 2023 foram de matrimônios com menos de dez anos, o que representa cerca de 210 mil separações. O retrato mostra que a dissolução do vínculo conjugal tem acontecido cada vez mais cedo. A tendência não é pontual e se consolidou ao longo da última década. Em 2013, a fatia de casamentos que terminaram antes de dez anos estava em 42,8%, movimento que evoluiu até o patamar atual. O intervalo médio entre o casamento e o divórcio encurtou, indicando transformações nas expectativas afetivas, nas dinâmicas familiares e no modo como a sociedade lida com rupturas conjugais.
Para o advogado de família Fernando Felix, redes de apoio como mediação, terapia de casal e informação jurídica acessível ajudam a reduzir conflitos e a qualificar a tomada de decisões. "Suporte psicológico e orientação jurídica bem estruturada ajudam casais a tomar decisões mais conscientes e menos conflituosas", afirma.
Ele explica como acontece o divórcio no país. "Pode ocorrer em cartório ou pela via judicial, conforme o caso e o nível de consenso entre as partes. Quando há acordo e não existem filhos menores ou incapazes, é possível formalizar a dissolução em cartório por escritura pública. Esse caminho costuma ser mais rápido e menos burocrático e permite incluir partilha, pensão e retomada do nome de solteiro se houver entendimento", pontua.
Ele acrescenta que quando há filhos menores ou incapazes ou quando não há consenso sobre guarda, pensão ou partilha, o divórcio deve seguir pela ação judicial. "Por este caminho, o juiz homologa acordos ou decide os pontos de conflito após manifestação das partes e pode estabelecer medidas provisórias para organizar guarda e alimentos".
Mediação e conciliação podem ser utilizadas em ambos os caminhos para reduzir conflitos, custos e tempo de tramitação. "A escolha entre cartório e ação judicial depende das circunstâncias do casal e da existência de consenso. Além disso, a orientação jurídica inicial evita retrabalho e acelera a formalização", afirma o advogado.
Para o profissional, o encurtamento das uniões revela um país que lida com expectativas mais assertivas e com menor tolerância a relações que não atendem ao projeto de vida dos parceiros. "Fortalecer habilidades de comunicação, ampliar o acesso a serviços de apoio e difundir meios consensuais de solução de conflitos pode reduzir o sofrimento e melhorar os desfechos para adultos e crianças", diz ele, que respondeu a outras perguntas feitas pelo O DIA.
O DIA: A quê o senhor credita os casamentos com duração mais curta?
Fernando Felix: Hoje o principal fator é a transformação do modelo familiar. O nascimento dos filhos continua sendo um ponto de virada no relacionamento, mas antes as funções dentro da casa eram muito mais definidas, sendo o homem provedor e a mulher cuidadora. Com a inserção da mulher no mercado de trabalho e o aumento da carga mental compartilhada, essa divisão se embaralhou. O casal precisa negociar papéis o tempo todo, e nem sempre consegue.
Outro ponto é a ausência de rede de apoio: avós e familiares que antes ajudavam, hoje também estão trabalhando. Isso gera sobrecarga e desgaste emocional.
E, por fim, há o fator jurídico, visto que o divórcio ficou mais simples e rápido. Antigamente, o processo era burocrático, o que fazia muitos casais permanecerem juntos por inércia. Hoje, o acesso é imediato, inclusive por liminar. O resultado é uma combinação entre relações mais complexas e um sistema jurídico mais ágil, o que explica o aumento dos divórcios precoces.
O DIA: O senhor acha que a questão financeira influencia nos divórcios?
Ele explica como acontece o divórcio no país. "Pode ocorrer em cartório ou pela via judicial, conforme o caso e o nível de consenso entre as partes. Quando há acordo e não existem filhos menores ou incapazes, é possível formalizar a dissolução em cartório por escritura pública. Esse caminho costuma ser mais rápido e menos burocrático e permite incluir partilha, pensão e retomada do nome de solteiro se houver entendimento", pontua.
Ele acrescenta que quando há filhos menores ou incapazes ou quando não há consenso sobre guarda, pensão ou partilha, o divórcio deve seguir pela ação judicial. "Por este caminho, o juiz homologa acordos ou decide os pontos de conflito após manifestação das partes e pode estabelecer medidas provisórias para organizar guarda e alimentos".
Mediação e conciliação podem ser utilizadas em ambos os caminhos para reduzir conflitos, custos e tempo de tramitação. "A escolha entre cartório e ação judicial depende das circunstâncias do casal e da existência de consenso. Além disso, a orientação jurídica inicial evita retrabalho e acelera a formalização", afirma o advogado.
Para o profissional, o encurtamento das uniões revela um país que lida com expectativas mais assertivas e com menor tolerância a relações que não atendem ao projeto de vida dos parceiros. "Fortalecer habilidades de comunicação, ampliar o acesso a serviços de apoio e difundir meios consensuais de solução de conflitos pode reduzir o sofrimento e melhorar os desfechos para adultos e crianças", diz ele, que respondeu a outras perguntas feitas pelo O DIA.
O DIA: A quê o senhor credita os casamentos com duração mais curta?
Fernando Felix: Hoje o principal fator é a transformação do modelo familiar. O nascimento dos filhos continua sendo um ponto de virada no relacionamento, mas antes as funções dentro da casa eram muito mais definidas, sendo o homem provedor e a mulher cuidadora. Com a inserção da mulher no mercado de trabalho e o aumento da carga mental compartilhada, essa divisão se embaralhou. O casal precisa negociar papéis o tempo todo, e nem sempre consegue.
Outro ponto é a ausência de rede de apoio: avós e familiares que antes ajudavam, hoje também estão trabalhando. Isso gera sobrecarga e desgaste emocional.
E, por fim, há o fator jurídico, visto que o divórcio ficou mais simples e rápido. Antigamente, o processo era burocrático, o que fazia muitos casais permanecerem juntos por inércia. Hoje, o acesso é imediato, inclusive por liminar. O resultado é uma combinação entre relações mais complexas e um sistema jurídico mais ágil, o que explica o aumento dos divórcios precoces.
O DIA: O senhor acha que a questão financeira influencia nos divórcios?
Fernando Felix: A presença do dinheiro não elimina os problemas, mas a ausência dele potencializa, e muito, os conflitos, principalmente, após o nascimento dos filhos. Ter condições financeiras para pagar uma babá em tempo integral, inclusive noturna, contratar profissionais para ajudar na casa e dividir responsabilidades com suporte externo contribui diretamente para reduzir tensões e desgastes na relação. Já a privação decorrente da falta de recursos acentua o conflito entre o casal. Quando não há dinheiro para contratar ajuda ou comprar tempo, tudo recai sobre o casal, e o cotidiano se torna um campo de disputa. Não há dúvida de que o fator financeiro intensifica os problemas conjugais, especialmente quando não existe uma estrutura de apoio.
O DIA: Como advogado de família, o senhor já conseguiu fazer com que um casal desistisse de se divorciar?
Fernando Felix: Eu trabalho com litígios familiares de alta complexidade, e normalmente quando a pessoa me procura ela já está bastante decidida a se divorciar. O papel do advogado de família não é interferir na decisão pessoal de se separar ou não, mas orientar juridicamente sobre os caminhos disponíveis e como se preparar para cada um deles. Na prática, o que eu faço é ajudar a pessoa a planejar o divórcio, para que ela tenha o mínimo de prejuízo financeiro e emocional possível. Mas já houve situações em que o processo de orientação levou a uma mudança de decisão.
Uma vez, por exemplo, uma cliente procurou o escritório para se divorciar e, durante a consulta, descobrimos que o casamento dela era sob o regime de separação total de bens e ela não sabia disso. Depois de entender as implicações jurídicas, ela optou por não prosseguir com o divórcio. Há também casos em que há filhos muito pequenos, especialmente em fase de amamentação. Nessas situações, oriento que o pai aguarde um tempo antes de formalizar a separação, porque nesse período a convivência com a criança fica naturalmente limitada à mãe. Essa espera estratégica permite que ele mantenha proximidade e participe mais ativamente dos primeiros meses de vida do filho.
O DIA: Normalmente quem quer mais se divorciar? O homem ou a mulher?
Fernando Felix: Historicamente, as mulheres sempre apresentaram maior iniciativa para pedir o divórcio do que os homens. No entanto, esse quadro vem se equilibrando nos últimos anos. Muitos homens insatisfeitos também têm tomado a frente do processo de separação, especialmente quando há filhos e o interesse em proteger o convívio e o bem-estar das crianças. Hoje, o que se observa é um movimento mais equilibrado: tanto homens quanto mulheres estão menos dispostos a permanecer em relações adoecidas e mais conscientes da importância de uma separação bem conduzida, juridicamente estruturada e com foco no melhor interesse dos filhos.
O DIA: Como advogado de família, o senhor já conseguiu fazer com que um casal desistisse de se divorciar?
Fernando Felix: Eu trabalho com litígios familiares de alta complexidade, e normalmente quando a pessoa me procura ela já está bastante decidida a se divorciar. O papel do advogado de família não é interferir na decisão pessoal de se separar ou não, mas orientar juridicamente sobre os caminhos disponíveis e como se preparar para cada um deles. Na prática, o que eu faço é ajudar a pessoa a planejar o divórcio, para que ela tenha o mínimo de prejuízo financeiro e emocional possível. Mas já houve situações em que o processo de orientação levou a uma mudança de decisão.
Uma vez, por exemplo, uma cliente procurou o escritório para se divorciar e, durante a consulta, descobrimos que o casamento dela era sob o regime de separação total de bens e ela não sabia disso. Depois de entender as implicações jurídicas, ela optou por não prosseguir com o divórcio. Há também casos em que há filhos muito pequenos, especialmente em fase de amamentação. Nessas situações, oriento que o pai aguarde um tempo antes de formalizar a separação, porque nesse período a convivência com a criança fica naturalmente limitada à mãe. Essa espera estratégica permite que ele mantenha proximidade e participe mais ativamente dos primeiros meses de vida do filho.
O DIA: Normalmente quem quer mais se divorciar? O homem ou a mulher?
Fernando Felix: Historicamente, as mulheres sempre apresentaram maior iniciativa para pedir o divórcio do que os homens. No entanto, esse quadro vem se equilibrando nos últimos anos. Muitos homens insatisfeitos também têm tomado a frente do processo de separação, especialmente quando há filhos e o interesse em proteger o convívio e o bem-estar das crianças. Hoje, o que se observa é um movimento mais equilibrado: tanto homens quanto mulheres estão menos dispostos a permanecer em relações adoecidas e mais conscientes da importância de uma separação bem conduzida, juridicamente estruturada e com foco no melhor interesse dos filhos.
Traição é um dos motivos para cada um seguir seu caminho
Existem inúmeros motivos para o divórcio entre os casais. Pode ser incompatibilidade de gênios, desgaste da relação, dinheiro, briga com os pais dos cônjuges, mas um que ganha na atualidade é a traição. E foi por isso que Fabiana Braga, de 39 anos, resolveu dar um ponto final na sua história de amor como contou em depoimento:
Existem inúmeros motivos para o divórcio entre os casais. Pode ser incompatibilidade de gênios, desgaste da relação, dinheiro, briga com os pais dos cônjuges, mas um que ganha na atualidade é a traição. E foi por isso que Fabiana Braga, de 39 anos, resolveu dar um ponto final na sua história de amor como contou em depoimento:
"Sempre sonhei em casar na igreja, vestida de noiva e envolvida por muita emoção — e esse sonho, de fato, se realizou. Foram quase oito anos de relacionamento, e o fim não aconteceu por desgaste, como em tantos outros casos, mas por conta de uma relação extraconjugal. Não houve espaço para reconciliação. Decidi não perdoar, por diversos motivos. A terapia teve um papel fundamental no meu processo de cura, foi o que me ajudou a recomeçar, por mim e pelo meu filho. Apesar da dor, da decepção e do trauma, segui em frente. Dois anos depois, o divórcio foi homologado, marcando oficialmente o fim de uma história que um dia foi um sonho, mas que ficou no passado".
Laços frágeis na era da pressa
Psicanalista, professor sênior da Associação Brasileira de Psicanálise Clínica (ABPC), especialista em terapia familiar, Artur Costa, fala sobre esse processo. "As separações precoces mostram como os laços afetivos ficaram mais frágeis na era da pressa. Muitos casamentos começam com a ideia de que o outro vai preencher todos os vazios e acabam quando essa ilusão cai. A psicanálise ensina que amar é saber lidar com a falta e com as diferenças. Mas hoje, muita gente desiste rápido porque não suporta o conflito, o tempo das coisas e o esforço emocional que uma relação exige. É mais fácil trocar de parceiro do que encarar o que precisa mudar dentro de si", pontua o profissional.
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