Fachada da Refit, empresa de combustíveis foi alvo de megaoperação contra fraude fiscalÉrica Martin/Agência O DIA
Publicado 28/11/2025 11:51
Membros do Grupo Refit, alvos de um megaoperação contra fraude fiscal no setor de combustível, escreviam o esquema de corrupção investigado em uma janela de vidro na sede, na sede de um escritório localizado na Cinelândia, no Centro do Rio. O esquema causou prejuízo de R$ 26 bilhões aos cofres estaduais e federal.
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As anotações citavam operações, nomes de transportadoras, de refinarias, de investigados e até de autoridades. 
A empresa é dona da antiga refinaria de Manguinhos, no Rio, e de dezenas de outras companhias do setor. A Refit é comandada pelo empresário Ricardo Magro e, segundo o Ministério Público de São Paulo (MPSP), é considerada a maior devedora de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS) do estado de SP, o segundo maior do RJ e um dos maiores da União.
Com o Rio, a dívida de R$ 10 bilhões do grupo corresponde a todo orçamento do estado com as polícias Civil e Militar fluminenses.
Durante as investigações, as autoridades identificaram que diversas janelas estavam preenchidas com marcações feitas à caneta. O local passou a ser chamado pela força-tarefa de "escritório da corrupção". A informações foram revelada pelo Blog do jornalista Octavio Guedes, do portal G1.

As informações encontradas indicam que o grupo acompanhava autoridades do Judiciário e do Congresso. Entre as inscrições constavam referências como "mapeamento do Judiciário", "mapeamento das Procuradorias estaduais", "mapeamento do ministério" e "mapeamento dos portos".
Uma das anotações citava Beto Louco, investigado pelo MPSP por comandar esquema bilionário do Primeiro Comando da Capital (PCC) no setor de combustíveis.
Agentes também registraram a expressão "dashboard do crime". As imagens foram coletadas durante diligências da megaoperação e fazem parte do material apreendido pela força-tarefa.
A ação foi batizada de "Poço de Lobato" em referência ao primeiro poço de petróleo descoberto no Brasil, em 1939, no bairro de Lobato, em Salvador (BA). Ao todo, foram cumpridos mais de 190 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Maranhão e no Distrito Federal.
A reportagem entrou em contato com o Grupo Refit, mas não obteve retorno. O espaço segue aberto.
Esquema
As investigações apontaram que a Refit movimentou mais de R$ 70 bilhões em um ano, por meio de empresas próprias, mais de 50 fundos de investimento e 15 offshores nos Estados Unidos para ocultar e blindar lucros.
O Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos do Estado de São Paulo (Cira-SP) apontou que diversas empresas ligadas ao grupo se colocam como laranjas para afastar a responsabilidade pelo recolhimento de ICMS. Os importadores adquiriam do exterior nafta, hidrocarbonetos e diesel com recursos de formuladoras e distribuidoras vinculadas à empresa.
Apenas entre 2020 e 2025, foram importados mais de R$ 32 bilhões em combustíveis pelos investigados. A Receita Federal identificou que uma grande operadora financeira atuava como sócia de outras instituições que também prestavam serviços ao grupo.
"O esquema envolvia uma empresa financeira 'mãe' controlando diversas 'filhas', criando operações complexas que dificultavam a identificação dos verdadeiros beneficiários", explicou a Receita Federal. A principal financeira tinha 47 contas bancárias em seu nome, vinculadas contabilmente às empresas da Refit.
Em setembro, a Receita e a Agência Nacional do Petróleo (ANP) interditaram a Refit e apreenderam navios carregados de quase 180 milhões de litros de combustível importado irregularmente da Rússia.
As fraudes ocorriam por meio de uma rede de colaboradores, holdings, offshores, meios de pagamento e fundos de investimento. O dinheiro ilícito era reinvestido em negócios, propriedades e outros ativos por meio de fundos de investimento, dando aparência de legalidade e dificultando o rastreamento.
A análise dos fundos identificou a participação de entidades estrangeiras como sócias e cotistas, além da coincidência de representantes legais entre offshores e fundos. Elas foram constituídas em Delaware, nos Estados Unidos, jurisdição conhecida por permitir a criação de empresas do tipo LLC - Empresa de Responsabilidade Limitada -, com anonimato e sem tributação local, desde que não gerem renda em território norte-americano.
Por meio da estrutura, as entidades deixam de ser tributadas tanto nos Estados Unidos, quanto em território nacional. A prática é comumente associada a estratégias de lavagem de dinheiro ou blindagem patrimonial dos envolvidos. Além disso, também foram detectados envios ao exterior superiores a R$ 1,2 bilhão, sob a forma de contratos de mútuo conversíveis em ações, que podem retornar ao Brasil como investimentos por meio de outras offshores, fechando o ciclo.

 
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