Publicado 08/12/2025 16:00 | Atualizado 08/12/2025 19:35
Rio - O aumento da violência contra a mulher no estado do Rio de Janeiro preocupa autoridades e especialistas. Dados do Dossiê Mulher, divulgado pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), na semana passada, mostram que a taxa de feminicídio teve um aumento de 8% com relação a 2023. A violência psicológica foi o crime mais registrado contra mulheres em 2024, com 56.206 vítimas, uma média de 153 por dia. Esses números reforçam a urgência de medidas de prevenção, acolhimento e proteção.
PublicidadeO que define a violência e a repetição de padrões
"A violência é qualquer ação, comportamento ou omissão que cause dano físico, psicológico, sexual, econômico ou moral a outra pessoa. Pode ser exercida através de força, intimidação, manipulação, controle ou abuso de poder. A psicologia mostra que padrões de relacionamento aprendidos na infância podem ser repetidos na vida adulta, especialmente quando não há intervenção terapêutica”, diz a psicóloga Daiane Bocard, doutora em psicologia social.
O ciclo da violência e as barreiras para a denúncia
De acordo com ela, muitas mulheres acreditam que o agressor vai mudar ou sentem culpa pela situação."O medo da retaliação é um dos maiores impeditivos. Ainda existe um julgamento social sobre mulheres que 'permitem' a violência, o que é injusto e psicologicamente devastador. Essa vergonha bloqueia pedidos de ajuda. A instabilidade econômica pode prender mulheres a relações abusivas, especialmente quando há filhos envolvidos. Além disso, agressores frequentemente isolam a vítima da família e amigos. Sem rede de apoio, é muito mais difícil pedir ajuda. Algumas mulheres acabam por normalizar a violência ou acreditar que 'não é assim tão grave'. Este fenómeno é comum em situações prolongadas de abuso psicológico”, explica.
Dependência emocional e a ligação com o abuso
A psicóloga explica que muitas vezes a vítima não consegue denunciar por viver uma dependência emocional."A dependência emocional é um padrão psicológico em que uma pessoa sente que precisa do parceiro para se sentir segura, valorizada ou completa. É como se o próprio bem-estar estivesse totalmente ligado à aprovação, presença ou afeto do outro. Isto pode levar a relações desequilibradas, sofrimento emocional e dificuldade em estabelecer limites. Não é o mesmo que 'amar muito'. A dependência emocional está ligada à insegurança, medo e falta de autonomia, não ao afeto saudável”, alerta Daiane Bocard. Ela também explica que a dependência emocional e o ciclo da violência estão profundamente ligados. Muitas vezes, um alimenta e reforça o outro, criando uma relação onde sair se torna cada vez mais difícil.
Como funciona o ciclo da violência
Primeiro se instala o aumento da tensão, com críticas, controle, ciúmes, hostilidade. Em seguida surge o ato de violência, com agressão física, psicológica, sexual ou econômica. Por fim a fase da 'Lua de mel', com pedidos de desculpa, promessas de mudança, carinho intenso.Daiane ressalta que apoiar uma mulher que vive em dependência emocional e está presa ao ciclo da violência exige cuidado, empatia e estratégias seguras.
De acordo com ela, familiares e amigos que queiram ajudar devem agir sem aumentar o risco para essa mulher e sem fazer com que ela se afaste. Acompanhe algumas ações importantes comentadas pela psicóloga.Ouvir sem julgar: trocar falas como “mas é você que está permitindo isso” por “estou aqui para você, quando você precisar”. Validar os sentimentos dela: dizer, por exemplo, “Ninguém merece ser tratado assim”. Informar sem pressionar: “Quando você quiser, posso te ajudar a procurar apoio”. Reforçar a autoestima: lembrar qualidades e conquistas, incentivar atividades que a façam sentir-se forte e ajudá-la a retomar contatos com pessoas de confiança. Ajudar a procurar apoio de um profissional de saúde mental.
Empoderadas: uma abordagem integral no enfrentamento
Empoderadas: uma abordagem integral no enfrentamento
O Empoderadas é um programa do Governo Estadual e da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) que atua na prevenção e no enfrentamento da violência de gênero por meio de uma abordagem integral. A especialista em segurança feminina e coordenadora do programa, Érica Paes, explica que o objetivo central é salvar vidas, acolher, orientar e fortalecer mulheres para que elas rompam ciclos de violência com segurança.
"Trabalhamos a partir de quatro eixos: acolhimento multidisciplinar, tatame (técnicas preventivas), capacitação profissional e eventos ou ações de informação e mobilização. É uma atuação completa, que acompanha desde o primeiro acolhimento até a reconstrução da vida. De 2019 até hoje, o programa já atendeu mais de 2,5 milhões de mulheres diretamente", afirma Érica.
Serviços oferecidos:
• Psicologia, com apoio emocional, redução de danos, fortalecimento da autoestima;
• Acolhimento jurídico levando orientação, acompanhamento de processos, medidas protetivas;
• Serviço social, com avaliação de risco, encaminhamento à rede de proteção e benefícios;
• Apoio de saúde, quando necessário;
• Tatame, ensinando técnicas preventivas e de segurança pessoal;
• Cursos e capacitação profissional, para que a mulher tenha autonomia econômica;
• Eventos e ações educativas, que informam, mobilizam e constroem redes de apoio.
• Acolhimento jurídico levando orientação, acompanhamento de processos, medidas protetivas;
• Serviço social, com avaliação de risco, encaminhamento à rede de proteção e benefícios;
• Apoio de saúde, quando necessário;
• Tatame, ensinando técnicas preventivas e de segurança pessoal;
• Cursos e capacitação profissional, para que a mulher tenha autonomia econômica;
• Eventos e ações educativas, que informam, mobilizam e constroem redes de apoio.
Não é preciso denunciar para ser acolhida
Érica explica que o Empoderadas atua de forma integrada com toda a rede pública, especialmente com as Delegacias de Atendimento à Mulher (Deams). Para as mulheres que ainda não tem coragem de denunciar, ela explica que o programa funciona para todas.
"A mulher não precisa denunciar para ser acolhida. Sabemos que denunciar é um passo difícil e que o medo, a vergonha, a dependência emocional ou financeira e as ameaças fazem parte do ciclo da violência. Por isso, o primeiro passo é simples: falar com a nossa triagem ou ir a um dos nossos polos. Ela será acolhida com sigilo, cuidado e respeito, sem julgamento”, orienta.
A atuação do Ministério Público
A promotora pública, subcoordenadora do Centro de Apoio das Promotorias de Violência Doméstica Contra a Mulher, Eyleen Marenco, fala sobre o atual momento, com o fenômeno do "backlash" e causas estruturais.
"O incremento da violência contra a mulher apresenta um conjunto de possíveis causas, entre elas o que chamamos de backlash, que é uma onda em sentido contrário, diante dos inúmeros avanços que estamos vendo, inclusive em nível legislativo, de proteção e de enfrentamento à violência contra as mulheres.Isso inclui, por exemplo, o agravamento da pena por feminicídio. É um movimento natural e esperado, porque faz parte dos ciclos de avanço e retrocesso", explica Eyleen.
Ela destaca que os recentes feminicídios não íntimos mostram o quanto os homens ainda não conseguem aceitar um 'não' das mulheres ou receber ordens delas. Entre os casos, estão o das duas servidoras públicas do Cefet, Allane Pedrotti e Layse Pinheiro, no campus Maracanã, e o da professora de inglês, Catarina Kasten, que foi estuprada e assassinada enquanto caminhava numa trilha em Santa Catarina, no mês passado.
Em entrevista ao DIA, familiares de Allane disseram que ela tinha medo de trabalhar com João, já que ele perseguia mulheres e deixava claro que não aceitava ser chefiado por elas. Amigos confirmam que a misogenia de João era evidente no ambiente de trabalho. Ele chegou a ser afastado devido ao comportamento agressivo, mas voltou ao trabalho, o que culminou no desfecho trágico para as duas servidoras. “A questão da violência contra a mulher vai muito além do âmbito doméstico: é estrutural em nossa sociedade”, alerta a promotora.
Ministério Público aponta insuficiência das medidas
De acordo com a promotora, outro fator que contribui para o aumento da violência é a disseminação de grupos machistas na internet, que propagam ressentimento e interpretações equivocadas sobre igualdade de gênero. Essa influência é especialmente nociva entre jovens, que ainda não têm seu pensamento consolidado e acabam vendo as mulheres como inimigas.
"O que mais preocupa o Ministério Público é a constatação de que as ações atualmente adotadas não têm sido suficientes. Apesar do Rio de Janeiro ser o estado que mais concedeu medidas protetivas e contar com mecanismos de fiscalização eficazes, como a Patrulha Maria da Penha e a Ronda Maria da Penha, o índice de violência e descumprimento das medidas protetivas ainda são elevados”, destaca a promotora.
Como ajudar: Sinais de alerta e medidas de apoio
Para familiares, amigos e vizinhos, é importante ficar atento aos sinais de que uma mulher pode estar vivendo violência doméstica. Segundo Rebeca Servaes, advogada especialista em violência contra a mulher, mudanças de comportamento, como isolamento, tristeza, ansiedade ou perda de vivacidade, podem indicar que algo não vai bem. Barulhos de brigas ou lesões visíveis também merecem atenção. Mas como ajudar sem colocar a vítima em risco? O primeiro passo é garantir a segurança da mulher.
"Em casos graves, é fundamental acionar a Polícia Militar pelo 190. Além disso, é importante oferecer apoio emocional, incentivar a busca por atendimento médico ou psicológico, acompanhar a mulher à delegacia ou defensoria pública, e informar sobre a possibilidade de solicitar medidas protetivas, que obrigam o agressor a manter distância física e de contato", explica Rebeca.
Onde Buscar Ajuda (canais de atendimento)
Se você está enfrentando alguma situação de violência ou conhece alguém que precisa de apoio, existem canais seguros e especializados disponíveis:
Em situações de emergência, ligue 190 (Polícia Militar), garantindo atendimento imediato e proteção.
Governo do Estado do Rio de Janeiro
Empoderadas – Programa do Governo do Estado do Rio de Janeiro
WhatsApp: 21 97316-7488
Instagram: @empoderadas.rj
Governo do Estado do Rio de Janeiro
Empoderadas – Programa do Governo do Estado do Rio de Janeiro
WhatsApp: 21 97316-7488
Instagram: @empoderadas.rj
Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de Combate à Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher - CAOPJVD
(21) 2550-7298
caopjvdf@mprj.mp.br
(21) 2550-7298
caopjvdf@mprj.mp.br
Ouvidoria da Mulher do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro: Disque 127
Secretaria Municipal de Políticas para a Mulher
Centro de Atendimento à Mulher em Situação de Violência (CEAM) – Chiquinha Gonzaga
Endereço: Rua Benedito Hipólito, 125, Centro
Telefone: 21 2517-2726 / 21 98555-2151
E-mail: cian.spmrio.com
CEAM – Tia Gaúcha, Santa Cruz
Endereço: Rua Álvaro Alberto, 601, Santa Cruz
Telefone: 21 97092-8071
E-mail: ciantiagaúcha@gmail.com
Núcleo Especializado de Atendimento Psicoterapêutico (NEAP) – Chiquinha Gonzaga, Centro
E-mail: neapchiquinhagonzaga@gmail.com
NEAP – Tia Gaúcha, Santa Cruz
E-mail: neaptiagaúcha@gmail.com
Plataforma Mulher Rio
www.mulher.rio- Orientação, escuta e encaminhamento para serviços de acolhimento.
Centro de Atendimento à Mulher em Situação de Violência (CEAM) – Chiquinha Gonzaga
Endereço: Rua Benedito Hipólito, 125, Centro
Telefone: 21 2517-2726 / 21 98555-2151
E-mail: cian.spmrio.com
CEAM – Tia Gaúcha, Santa Cruz
Endereço: Rua Álvaro Alberto, 601, Santa Cruz
Telefone: 21 97092-8071
E-mail: ciantiagaúcha@gmail.com
Núcleo Especializado de Atendimento Psicoterapêutico (NEAP) – Chiquinha Gonzaga, Centro
E-mail: neapchiquinhagonzaga@gmail.com
NEAP – Tia Gaúcha, Santa Cruz
E-mail: neaptiagaúcha@gmail.com
Plataforma Mulher Rio
www.mulher.rio- Orientação, escuta e encaminhamento para serviços de acolhimento.
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