Silvana Oliveira foi encaminhada ao Centro em agosto de 2024 e ainda aguarda pelos óculos novosAcervo pessoal
Publicado 07/01/2026 16:05 | Atualizado 07/01/2026 17:06
Rio - Pacientes que dependem dos óculos de grau gratuitos disponibilizados pela ótica do Centro Carioca do Olho (CCO), no Super Centro Carioca de Saúde, em Benfica, na Zona Norte, têm se queixado de uma demora excessiva no atendimento. Após cerca de um ano para uma consulta oftalmológica na unidade, a espera segue até o chamado para que sejam tiradas as medidas da armação e escolhido o modelo. Por fim, é necessário aguardar a entrega do acessório. 
Publicidade
O serviço é oferecido após uma avaliação em Clínicas da Família (CF) e Centros Municipais de Saúde (CMS), que também são responsáveis pelo encaminhamento dos usuários ao CCO, onde acontecem todas as etapas do processo. O tempo total pode girar em torno de dois anos, o que preocupa quem precisa do serviço. 
Um homem, que preferiu não se identificar, contou que aguarda pela primeira consulta há cerca de oito meses, depois de ter sido encaminhado pela Clínica da Família Nilda Campos de Limpa, em Cordovil, na Zona Norte. Ele diz que precisa de um óculos para leitura e teme que durante o tempo de espera entre o atendimento e a fabricação, o grau já tenha mudado.
"A profissional da Clínica da Família me colocou na fila, e estou há esse tempo todo esperando. Acho isso um problema grave, falta de respeito com o cidadão que paga impostos para ter um serviço de saúde pública de qualidade. Eu dependo de óculos para leitura, é um grau que vai aumentando com o passar dos anos, não estabiliza. Até eu conseguir pegar os óculos, meu grau provavelmente já vai ser outro", desabafou. 
Ainda segundo o usuário, os agentes justificam que o longo tempo de espera ocorre devido à alta demanda. "Alegam que esse é o motivo: ser o único lugar da cidade que oferece essa possibilidade de ter óculos gratuitamente. Um serviço que a Prefeitura deveria estar preparada para a demanda que haveria, e o que se vê é uma fila de espera de dois anos. Pelo que eu soube, entre a consulta e a retirada, o tempo também está sendo enorme". 
Na fila há mais tempo está a profissional de serviço social Silvana Oliveira, de 45 anos. Ela foi encaminhada ao Centro em agosto de 2024, mas só conseguiu a consulta em novembro de 2025, quando recebeu o diagnóstico de astigmatismo. Agora, retornará à unidade apenas em julho de 2026, com a perspectiva de escolher a armação dos óculos e ter as medidas anotadas para a produção. Fora a espera até que o objeto fique pronto. 
"Passei um ano e três meses (esperando) para a consulta e agora (vou aguardar) mais sete meses para poder fazer os óculos. Quem já fez, disse que ainda espera uns quatro meses para receber. É um absurdo tudo isso, o caos do mau atendimento. Uma sensação de descaso e a minha visão cada vez pior. Me sinto humilhada, um nada", declarou Silvana, que ainda pediu melhorias no serviço: "No momento do atendimento, queria que já fosse realizado pelo menos o procedimento para produção do óculos e que organizassem a fila de espera, para não ter esse descaso com os usuários", lamentou. 
Especialista
Procurada pelo DIA, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) afirmou que, desde 2021, triplicou a oferta de atendimento em especialidades, inclusive oftalmologia, que saiu de 82.019 em 2020 para 275.155 em 2025, até o mês de novembro, com cerca de 1,3 milhão de pessoas atendidas. Entretanto, a pasta aponta que a demanda de pacientes quintuplicou, de 76.085 solicitações em 2020, para 380.212 em 2025. A SMS ressaltou também que, desde 2023, quando foi inaugurada a Ótica do CCO, foram entregues mais de 69 mil pares de óculos gratuitamente.
"Esse aumento do número de pessoas buscando atendimento se deve a fatores como a perda do plano de saúde, fazendo o paciente migrar para o SUS; a recuperação da confiança no serviço público, entre outros. É importante esclarecer que o tempo de espera para a primeira consulta em oftalmologia é determinado pela classificação de risco. Casos mais graves são priorizados, de modo que pacientes com quadros mais leves podem ter um tempo de espera maior. O paciente pode ser encaminhado para o Centro Carioca do Olho (CCO) ou outro prestador de serviço, considerando a vaga em data mais próxima", explicou a SMS. 
Ao DIA, o oftalmologista Vinicius M. Marques, diretor técnico do Instituto de Olhos Moreira Marques, alertou que o prazo para que o óculos seja entregue ao paciente deveria ser bem inferior ao que está sendo praticado no CCO: "O que observamos no comércio é algo em torno de 15 dias, no máximo 30. Um prazo menor entre a consulta e o início do uso dos óculos, facilita a adaptação pelo paciente, corrige o quanto antes a "falta de vista" apresentada e evita o risco de uma mudança no grau do paciente, o que tornaria os óculos obsoletos".
Sobre o caso do paciente que teme o aumento do seu grau de miopia até que o seu acessório seja entregue, o especialista afirma que a preocupação é justificável: "O olho pode sofrer modificações anatômicas ao longo do tempo e isso se reflete diretamente no grau dos óculos prescritos. Em algumas idades da vida, isso torna-se ainda mais significativo. Por isso é muito importante que a confecção dos óculos tenha proximidade direta com a data da consulta".
O oftalmologista conclui reforçando os transtornos que uma espera excessiva pode acarretar para quem necessita dos óculos para leitura: "Quando prescrevemos óculos para leitura, estes servem para a necessidade daquele momento do paciente. Se ele levar oito meses a um ano para obtê-los, muito provavelmente quando for utilizá-los, já não servirão com a mesma eficiência".
Leia mais