Patrícia Grigório se sente uma privilegiada por morar no Alto e não sentir tanto calorArquivo pessoal
Publicado 25/01/2026 00:00
Quando o termômetro resolve testar os limites da física (e da paciência) em bairros como Bangu, Realengo ou Campo Grande, o verão carioca vira quase um esporte radical. A criatividade entra em campo: há quem ligue o carro e siga direto rumo à praia mais próxima, ignorando trânsito, pedágio emocional, e qualquer previsão de chegada. Outros, mais resilientes (ou sem ar-condicionado), encaram o ônibus lotado rumo à orla da Zona Sul ou da Barra da Tijuca, certos de que algumas horas dentro do mar compensam qualquer aperto no caminho. E que aperto, literalmente.Mas nem todo mundo usa protetor solar fator 50. Muitos recorrem ao velho e infalível 'oi, sumido, tem piscina aí?' batendo à porta de vizinhos e parentes com sorriso largo e toalha no ombro. Já os mais práticos transformam o quintal em parque aquático improvisado: mangueira ligada, chinelo no pé, e vaidade deixada de lado. No Rio quente, o calor invade o Complexo do Alemão, como explica a geógrafa Gabriela Conc entrevista ao jornal O DIA (veja mais abaixo), e vale tudo para se refrescar, desde que a água esteja gelada e a sombra garantida.

O assessor de imprensa Clóvis Corrêa, morador de Realengo, tenta se esquivar do calor. bebendo muito água, mas nem sempre consegue.  "Esses dias com chuva o tempo fica abafado, mas Realengo é muito quente no verão e as vezes com sensação térmica extremamente elevada. Eu que tenho rinite alérgica, confesso que tanto o calor quanto o frio ajudam nas minhas crises. Na verdade as mudanças bruscas de temperatura e ar seco são outros vilões da minha vida com rinite, mesmo eu usando remédio para amenizar a crise", afirma.
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Clóvis conta que quando  faz calor, seu apartamento no bairro na Zona Oeste fica insuportável. "Na rua o sol é de rachar a cabeça, mesmo usando boné. É chuveirada, beber água e suco de limão, que gosto muito, com mais frequência. Uma alimentação mais leve também é bom. Tudo ajuda para melhorar a sensação de calor".
Apesar do calor, ele não usa ar condicionado. "Em casa a gente ainda resiste ao ar-condicionado porque eu tenho rinite alérgica e não me faz bem o uso constante do aparelho. Então, são ventiladores ligados o dia todo pela casa e mesmo assim na hora de dormir não deixo o ventilador do quarto na minha direção".
Sombra só para alguns
Já quem mora em regiões mais frescas da cidade tem uma rotina bem diferente, o que comprova que o calor não é igual para todo mundo. É aquela história: o sol nasceu para todos, mas a sombra só para alguns. Para a professora e guia de turismo Patrícia Grigório, os dias de muito calor não são tão insuportáveis porque ela reside num lugar bem arejado.
"Moro no Alto da Boa Vista desde que nasci. E acredito que sou muito privilegiada. Quem mora aqui sabe o quanto a Floresta da Tijuca é importante para gente. É ela que nos garante conforto térmico durante os dias quentes do verão. A mudança de temperatura é perceptível: basta subir a serra, vindo da Tijuca ou da Barra da Tijuca, que a gente já começa a sentir o frescor da Floresta.
Patrícia até já pensou em se mudar, mas acabou ficando. "Esse é um dos motivos que me fez desistir de me mudar daqui várias vezes. Os dias de calor são insuportáveis 'lá embaixo'. Fico pensando como as pessoas devem sofrer com as altas temperaturas fechadas , no calor que sobe do asfalto. Sem falar da facilidade que temos aqui de aproveitar as belezas naturais, de se refrescar nas cachoeiras da região. Tem coisa melhor?", indaga.
Aspectos fisiográficos diferentes
O metereologista Wanderson Silva, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, explica porque bairros na mesma cidade acabam tendo tanta diferença de temperatura.
"A cidade do Rio de Janeiro é dominada por diversos aspectos fisiográficos como proximidade com o oceano, relevo e vegetação. Esses fatores influenciam acentuadamente os padrões de temperatura e precipitação. Por exemplo, as temperaturas máximas são menores na zona sul do que na zona norte em função da brisa marítima. O Alto da Boa Vista, além de ser um pouco mais alto, tem a expressiva presença da Mata Atlântica. Os maciços em volta de alguns bairros da zona oeste de certa forma aprisionam o calor nessa área", explica.
'Alemão cresceu sem planejamento urbano'
Diretora do Voz das Comunidades e idealizadora do projeto Observatório do Calor do Complexo do Alemão, Gabriela Conc, junto om Secretaria Municipal de Meio Ambiente em clima, fala, em entrevista sobre as ilhas de calor que invadem o local.
O DIA: Por que o Alemão é considerado uma ilha de calor?
Gabriela Conc: Falando como geógrafa e como moradora do Complexo do Alemão, entender o território é fundamental pra entender por que ele é considerado uma ilha de calor. O Alemão passou por um processo de ocupação intenso, rápido e sem planejamento urbano por mais que tivéssemos tido grandes obras influenciando no histórico das favelas e políticas públicas da cidade.
As moradias são muito próximas, em sua maioria construídas com concreto, laje e telha de fibrocimento ou zinco, materiais que absorvem e acumulam calor ao longo do dia. Estamos falando desse ponto e a pouca arborização, a redução das áreas verdes e a circulação de ar comprometida pela forma como o território foi se verticalizando e se adensando.
Do ponto de vista climático, isso faz com que o calor fique retido no território e demore muito mais a dissipar, principalmente à noite. Quando a gente mede a temperatura dentro do Alemão e compara com dados oficiais de outras regiões da cidade, a diferença aparece com clareza, sobretudo nos dias de calor extremo. Ou seja, não é só sensação térmica: é uma condição ambiental produzida socialmente.

O DIA: Existe uma floresta no Alemão. Como está agora? Houve muito desmatamento?

Gabriela Conc: O Complexo do Alemão ainda possui áreas de mata importantes, principalmente em regiões mais altas e próximas a encostas, que fazem parte do maciço da Serra da Misericórdia. Essas áreas sempre foram fundamentais para o equilíbrio ambiental do território, ajudando a regular a temperatura, a umidade do ar e o escoamento da água da chuva.
No entanto, ao longo das últimas décadas, houve sim desmatamento. Isso não aconteceu de forma isolada ou por falta de consciência ambiental dos moradores, mas como consequência da ausência de políticas habitacionais, do crescimento populacional e da necessidade urgente de moradia. Muitas áreas verdes foram sendo ocupadas sem qualquer suporte do poder público. O resultado é a perda de cobertura vegetal, aumento do calor, maior risco de deslizamentos e impactos diretos na qualidade de vida de quem vive ali.

O DIA: O que pode ser feito para que o meio ambiente seja preservado?

Preservar o meio ambiente no Alemão exige olhar para o território com seriedade, justiça e com base em dados produzidos a partir da realidade local. Isso passa, primeiro, pela proteção das áreas de mata que ainda existem e pelo fortalecimento de Soluções Baseadas na Natureza (SBN), pensadas junto com os moradores e adaptadas ao contexto da favela. Reflorestamento urbano com espécies nativas, arborização de ruas e becos, criação de jardins de chuva, recuperação de encostas e incentivo a telhados verdes são exemplos de SBN eficazes para reduzir o calor, melhorar a qualidade do ar e aumentar a resiliência do território.

Do ponto de vista geográfico e urbano, essas soluções precisam estar integradas a políticas públicas de moradia digna, que impeçam novas ocupações em áreas de risco e ambientalmente sensíveis, e a investimentos em infraestrutura adequada. Mas nada disso funciona de forma isolada. A preservação ambiental só é possível quando há articulação entre o conhecimento do território e o poder público.

Nesse sentido, o Observatório do Calor cumpre um papel fundamental. A produção de dados climáticos feita a partir da favela, em diálogo e cooperação com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima do Rio de Janeiro (SMAC), fortalece a formulação de políticas públicas mais justas e eficazes. Quando o dado é construído em conjunto, ele deixa de invisibilizar territórios como o Alemão e passa a orientar ações concretas de adaptação climática. Preservar o meio ambiente, portanto, não pode ser tratado como responsabilidade individual dos moradores, mas como um direito coletivo, garantido pelo Estado e sustentado por dados, participação popular e compromisso institucional.
O DIA: Vocês promovem ações para conscientizar os moradores sobre a importância do meio ambiente?
Gabriela Conc: Sim, e essa conscientização parte sempre da realidade do território. No Observatório do Calor, a gente trabalha conectando meio ambiente com o dia a dia das pessoas: o calor dentro de casa, o aumento da conta de luz, o impacto na saúde, principalmente de crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas.
Como moradora, eu sei que ninguém precisa ser convencido de que o calor está mais forte, as pessoas sentem isso no corpo. O nosso trabalho é transformar essa vivência em dado, em informação e em argumento político, mostrando que o problema não é individual, é estrutural. Através de rodas de conversa, formação e produção de dados locais, buscamos fortalecer o cuidado coletivo e a consciência de que meio ambiente também é favela.

O DIA: Como você acredita que estará a mudança climática daqui a 10 anos?
Gabriela Conc: Daqui a 10 anos, se nada mudar de forma profunda, a tendência é que os eventos extremos sejam ainda mais frequentes: ondas de calor mais longas e intensas, chuvas mais concentradas, mais impactos sobre territórios periféricos como o Alemão. A crise climática tende a aprofundar desigualdades que já existem.
Ao mesmo tempo, acredito que os próximos anos também vão ser decisivos. Ou a gente avança em políticas de justiça climática, reconhecendo que favelas precisam estar no centro das soluções, ou vamos continuar lidando com respostas emergenciais que não resolvem o problema. Como geógrafa e moradora, eu acredito que o futuro climático passa necessariamente pela escuta dos territórios. Quem vive aqui já está sentindo há muito tempo o que o mundo começa agora a chamar de crise climática
Dicas práticas para climatização eficiente
E se sua casa ou escritório forem muito quentes nada como fazer uma climatização correta de ambientes como afirma o engenheiro Victor Henriques, da Help Reformas e Construções. De acordo com o especialista em climatização, além de reduzir a temperatura também influencia o bem-estar, a produtividade e o consumo de energia. Ele dá algumas dicas para que o consumidor consiga fazer do seu ambiente um lugar menos quente

1. Escolha o equipamento certo para cada ambiente
Antes de comprar, leve em conta o tamanho do espaço, a incidência de sol, a quantidade de pessoas e a necessidade de renovação de ar. Um equipamento mal dimensionado trabalha em excesso, consome mais energia e não entrega conforto.

2. Não climatize com portas e janelas abertas
Manter o ambiente aberto enquanto o sistema está ligado compromete totalmente a eficiência da climatização e aumenta o gasto energético.

3. Entenda a diferença entre ventilador, climatizador e ar-condicionado
O ventilador apenas movimenta o ar e é indicado para alívio momentâneo do calor.
O climatizador evaporativo funciona melhor em locais secos e ventilados.
O ar-condicionado é a melhor opção para ambientes fechados, pois controla temperatura e umidade de forma estável.
4. Atenção ao posicionamento do equipamento
Um aparelho mal instalado pode gerar correntes de ar desconfortáveis e desperdício de energia. No caso do ar-condicionado, direcione as aletas para cima para garantir uma distribuição mais uniforme do ar frio.
5. Evite temperaturas extremas
A faixa ideal para ambientes de trabalho e estudo fica entre 23 °C e 26 °C. Temperaturas muito baixas não aumentam o conforto e podem causar dor de cabeça, irritação na garganta e queda de concentração.

6. Mantenha a manutenção em dia
Filtros sujos acumulam poeira, fungos e bactérias, prejudicando a qualidade do ar e a saúde dos usuários. A falta de manutenção também aumenta o consumo de energia e o nível de ruído do equipamento.

7. Ajuste o fluxo de ar para evitar desconfortos
Evite jatos de ar direto no rosto e mudanças bruscas de temperatura. Pequenos ajustes nas aletas e pausas para adaptação térmica tornam o ambiente mais agradável.
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