Durante o processo, família de Thiago Flausino realizou atos pedindo justiçaFred Vidal / Arquivo O Dia
Publicado 12/02/2026 10:57
Rio - A absolvição dos policiais militares acusados de matar Thiago Menezes Flausino, de 13 anos, decretada por júri popular nesta quarta-feira (11), causou revolta em familiares do adolescente. O menino foi baleado durante uma operação na Cidade de Deus, na Zona Sudoeste, em agosto de 2023.
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Ao DIA, Hamilton Menezes, tio do jovem, revelou que se sente injustiçado com a decisão dos jurados. Após a morte do sobrinho, o familiar teve acesso a imagens de uma câmera de segurança que flagraram quando um dos policiais atirou contra Thiago. Segundo Hamilton, as provas apresentadas não serviram para um desfecho positivo. 
"Estou extremamente chateado com essa situação por saber de tudo e saber a história verdadeira. Ver uma injustiça dessa é muito ruim. Que dor no coração. Estou extremamente injustiçado. É tudo muito incoerente. Mataram uma criança e conseguiram colocá-la como um criminoso. Dói muito ver os assassinos saírem como heróis. Depois de tantas lutas, tantas testemunhas, tantas provas, não acredito na Justiça do Brasil", disse.
A Anistia Internacional do Brasil, organização que acompanha o caso do Thiago desde o início, emitiu uma nota lamentando a absolvição. De acordo com a instituição, ocorreu uma mudança do foco do julgamento. Para o grupo, em vez de questionar a morte e a conduta dos policiais, houve questionamento sobre vida e memória do menino, associando sua imagem à criminalidade como forma de justificar a execução.
"Essa inversão, que transforma a vítima em alvo de julgamento, desvia o debate do que está em análise e fere o direito à memória, à verdade e à justiça. Quando o foco do júri se desloca para vida da vítima, e não para a conduta dos acusados, há uma inversão grave. O réu é quem está sendo julgado, não o menino que
foi morto. Questionar a trajetória de Thiago não contribui para a justiça; ao contrário, perpetua violência e atinge seu direito à memória e à dignidade", destacou o texto.
A Anistia ressaltou que, segundo levantamento do Ministério da Justiça e Segurança Pública, 56.396 pessoas foram mortas em ocorrências classificadas como homicídios por intervenção policial entre 2015 e agosto de 2025. Dessas vítimas, 82,7% eram negras e 71,7% eram jovens.
"Todas essas mortes poderiam ser evitadas com uma política de segurança pública que colocasse a vida no centro de sua atuação. É urgente interromper a lógica de militarização e a narrativa de 'guerra às drogas', além de garantir a responsabilização criminal, administrativa e cível dos agentes do Estado envolvidos em operações letais. A absolvição dos policiais militares representa uma derrota na luta por justiça, memória e reparação. Manifestamos nossa indignação e solidariedade com a família de Thiago. Histórias como a dele não deveriam existir e nossa luta é para que casos como este não mais se repitam", completou a nota.
O advogado Rodrigo Mondego, especializado em Direitos Humanos, também criticou a decisão do júri. "A mensagem que fica é cruel: negros podem ser executados pela polícia impunimente. Quando a Justiça falha, a dor vira revolta. Seguiremos exigindo memória, verdade e justiça", publicou nas redes sociais.
Na decisão desta quarta, foram absolvidos os policiais Aslan Wagner Ribeiro de Faria e Diego Pereira Leal pelo homicídio do Thiago e a tentativa de homicídio contra Marcos Vinícius de Souza Queiroz, amigo do adolescente que pilotava a moto na hora do ocorrido.
O Ministério Público do Rio (MPRJ) informou que a 2ª Promotoria de Justiça junto ao II Tribunal do Júri da Capital interpôs recurso contra a sentença ainda durante a própria sessão.
Relembre o caso
A morte aconteceu em agosto de 2023, durante operação policial na Cidade de Deus. Thiago tinha 13 anos quando foi atingido por três tiros enquanto andava na garupa de uma moto, na principal via de acesso ao bairro. Segundo testemunhas, ele não portava arma e não havia confronto no momento dos disparos.
De acordo com o Ministério Público do Rio (MPRJ), os denunciados estavam em um carro descaracterizado e atiraram contra as vítimas. A defesa dos policiais apresentou imagens atribuídas a Thiago na qual ele usava uma arma. Na terça-feira (10), dia que o júri popular começou, Priscila Menezes, mãe do adolescente, disse que ele não estava armado no momento da ocorrência. "Não sabia. Não consigo ver verdade nessas fotos. Em várias delas eu não acho que é o Thiago", frisou.
Durante os depoimentos, Marcos Vinicius, amigo da vítima, que sobreviveu ao ataque, afirmou que nunca viu Thiago armado e que o adolescente não portava arma no dia em que foi morto.
O que alegaram os policiais
Em depoimento, os policiais militares relataram que havia uma operação para coibir um baile funk irregular e alegaram que estavam usando o carro de um terceiro agente, atendendo ao pedido de superiores para que operassem drones para monitorar a região e identificar a melhor estratégia para as equipes acessarem a área.
Após terminarem o trabalho com os drones, eles seguiram para encontrar com a equipe em um posto de combustíveis, com exceção do dono do veículo, que estava à paisana e voltaria ao batalhão com o carro. Ainda segundo as oitivas, enquanto aguardavam no veículo particular, os PMs viram a motocicleta com as vítimas passar pelo estabelecimento, alegaram terem visto Thiago portando uma arma e passaram a seguir as vítimas, até o momento em que elas caíram com a moto.
Na sequência, Aslan Wagner teria descido do banco de trás e ido em direção aos jovens, no momento em que, segundo relatos dos réus, teriam sido efetuados disparos contra a equipe. Ele afirmou ter sido o primeiro a desembarcar e que deu ordem de parada para as vítimas, mas que Thiago teria atirado contra ele, que revidou com dois disparos. O PM não soube dizer se foram esses os tiros que o atingiram.
Já Diego, que estava no banco do carona, afirmou que, ao ouvir os tiros, imediatamente saiu do carro e viu o adolescente atirando contra a equipe, disparando contra a vítima neste momento.
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