Por meio dos temas carnavalescos, alunos aprendem históriaMarcelo Piu/Prefeitura do Rio
Publicado 22/02/2026 00:00
O Carnaval, por vezes associado apenas à festa e ao entretenimento, tem se consolidado ano após ano como um recurso pedagógico relevante nas escolas brasileiras. Ao reunir história, literatura, arte, geografia e atualidades em seus enredos, a maior manifestação cultural do país oferece um vasto repertório que pode ser explorado em sala de aula de forma interdisciplinar.

Educadores têm utilizado os desfiles das escolas de samba como ponto de partida para discussões sobre identidade cultural, formação do Brasil, movimentos sociais e patrimônio histórico. Os enredos, muitas vezes baseados em personagens históricos, obras literárias, temas sociais ou acontecimentos marcantes, funcionam como narrativas que facilitam a compreensão de conteúdos curriculares de maneira mais acessível e contextualizada.
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Só em 2026, escolas do Grupo Especial e da Série Ouro abordaram nomes importantes da literatura, como Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo, além de temas ligados à história cultural do país, com enredos sobre figuras como Rita Lee e Heitor dos Prazeres.

Do ponto de vista pedagógico, Thiago Braga, professor e coordenador de linguagens e redação do Colégio e Curso pH, destaca que o Carnaval permite conectar teoria e prática e ampliar o repertório dos estudantes de forma concreta. "O carnaval pode e deve ser usado para falar sobre identidade cultural, principalmente as da diáspora africana, mas também as indígenas e a própria identidade brasileira. Isso marca um traço de brasilidade que precisa ser apresentado, discutido e refletido com frequência na sala de aula",  afirma o especialista.

Outro aspecto que tem chamado atenção é a relação entre os enredos carnavalescos e os vestibulares e o Enem. Temas recorrentes nas escolas de samba, como meio ambiente, diversidade, ciência, ancestralidade e cidadania, dialogam diretamente com conteúdos cobrados nas provas. Em alguns casos, referências culturais populares já aparecem em questões de interpretação de texto, repertório sociocultural e redação, reforçando a importância de o estudante acompanhar manifestações culturais relevantes.

"Trabalhar o Carnaval em sala de aula contribui para o desenvolvimento do pensamento crítico e da capacidade de interpretação, competências exigidas nos principais exames do país. Além disso, o estudo dos enredos amplia o repertório sociocultural dos alunos, elemento valorizado em redações e provas discursivas", destaca Thiago Braga, do Colégio e Curso pH.

Neste mês, a Empresa Municipal de Multimeios do Rio de Janeiro lançou o site 'Rio, Escola de Samba', um ambiente digital dedicado à história do samba, seus territórios e personalidades. A partir desse universo, professores de História podem explorar períodos históricos retratados nos sambas-enredo; em Geografia, discutir culturas regionais e diversidade; em Língua Portuguesa, analisar as letras como textos poéticos, ricos em metáforas, intertextualidade e construção narrativa. Disciplinas como Artes e Sociologia também encontram no tema um campo fértil para reflexões sobre estética, cultura popular e expressão coletiva.

A abordagem pedagógica também contribui para valorizar a cultura brasileira dentro do ambiente escolar, aproximando os estudantes de uma manifestação que faz parte do seu cotidiano. Em vez de ser visto apenas como um período de recesso, o Carnaval passa a ser compreendido como um fenômeno cultural multifacetado, que reúne pesquisa histórica, produção artística e reflexão social.

Assim, ao incorporar os enredos das escolas de samba ao planejamento pedagógico, as instituições de ensino transformam a folia em ferramenta de aprendizado. Mais do que acompanhar desfiles, os alunos são incentivados a interpretar narrativas, analisar contextos e construir repertório, habilidades essenciais tanto para a formação acadêmica quanto para o desempenho em vestibulares e no Enem. Como conclui Braga, "essa abordagem conecta diferentes áreas do conhecimento e amplia as possibilidades de reflexão, não impondo limites para que a festa seja utilizada como fonte de reflexão e de conhecimento',
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