Exposição de Beatriz Milhazes, na Casa Roberto Marinho, foi um dos passeiosArquivo pessoal
Publicado 01/03/2026 00:00
Eles já se aposentaram, estão mais experientes e muitas vezes não querem mais sair de casas ou por preguiça, por falta de companhia ou porque acham que devem apenas ficar assistindo televisão. Ledo engano. Com o perfil @foradecas4, criado pelo administrador de empresas João Felipe Cardoso, de 24 anos, chamado carinhosamente de Lilo, ninguém mais fica parado fazendo crochê, tricô ou jogando um buraquinho. Os 60+ estão sempre inventando moda e conhecendo restaurantes, passeando pelo Rio de Janeiro e fazendo cada vez mais amigos.Quando criou o perfil, Lilo pensou nos seus avós que saiam pouco de casa. "Normalmente idoso é medroso, inseguro, não nasceu na era da tecnologia, não sabe comprar nada pela internet, nem reservar um almoço ou comprar um bilhete no teatro e cinema, enfim sempre precisando de ajuda de outras pessoas, e o Fora de Casa faz extatamente isto. Ajuda muito", diz.
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Ele conta que a inspiração maior veio do avô paterno, o aposentado Caio Yazeji, de 82 anos."Sempre gostei desse mercado da terceira idade. Em 2021 por conta do meu avô, principalmente porque eu sempre o vi com dificuldade em tecnologia, meio sozinho em casa, minha ideia era abrir algo nesse sentido, mas percebi que ninguém gosta muito de ser monitorado. Então seria bem difícil tocar'', diz ele, que neste ano pensou em outro empreendimento.
"Agora, o meu projeto Fora de Casa, que existe há mais ou menos três meses, é fácil porque é entretenimento, é uma coisa legal. Todo mundo quer sair de casa. Fui nessa linha. Idealizei pensando no meu avô, que, às vezes, fica meio deprimido, para baixo, alguns amigos morreram. É muito custoso para ele marcar programas e eu pensei, poxa, devem ter pessoas que estão na mesma situação do meu avô que querem sair, mas têm dificuldade, seja por falta de companhia, de vontade e esforço de organizar tudo ou até preguiça Então, o @foradecas4 é como se fosse um empurrãozinho para que as pessoas convivam entre si, interajam. E possam sair de casa de forma recorrente Para fazer coisas diferentes", pontua.
E não é que a história de Lilo agradou o avô paterno. "Eu já fui a alguns encontros que meu neto organizou. Trata-se de uma oportunidade de as pessoas se encontrarem. Notei que elas interagem logo que se conhecem. Acho que os homens têm mais dificuldade de fazer coisas depois que se aposentam. A avó dele, de quem sou separado há muito tempo, vive inventando coisas. Faz curso de artes, entre outros. Eu jogava golfe mas já parei. De vez em quando vou ao bar ou ao café para encontrar alguns amigo", conta seu Caio, orgulhoso da iniciativa do neto.
"O @foradecas4 já teve 100 mil visualizações. Até a Fátima Bernardes e outras pessoas conhecidas comentaram. A internet tem uma capacidade imensa'', diz o aposentado, que trabalhou no Banco Central, no Banerj e no Globo. "Há 20 anos não faço mais nada", brinca ele, que está torcendo pelo sucesso do neto.
A avó paterna, Ina Yazeji Cardoso, também está muito feliz com a ideia do neto. ''Tenho 82 anos bem vividos. Tenho sempre muitas atividades, aproveito bastante os eventos do João Felipe. Gosto de teatro, museu e restaurantes", diz ela que é formada em filosofia.
Projeto chega em São Paulo
Ina conta uma novidade. "O projeto vem tendo muita procura e uma aceitação incrível no Rio e será lançado em São Paulo. Acho que João Felipe foi muito feliz com essa iniciativa.  Todos estão animados e elogiando bastante".
Já a aposentada Cristina Azevedo, de 73 anos, conhecida como Kiki, é avó materna de Lilo e ficou surpresa com o sucesso que o projeto vem fazendo em tão pouco tempo.
"Quando ele começou a fazer isso eu não esperava esse tipo de retorno. Depois que começou estou completamente encantada com o sucesso que tem sido. Todo mundo vai, fica feliz, alegre, um monte de gente que é sozinha. Outro dia foram uns casais e eu fiquei surpreendida mas achei muito legal terem os maridos irem também teatro. Torcendo muito para o sucesso continuar. Brota gente'', diz ela que trabalhou no Restaurante Guimas durante 14 anos.
A aposentada Angela Quental fala que tudo flui no grupo. "Passamos horas super agradáveis. É tudo muito organizado, de primeira categoria, pessoas maravilhosas, simpáticas, além de ficar sempre bem informado e poder conversar sobre tudo, música,show, estar atualizada com os fatos. É bom demais.Foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida ultimamente. Viva o Fora de Casa! É Muito amor envolvido'', diz Angela que depois de ter tomado uma garrafa de vinho num dos almoços dormiu até às 19h.
''O projeto está mudando minha vida para melhor já vou fazer um retiro nos dias 7, 8, e 9 de março maravilhoso em Friburgo. Só o @foradecas4 nos proporciona esses encontros'', empolga-se.
Agenda de experiências
Para João Felipe, a ideia é que haja sempre uma agenda de experiências. "Gosto de falar que é experiência e não é evento porque é realmente se trata de uma experiência, não é só uma ida ao teatro. A pessoa podia muito bem ir ao teatro, comprar o ingresso dela e pronto. Só que é desde a etapa que a gente escolhe o programa, faz a curadoria do programa, organiza as pessoas, a gente cria grupos antes dos eventos para as pessoas se falarem entre si'', explica, acrescentando como se faz as apresentações.
"Lá na hora a gente faz uma interação entre as pessoas, a pessoa sabe quem está com ela ali, quem é do Fora de Casa. Depois a gente faz uma dinâmica antes e depois. Então não é só uma ida ao teatro, é uma experiência. Então eu gosto de falar que é sempre experiência. Eu consigo ter diversas experiências na semana, seja gastronômica, cultural como exposições,  teatro e até atividade física", diz o idealizador, afirmando que o feedback tem sido muto legal. 
Lilo conta que mais de 150 pessoas participam de grupo. "Tenho ido a todos as experiências e o interessante é que são vários perfis e faixas etárias diferentes desde uma senhora de 94 anos que foi a mais velha e está ativa e quer se manter assim até uma pessoa, inclusive mais nova, que é um pouco mais para baixo e não sai muito e a família a incentivou a participar do grupo. "Então têm vários perfis. Muita gente usa o Fora de Caasa para tentar retomar a alegria de viver'', finaliza João Felipe.
Envelhecer com convivência é essencial
De acordo com a psicóloga clínica e jurídica Andreia Calçada é de suma importância que todos, principalmente os idosos tenham grupos. "O convívio social é fundamental para a qualidade de vida do idoso. Manter contato com amigos, familiares e participar de atividades em grupo contribui para a saúde mental e emocional. A socialização estimula a memória, o raciocínio e ajuda a prevenir doenças como a depressão.
Ela afirma que  o isolamento social, traz prejuízos. "Vimos muito isso na pandemia, o isolamento social pode causar tristeza, solidão e até agravamento de problemas de saúde. Idosos isolados tendem a se sentir desmotivados e inseguros. Fazer novas amizades depois dos 60 anos é possível e traz ganhos. Participar de atividades em grupo é uma ótima forma de ampliar o círculo social. Envelhecer com convivência, e principalmente com relações de afeto, é envelhecer com mais felicidade e isso é essencial para o bem estar geral do idoso", finaliza.
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