Com a lona rasgada, a água das chuvas entra e molha o palcoÉrica Martin / Agência O Dia
Publicado 13/03/2026 09:33 | Atualizado 13/03/2026 15:08
Rio – Moradores de Campo Grande, na Zona Oeste, e atores estão se mobilizando em prol da restauração do Teatro de Arena Elza Osborne, a primeira Lona Cultural da cidade e um dos poucos espaços de lazer do bairro. Dentre os problemas relatados estão a falta de acessibilidade, ausência de patrocínio fixo, pinturas desgastadas no interior e deterioração na estrutura.
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O DIA esteve no teatro, na Estrada Rio do A, 220, nesta quinta-feira (12) para entender a situação. Com as cortinas fechadas temporariamente por conta dos problemas, o espaço divulgou nas redes sociais uma vaquinha online para receber financiamento coletivo para ajudar na recuperação. A meta é de R$ 10 mil.
Christian Pierini, 51, um dos diretores do teatro, compartilhou a história do espaço administrado há gerações pela família: "Ele foi fundado em 1958, era um teatro a céu aberto que ficou paralisado durante o regime militar. Nos anos 1980, eu, minha mãe, Regina Pierini, e meu pai, Ives Macena, reativamos o espaço. Eu ainda era muito novo na época, mas comecei a trabalhar com eles, produzindo eventos e peças."
Ele revelou que a lona cultural recebeu investimento público através de uma parceria de co-gestão com a Prefeitura: "Meu pai viu a necessidade do teatro ter uma cobertura, então começamos uma campanha e ganhamos da extinta Fundação RioArte uma lona da Eco 92. E, assim, prosseguimos o nosso trabalho, com um contrato que durou 30 anos", diz o gestor.
Segundo ele, o Osborne começou a apresentar desgastes em 2022, quando uma outra parceria, com a Secretaria de Cultura, acabou: "Mesmo 'remendando' o espaço, continuamos executando alguns projetos da Prefeitura, "sobrevivendo" por meio de editais de fomento. A gente encontrou muitas dificuldades para fazer reparos, mas conseguimos uma licitação pela Fundação de Apoio à Pesquisa Científica e Tecnológica da UFRRJ (Fapur)".
Embora o trâmite com a Fapur já esteja em andamento, o teatro enfrenta demandas urgentes, inclusive de pessoal que tocam espaço: "Estamos aguardando porque é um processo lento, e temos muitos membros aqui precisam trabalhar para sobreviver, agentes, músicos, então precisamos continuar. Em janeiro, a situação piorou quando uma chuva de granizo destruiu de vez a lona que já estava remendada", relata Christian. 
O diretor comentou ainda que os esforços para preservar o teatro continuam: "Com todo esse cenário, a gente foi contemplado por outro edital, e o dinheiro foi transferido ontem [quarta-feira] para a compra da nova lona. Mesmo assim, o investimento só dá para o material, então lançamos a vaquinha para arcar com a instalação e com os outros problemas."
O que dizem os órgãos públicos
Em nota, a Fapur confirma que um recurso destinado à reforma do telhado no valor de R$ 1.593.900 vem sendo administrado desde abril de 2024 (R$ 600 mil) e informa que a complexidade do projeto se dá porque será necessária uma equipe de engenheiros para mudar toda a estrutura.
"Desde o final do ano passado, a Fapur, por meio da equipe técnica do setor de compras, com o apoio de engenheiro dedicado, vem orientando e apoiando a equipe do projeto na elaboração da documentação necessária para formalizar a contratação de empresa especializada para a realização dessa reforma. Ressalta-se que o processo possui certa complexidade, pois, após avaliação técnica realizada por engenheiros, foi identificada a necessidade de ajustes estruturais, e não apenas a simples substituição do telhado", esclarece.
O órgão reitera, no entanto, que não há repasse direto de recursos ao Teatro Elza Osborn e que "os recursos do projeto são aplicados exclusivamente nas ações previstas no plano de trabalho aprovado, cabendo à Fapur a gestão administrativa e financeira da execução, em conformidade com as normas aplicáveis à gestão de recursos públicos". 
A fundação também informa que o documento necessário para a contratação de técnicos está em andamento: "Atualmente, o projeto está dedicado à elaboração do Termo de Referência, documento que servirá de base para a futura contratação da empresa responsável pela execução da reforma".
Já a Secretaria Municipal de Cultura, informa, por sua vez que a criação do Elza Osborne marcou o início do projetos de Lonas Culturais, uma iniciativa pioneira voltada à ampliação do acesso a equipamentos culturais em diferentes regiões da cidade.
A partir de 2015, a Secretaria passou a estabelecer parcerias de cogestão com organizações culturais, e o Elza Osborne foi um dos espaços contemplados até 2021.
O contrato, no entanto, não foi renovado para 2022, porque segundo a pasta, o teatro não “concordou com os termos propostos pela Administração Pública para a manutenção do modelo de cogestão, o que inviabilizou sua permanência na rede”.
Desde então, a Lona Cultural não integra mais a “rede de Arenas e Areninhas administradas pela Secretaria Municipal de Cultura, não se encontrando atualmente entre os equipamentos culturais sob gestão da Pasta.”
'Saudade do teatro'
Humorista e morador de Campo Grande, Andrews Minehah, 22, diz que foi no Elza Osbourne a primeira vez que viu um espetáculo na vida: "A primeira vez em que eu fui ao teatro foi lá, aos 6 anos. Eu fui ver "Sid, o Cientista" e, posteriormente, outros espetáculos infantis como "Backyardigans", "Capitão Livrão", e me encantei. Ver o teatro pausado é ter nosso point cultural fechado, impede artistas como eu de ocupar esse lugar que é também um pouco nosso. Precisamos nos unir para tê-lo de volta". 
Já para o professor de teatro Thomaz de Andrade, 40, a Lona Cultural o direcionou para a vocação que exerce atualmente: "Tenho 25 anos de carreira dedicada ao teatro. Minha história com a Lona começou há muito tempo, quando fui levado pela minha tia para fazer uma oficina com o professor Zé Antônio, o que fez a diretora Regina Pierini [mãe de Christian] ver meu trabalho e me convidar para o grupo Artistas Arteiros. Fizemos várias apresentações lá e em outros espaços da Zona Oeste. E nunca mais parei, hoje sou professor de teatro e ator por causa da influência desse espaço que sempre fui muito importante para o bairro".
DJ e atriz, Carolina Muniz, 29, conta que sua história na Lona é repleta de momentos especiais: "Esse teatro tem uma grande importância na minha vida como cidadã e amante da arte e da cultura. Já atuei lá uma vez, tive muitas aulas, inclusive de violão, ganhei livros gratuitos que até hoje guardo com muito carinho, conheci apoiadores incríveis, fiz grandes amizades, vi shows... enfim, é muito especial".  
História da fundadora
Elza Osborne foi a primeira mulher engenheira a administrar quadros do funcionalismo da Prefeitura do Distrito Federal e do CREA-RJ. Ela esteve à frente de diversas obras na Zona Oeste do Rio, como a construção do viaduto Engenheiro Alim Pedro, Teatro de Arena, Teatro Arthur Azevedo, o anfiteatro da Praça Filomena, entre outras. Elza também foi dramaturga e escreveu a peça Zé do Pato, que deu ao Teatro Rural do Estudante 11 prêmios em disputa no I Festival Nacional de Teatro.
*Reportagem da estagiária Ágatha Araújo, sob supervisão de Adriano Araújo
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