O ginecologista Luiz Carlos da S. Santos diz que mulher não deve sentir dorArquivo pessoal
Publicado 15/03/2026 00:00
Se você, mulher, ouvir que 'DOR É NORMAL' não acredite. O alerta é do ginecologista Luiz Carlos da S. Santos que tem total preocupação com uma doença que atinge muitas mulheres: a endometriose. O Março amarelo é uma campanha de conscientização dedicada à endometriose. "Essa Luta é antiga e ferrenha em que nós médicos que vestimos esta camisa insistimos em afirmar 'dor não é normal', a mulher não tem e não deve sentir dor", afirma o profissional.O médico explica que essa doença ginecológica crônica não tem cura, mas tem tratamento. e ocorre quando o tecido interno do útero chamado de endométrio cresce fora do útero e pode atingir intestino, bexiga, ovários, ligamentos pélvicos, umbigo, diafragma e outras estruturas. De acordo com o profissional, cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva no mundo são portadoras de endometriose, o que representa aproximadamente 1 em cada 10 mulheres.
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"Apesar de ser relativamente comum, o diagnóstico pode levar de 7 a 10 anos entre o início dos sintomas e o diagnóstico definitivo. Isso acontece porque muitas vezes a dor menstrual intensa é considerada “normal”, o que pode atrasar a investigação'', diz o profissional. Ele afirma que o sintoma de cólica menstrual pode ser isolado ou estar acompanhado de outros sintomas: dor pélvica (fora da menstruação), dor durante ou após a relação sexual, dificuldade para engravidar, alterações intestinais durante a menstruação (fezes amolecidas, por exemplo), dor para evacuar durante o período menstrual, presença de sangue nas fezes ou na urina durante a menstruação. "Essas queixas podem vir isoladas ou mais de uma e variam de mulher para mulher, mas precisam ser investigadas. É importante lembrar que sentir dor intensa não é normal''.
O profissional orienta as mulheres que apresentem um desses sintomas a procurar seu ginecologista para avaliação e, caso necessário, pode ser encaminhada a um serviço especializado em endometriose. "Os exames iniciais para avaliação de endometriose são a ressonância magnética da pelve e a ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal específica para pesquisa de endometriose. Esses exames permitem avaliar a presença da doença e mapear a extensão das lesões, o que ajuda a definir o melhor tratamento", ressalta.
Ele conta que a pergunta mais comum no consultório do especialista é: "A endometriose tem cura? "Trata-se d uma doença crônica, portanto, até o momento não possui cura definitiva. Porém, existem tratamentos que permitem controlar a doença e melhorar muito a qualidade de vida. O tratamento pode ser clínico (medicamentoso) ou cirúrgico (em casos específicos)", finaliza o doutor Luiz Carlos da S. Santos.
Preocupação em todas as faixas etárias

A também ginecologista Fernanda Torras acredita que é um erro acreditar que a endometriose é uma preocupação exclusiva da mulher jovem. "Muitas pacientes chegam aos 40 anos ou à menopausa após décadas de dores silenciadas, esperando que o fim das menstruações seja a cura definitiva. No entanto, as lesões podem continuar ativas e dolorosas, especialmente nos casos de endometriose profunda ou durante o início da terapia de reposição hormonal. Investigar dores pélvicas persistentes e desconfortos intestinais nessa fase é essencial para evitar que um diagnóstico tardio comprometa a vitalidade da mulher", afirma a profissional.
Segundo Torras, a recomendação principal é não esperar que a menopausa resolva sozinha o que anos de inflamação causaram. "Inclusive, se a menopausa for tratada com reposição hormonal, a endometriose não regride e continuará ativa. Se a dor persiste e compromete a rotina, a cirurgia pode surgir como uma aliada poderosa nessa fase da vida para remover os focos da doença", salienta.
Além disso, de acordo com a especialista, para quem planeja a reposição hormonal, o histórico de cirurgias anteriores ou a presença de lesões prévias exige um protocolo específico e seguro, para evitar a reativação da doença. "O acompanhamento especializado é o que garante tratar a endometriose de forma assertiva, permitindo um envelhecimento com qualidade de vida e sem as limitações físicas impostas pela dor crônica'', conta.

Desconfortos não são normais

Para a mulher nem sempre é fácil detectar e entender o que sente com o seu corpo e que algo não está certo. A nutricionista Camila Vieira da Silva Martins, de 34 anos, percebeu, em 2024, uma mudança muito drástica em seu corpo. "O que eu achava normal se tornou um tormento para mim. Comecei a sentir muitos desconfortos, dores que nunca tinha sentido antes. A minha rotina diária começou a se tornar chata, desagradável, e tudo me incomodava. Eu achava isso normal, era o que eu pensava, mas quem convivia comigo todos os dias começou a expressar o desagrado com as minhas atitudes", recorda.
Camila, então, começou a correr atrás para averiguar o que podia estar acontecendo com ela. "Confesso que foi difícil sair da procrastinação, pois, como mãe, esposa e profissional. pensamos em cuidar de todos, mas às vezes deixamos de cuidar de nós mesmos e nos colocamos em segundo plano. Mas, diante do que estava ocorrendo, comecei a ter um olhar diferente em relação à minha saúde e a buscar melhorias para mim, pois sabia que, estando bem, ajudaria outras pessoas'', conta.
Ela diz que os sintomas que chamaram sua atenção antes do diagnóstico de endometriose são cólicas menstruais intensas, fluxos intensos com coágulos aparentes, dores na relação sexual, distensão abdominal, perda de cabelo excessiva (alopecia) e cansaço excessivo no dia a dia. A nutricionista conta que para fechar o diagnóstico foi quase um ano,  porque ela teve um pouco de dificuldade com recursos médicos. "É um pouco demorado, pois é uma demanda muito grande de solicitação de exames e procedimentos, mas, assim que consegui, a medida preventiva foi rápida e assertiva, e hoje me encontro um pouco melhor. Ela lembra que os sintomas chegaram a ser tratados como normais, o que não condizia com a verdade.
"Prescreviam medicamentos para silenciar a dor, mas não melhorar o problema. Fui a vários médicos até encontrar uma que pudesse me assistir de perto, ter compaixão e ouvir o que estava sentindo. Aí solicitou os exames necessários e assertivos para fechar o diagnóstico e melhorar a minha dor. Fui muito bem orientada por ela e sou grata'', revela Camila.

Sofrimento psicológico

De acordo com a psicóloga Camila Ribeiro, a endometriose é uma condição que ultrapassa a dor física e impacta profundamente a saúde mental da mulher. "Conviver com dor crônica, limitações na rotina e, muitas vezes, com a demora no diagnóstico pode gerar ansiedade, frustração e sensação de desamparo. Muitas mulheres seguem tentando manter suas responsabilidades enquanto enfrentam dores intensas e recorrentes, o que pode levar ao esgotamento emocional", pontua Camila.
A profissional afirma ainda que a incerteza sobre o próprio corpo, as dificuldades na vida íntima e as preocupações relacionadas à fertilidade também afetam a autoestima e o equilíbrio emocional. "Quando essa dor é minimizada ou desacreditada, o sofrimento psicológico tende a se intensificar. Por isso, o cuidado com a endometriose precisa considerar não apenas o corpo, mas também o impacto emocional que essa experiência provoca na vida da mulher".
Psicólogo dos hospitais São Marcelino Champagnat e Universitário Cajuru, Pedro Enrique Rujano também fala do impacto emocional que a doença traz para a mulher. 
"A endometriose impacta a saúde mental da mulher ao produzir uma experiência contínua de dor, imprevisibilidade e perda de controle sobre o próprio corpo. Do ponto de vista psicológico, a convivência com sintomas pode favorecer sofrimento emocional e hipervigilância. Muitas mulheres vivenciam sentimentos de invalidação, especialmente diante do atraso diagnóstico e da minimização da dor. Essas experiências podem comprometer autoestima, identidade feminina e relações afetivas. Nesse contexto, observa-se maior vulnerabilidade para quadros de ansiedade e depressão. A psicologia contribui oferecendo espaço de escuta, elaboração emocional e fortalecimento de estratégias de enfrentamento diante da complexidade da endometriose."
Questão de saúde pública
A Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) aprovou, na tarde de terça-feira (10), em segunda e última votação, o Projeto de Lei nº 4926/2025, que institui o Dia Estadual da Luta contra a Endometriose, a ser celebrado anualmente em 13 de março. A proposta, de autoria da deputada estadual Lilian Behring (PCdoB), altera a Lei nº 5.645/2010, que consolida as datas oficiais do calendário do estado.
Com a aprovação definitiva no Parlamento fluminense, o texto segue agora para análise do governador Cláudio Castro, que terá 15 dias úteis para sancionar ou vetar a nova lei. A medida busca ampliar a conscientização sobre a endometriose, uma doença crônica que afeta milhões de mulheres e que ainda enfrenta grande desconhecimento e diagnóstico tardio. Ao incluir a data no calendário oficial do estado, o projeto pretende estimular campanhas educativas, debates e ações de saúde voltadas ao diagnóstico precoce e ao tratamento adequado.
"É uma vitória muito significativa aprovar esse projeto justamente no Mês das Mulheres. Estamos falando de uma doença que causa dor intensa, sofrimento e muitas vezes anos de espera por diagnóstico. Dar visibilidade à endometriose é também defender a saúde e a dignidade das mulheres. Quando o poder público reconhece essa pauta, abre espaço para informação, prevenção e cuidado. Precisamos parar de naturalizar a dor das mulheres e tratar a endometriose como a questão de saúde pública que ela é", afirmou a deputada Lilian Behring.
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