Parede da casa do Jorge Augusto, em Ramos, foi destruída pelo fogoReginaldo Pimenta / Agência O Dia
Publicado 18/03/2026 15:30 | Atualizado 18/03/2026 15:39
Rio - Nove dias após o incêndio que destruiu a loja Motocriss, em Ramos, na Zona Norte, os moradores da vila ao lado ainda não conseguiram voltar para casa. Nesta quarta-feira (18), uma escavadeira foi utilizada no terreno para movimentar os escombros e possibilitar com que o Corpo de Bombeiros consiga apagar pequenos focos de incêndio que surgem abaixo do entulho.
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Militares que atuam no local explicaram ao DIA que, conforme os destroços são revirados, o oxigênio chega a materiais inflamáveis, como pneus e óleo, e formam novas chamas. Os agentes ainda apontam que há a possibilidade de haver baterias de lítio, o que dificultaria ainda mais o combate ao incêndio. Apesar de não ter risco desse fogo chegar às casas, o grande volume de fumaça com cheiro forte impossibilita que os moradores retornem para suas residências.
O conferente de transportadora Jorge Augusto, de 72 anos, contou que a energia elétrica já foi religada na vila e a Defesa Civil liberou a entrada nas moradias. A parede da sua casa foi destruída no incêndio e ele não consegue voltar a morar no imóvel, já que a fumaça toma conta de todos os cômodos. Cercado por incertezas, o idoso contou que os moradores precisam de ajuda e estão se sentindo abandonados pelos órgãos públicos.
"Estou esperando alguém que possa fazer alguma coisa por nós moradores e ainda não apareceu ninguém. Estamos vivendo um filme de terror. Estou com medo de perder minha casa, o fogo não apaga. O Corpo de Bombeiros está fazendo tudo que eles podem, mas o fogo não vai embora. Eu não sei nem o que dizer, passa muita incerteza na cabeça. É fumaça, fogo. É uma covardia. Perdi muita coisa, preciso recomeçar e não tenho como, financeiramente. Quero voltar para minha casa", desabafou emocionado.
A autônoma Ana Cláudia dos Santos, de 39 anos, tentou retornar ao lar, mas passou mal por conta do forte cheiro da fumaça. Ela comercializa salgados e não tem conseguido vender suas mercadorias, já que perdeu muitos dos produtos e não consegue fazer novas levas.
"Estou pedindo ajuda, deixando meus filhos espalhados nas casas dos outros, não tenho como deixá-los em casa com essa fumaça. Na vila, tem criança, bebê recém-nascido, e a gente precisa de ajuda. Depois do primeiro dia do incêndio, nós fomos abandonados. Os donos da loja falaram que não tem dinheiro e a gente entende, mas também precisam entender nosso lado. Nós estamos sendo muito prejudicados, não temos culpa e não temos para onde ir. Perdi dois 'freezers' de salgados, porque ficamos cinco dias sem energia e eu não tinha como entrar em casa para pegar meus salgados. Então meu trabalho foi em vão, cadê o dinheiro para eu repor minhas mercadorias? Minha casa está cheia de fumaça, não dá para ficar dentro de casa. A gente passa o dia inteiro na rua", lamentou.
Ivan de Souza, de 63 anos, mora há quatro décadas na vila e passou a manhã acompanhando o trabalho dos Bombeiros. Ele reforçou que não consegue ficar dentro de casa por causa da fumaça que invade o imóvel, além do forte cheiro de alimentos estragados. Hipertenso e diabético, ele teve problemas de pressão alta durante a semana e perdeu a insulina que tomava.
"Assim que os Bombeiros partiram, a fumaça subiu de novo. Não conseguimos ficar em casa, tive que ir para a casa do meu irmão de novo. Minha insulina estragou, a comida que estava na casa também. Sou diabético e hipertenso, tive que largar tudo outra vez e sair de casa. Minha pressão subiu muito, pensei que eu fosse infartar. A gente não consegue dormir em casa porque a fumaça entra. A casa está toda fedendo, um monte de coisa estragada. Queremos dormir, pelo menos sem o cheiro da fumaça", destacou.
Após as críticas pela falta de apoio aos moradores, o DIA entrou em contato com a Secretaria Municipal de Assistência Social (SMAS). Em nota, a pasta comunicou que as famílias recusaram acolhimento institucional, informando que se hospedariam na casa de parentes.
"Como apoio emergencial, as famílias receberam o Cartão Protege SUAS, no valor de R$ 250, destinado à alimentação. O acompanhamento seguirá sendo realizado pelo CRAS Nelson Mandela, em Bonsucesso, responsável pelo atendimento", pontuou a secretaria.
Incêndio
A loja de autopeças Motocriss pegou fogo no início da manhã da segunda-feira passada, dia 9, e os Bombeiros foram acionados por volta de 6h50. Rapidamente, as chamas destruíram toda a estrutura do estabelecimento, que havia recebido recentemente uma carga de pneus e óleo. Funcionários acreditam que o incêndio tenha começado no último andar, onde estava armazenado o material recém-chegado.
O enorme volume de fumaça escura assustou moradores e a pista lateral da Avenida Brasil, no sentido Centro, precisou ficar mais de 24 horas interditada na altura de Ramos. Ao todo, mais de 100 militares de 15 diferentes unidades foram mobilizados para a ocorrência, que não deixou mortos ou feridos.
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