Parte do material apreendido por agentes do Gaeco e da CSI nesta quinta (19)Divulgação/MPRJ
Publicado 19/03/2026 13:33
Rio – O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) realizou uma operação, nesta quinta-feira (19), contra integrantes de uma organização criminosa que, de liderada, passou a sucessora do miliciano e contraventor Adriano da Nóbrega, morto em março de 2021. Durante as ações, agentes do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco/MPRJ) cumpriram mandados de prisão contra Ronaldo Cesar da Silva Corrêa, conhecido como Grande, e Cristiano Santos Garcia, o Pai Bara, que atuavam em conjunto com a viúva de Nóbrega, Júlia Lotuffo. As prisões ocorreram, respectivamente, no Recreio dos Bandeirantes, na Zona Sudoeste, e em Magalhães Bastos, na Zona Oeste.
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Julia Lotufo e Adriano Nóbrega, em foto de 2019 - Reprodução
Julia Lotufo e Adriano Nóbrega, em foto de 2019Reprodução
 
Alvo de um mandado de busca e apreensão, Luiz Claudio Targino de Oliveira, o Targino, também acabou detido, mas em flagrante. Já os policiais militares Marcos Moraes Magalhães e Natan dos Santos Gouvea, denunciados por comércio ilegal de armas de fogo, foram afastados das funções a pedido do Gaeco.
Além dos dois mandados de prisão, os agentes cumpriram outros de busca e apreensão, o que resultou no recolhimento de um celular e uma pistola calibre 40, registrada em nome de terceiros, em posse de Grande; munições de diversos calibres e um celular, que estavam com Targino; além de uma pistola Glock, uma arma de airsoft e mais munições. A Justiça também determinou o sequestro de imóveis rurais - avaliados em R$ 3,5 milhões e registrados em nome de terceiros - e de outros bens vinculados aos investigados.
Deputado federal citado

Ao todo, 19 pessoas foram denunciadas por ligação com o grupo. Dentre elas, está o deputado federal Rogério Teixeira Júnior, o Juninho do Pneu, do União Brasil. Não havia, porém, mandados expedidos contra o parlamentar.

De acordo com a apuração do Gaeco, dedicada a rastrear e recuperar o espólio oculto de Nóbrega, a viúva Júlia Lotufo, após a morte do miliciano e ciente da existência de investigações sobre o patrimônio, vendeu os bens a Juninho do Pneu. Também denunciada pelo MPRJ, Júlia é procurada atualmente. A reportagem tenta contato com a defesa de ambos.
Por meio de nota postada nas redes sociais, Juninho do Pneu se defendeu das acusações, que não conhece e que jamais teve contato com os citados no caso. Ele ainda prometeu tomar medidas legais para "responsabilizar quem está divulgando fatos inverídicos que buscam atingi-lo politicamente".
As investigações
O Gaeco, com apoio da Coordenadoria de Segurança e Inteligência (CSI), dividiu as denúncias em três ações penais, que tratam da lavagem de dinheiro do jogo do bicho, da estrutura da organização criminosa e da lavagem de patrimônios grupo.
A quadrilha, ainda segundo as investigações, atuava na ocultação de valores provenientes do jogo do bicho, especialmente na Zona Sul do Rio, com concentração em Copacabana. Nóbrega atuava no controle de pontos da contravenção em parceria com o bicheiro Bernardo Bello, atualmente foragido.
Após a morte do miliciano, o grupo manteve e ampliou suas operações, com atuação em atividades como agiotagem, contravenção e mercado imobiliário irregular. A gestão dos negócios teria ficado sob responsabilidade de Julia Lotufo.

Ainda como parte do esquema, empresas de fachada eram utilizadas para movimentar os recursos ilícitos. Apenas quatro delas somaram mais de R$ 8,5 milhões em transações em pouco mais de um ano. Entre os estabelecimentos identificados estão um depósito de bebidas, um bar, um restaurante e até um quiosque de serviços de sobrancelha em um shopping na Zona Norte, que registrou cerca de R$ 2 milhões em créditos em seis meses.
Quem foi Adriano da Nóbrega

Adriano Magalhães da Nóbrega foi um ex-capitão do Bope apontado como um dos principais líderes de milícia no Rio de Janeiro. Ele é apontado como chefe do 'Escritório do Crime', responsável por uma série de execuções, e de comandar grupos paramilitares com atuação na Zona Oeste com envolvimento em esquemas de contravenção, como o jogo do bicho, além de lavagem de dinheiro.

O ex-policial também foi citado em investigações que apuravam a atuação de milícias e suas conexões políticas no estado.

Adriano morreu em fevereiro de 2020, durante uma operação policial no interior da Bahia. Segundo a versão oficial, ele entrou em confronto com policiais e foi baleado. 
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