Equipe do DIA encontrou caramujos africanos próximo ao muro das casasReginaldo Pimenta/Agência O DIA
Publicado 31/03/2026 12:47 | Atualizado 31/03/2026 13:47
Rio - Moradores denunciam uma infestação de caramujos africanos em uma vila na Rua Sargento Antônio Ernesto, na Pavuna, Zona Norte. Os animais estariam invadindo casas, se espalhando por quintais e áreas comuns da região. Na tarde de segunda-feira (30), uma equipe do DIA esteve no local e constatou a presença dos moluscos próximos aos muros das residências.
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Em uma casa de umbanda do local, participantes chegaram a retirar mais de 100 deles do quintal em um único dia.

Ao DIA, a matriarca Regiane Sobral, 49 anos, conta que os próprios vizinhos estão fazendo a retirada, mas que temem a proliferação de doenças. Segundo ela, a aparição começou há cerca de 1 ano e meio e aumentou significativamente nos últimos meses.

"Eram pouquíssimos, um aqui, outro ali. A gente retirava com luva e jogava fora. Mas, de uns três meses pra cá, começou a aumentar muito. A gente se reúne no terreiro de 15 em 15 dias e, nesse intervalo, encontrava de 10 a 15, o que já era muito. Fazíamos toda a higiene e, apesar do susto, conseguíamos lidar. Só que, da última vez, já encontramos caramujos na rua e na calçada, muitos subindo para a vila. Quando entramos no terreiro, havia mais de 100 espalhados: na área externa, no quintal e nos fundos. Eram muitos. A gente entrou em desespero", relata.

Regiane explica que lidera uma comunidade diaspórica com cerca de 32 pessoas, incluindo 9 crianças, que convivem com descalço.

"O que me preocupa é a gosma, porque como a casa fica muito tempo fechada, a gente não entende se esse caramujo andando, ele solta a gosma. Como esse material a gente ainda não sabe, não conhece, então eu não sei se é contagiosa. A minha preocupação é a criança andando de pé no chão, ela não vai tocar no caramujo, mas vai andar onde essa gosma passou. Na última vez que estivemos na casa, a gente entrou em desespero e propôs a todos da casa, a grande maioria, abrirem um protocolo lá no 1746. Nós abrimos 18 protocolos no mesmo dia, mas no outro dias, todos foram efetivamente fechados", acrescenta.

A matriarca narra que um carro da Comlurb chegou a comparecer na entrada da vila, mas que nada resolveu. Por conta disso, ela decidiu contratar por conta própria uma empresa de dedetização.
"Eu, enquanto matriarca de uma casa de umbanda, junto com o dono da fábrica de gelo vizinha, vamos fazer uma vaquinha para dedetizar o local, principalmente aquela área ali embaixo do terreno baldio e ali em cima, na vila, na área do terreiro. A gente se assustou muito, na verdade, eu estou muito preocupada. Eu não sei se essa dedetização é efetiva, mas vamos contratar uma empresa, porque a gente vai limpar e vai voltar, o problema não é só limpar. Essas gosmas fazem mal? Eu tenho crianças de meses até 12, 13 anos, todas as faixas etárias da infância. Então, para a gente, é muito preocupante, até para nós enquanto adultos", frisa.
Marido de Regiane, Daniel Sobral, ressalta que o "foco" dos caramujos teve início em um terreno baldio ao lado da vila. Ele critica o fechamento dos protocolos por parte da Comlurb e a orientação sobre a manipulação dos animais.

"Eles fecharam os pedidos e falaram que a gente tinha que catar os caramujos, só que eu acho que isso é uma contaminação e a gente não pode ficar manipulando os caramujos, por causa dos riscos de doenças. Temos um canteiro da frente, então eles invadem esse canteiro", diz.

Também participante da casa de Umbanda, Janaína Santos, 40 anos, frisa que os caramujos estão invadindo as casas da vizinhança.

"Já tem relatos deles nas cozinhas das pessoas. No último sábado que fui à casa, vimos um no vaso de uma planta e comecei a retirar sem muita informação, só usando sal, que ajuda a queimar. Coloquei um saco plástico na mão e fui tirando, mas não acabava. No domingo de manhã, fizemos uma limpa no quintal e foram mais de 120 — teve uma hora que perdi as contas. Também encontramos ovinhos. A gente ficou com muito medo pelas crianças e manteve elas lá em cima", afirma.

Janaína relata que pelo menos duas crianças apresentaram problemas de saúde após visitar o terreiro e que teme ter relação com a infestação.

"Nessa semana tivemos duas crianças do centro que tiveram convulsões pela primeira vez, nunca tinha tido antes, e todas são moradoras da Pavuna. Estamos muito preocupados! Fizemos um movimento em massa para ligar para o 1746, eles foram lá, disseram que não tem muito o que fazer e que iriam retirar, mas vão fazer o que? Vão incinerar? Como vão matar sem prejudicar as outras pessoas? Lá na vila tem muitas casas, pessoas, crianças e estão colocando a vida de todo mundo em risco", reforça.

Vizinha e moradora da vila, Elenice Vitor de Santana, 61 anos, explica que mora no segundo andar e que já chegou a encontrar um dos caramujos na escada de casa.
"Está terrível! São muitos, é nojento demais. Meu quintal tem muita planta, tem barro, e tem uma parte onde eles se alojam. Meu Deus do céu… o quintal é meio escuro e, às vezes, à noite, quando desço, acabo pisando neles. Fico com a sensação de que estou toda contaminada, dá um nervoso. Eu moro no segundo andar, e já apareceu um na escada de ferro da minha casa. Aí você entra, pisa dentro de casa e fica achando que pode ter um deles", conta.
Elenice revelou que ela mesmo fez a retirada dos animais do local. “Eu mesmo retiro, uso um saco com plástico, mas tem uma menina aqui, que é amiga do Daniel, que falou que não pode ser com saco plástico, mas eu vou fazer o que?”, questiona.

O que diz a Comlurb?

Em nota, a Comlurb informa que uma equipe de Controle de Vetores do Centro de Pesquisas da Comlurb recebeu apenas duas solicitações pela Central de Atendimento 1746 da Prefeitura, para a Rua Sargento Antônio Ernesto, na Pavuna, e fez um atendimento no dia 24 de março.
"Na casa 14, onde fica o Centro Espírita, a equipe não conseguiu entrar porque só abre aos sábados. A equipe fez o atendimento nas casas 13 e 15. A moradora da casa 15 disse que aparecem caramujos de vez em quando e recebeu orientações sobre a forma correta e segura de remover os animais. Foi feito também tratamento preventivo contra roedores no local", explica.
Após questionamento da reportagem, a pasta esclarece que a equipe voltou ao local nesta segunda-feira (30) e inspecionou as casas 13, 15 e 16, além do terreno com muro branco. Durante toda a operação, nos dois dias de vistoria, informaram que a equipe não encontrou nenhum exemplar de caramujo africano.
No entanto, no mesmo dia, o DIA esteve no local e encontrou alguns animais na calçada, em um dos muros da vila.
A companhia frisa que a população carioca pode solicitar a presença da equipe de controle de vetores para combate a ratos e remoção de caramujos africanos pela central de atendimento 1746 da prefeitura.
O que são caramujos africanos e quais os riscos?

O Achatina fulica é muito conhecido em todo o país como caramujo gigante africano. Ele é uma espécie pertencente ao grupo dos moluscos pulmonados terrestres.
Com alta capacidade de reprodução, ele é uma espécie de origem africana, introduzida no Brasil por meio de uma feira agropecuária que aconteceu na década de 1980, no estado do Paraná.
Ao DIA, o professor do departamento de Saúde Coletiva, Veterinária e Pública da Universidade Federal Fluminense (UFF), Flávio Moutinho, explica que em relação às doenças, os caramujos podem causar angiostrongilíase abdominal e meningite eosinofílica.
"O grande risco é a secreção (gosmas) que eles deixam ao se deslocar pois pode conter os parasitas causadores das doenças. Eles são vorazes na alimentação, adoram plantas e jardins e cavam profundamente no solo", relata.
Ou seja, a infecção ocorre quando há a ingestão acidental de larvas do verme presentes nas frutas e hortaliças contaminadas com o muco que o caramujo libera quando se locomove. 
Ainda segundo o professor, não há recomendação de uso de venenos preventivos. Por isso, a melhor solução é catar os caracóis:
• Coletar manualmente o maior número possível de caracóis.
• Pode usar pás para jardinagem;
• Sempre usar luvas descartáveis ou sacos plásticos íntegros (sem furos) para proteger as mãos;
• Colocá-los num recipiente. Deixá-los submersos por 24 horas em solução contendo uma parte de água sanitária e três de água;
• Após esse tempo, com a ajuda de um martelo ou outro instrumento, quebrar as conchas;
• Colocar as conchas quebradas dentro de dois sacos juntos. A quantidade de conchas deve ir até a metade do saco. Depois, fechar o saco, preferencialmente dando alguns nós;
• Depositar os sacos numa lixeira
Moutinho acrescenta ainda que não se deve esmagar os caramujos no ambiente, pois isso espalha os ovos.

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