Clube da Light foi demolido no início de 2026Érica Martin / Agência O Dia
Publicado 05/04/2026 06:00
Rio - A Associação Atlética Light, um dos clubes mais tradicionais da Zona Norte, foi demolida no início deste ano para a construção de um condomínio, no Grajaú. Ao DIA, moradores do bairro relembraram a ligação afetiva com o local e lamentaram uma opção de lazer a menos na região.
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Além das memórias, Rafael Costa, de 43 anos, carrega as amizades que fez durante a juventude no antigo clube. O desenvolvedor de sistemas ressaltou que, em outubro de 2025, a Prefeitura do Rio revogou o tombamento provisório do espaço, com a alegação de impacto no desenvolvimento econômico e social do município.
"Antigamente, não havia condomínios com grande infraestrutura por aqui. Então, o pessoal morava em casas e todos eram sócios do clube para aproveitar um momento de lazer. Minhas amizades de mais de 30 anos foram construídas no clube. Até pouco tempo atrás, jogávamos bola nesse mesmo campo e tivemos que migrar para outro. É uma perda enorme. O clube era tombado e eles deram um jeito de destombar para conseguir vender. Foi ficando abandonado até chegar onde chegou", lamentou.
A autônoma Brenda de Jesus, de 23 anos, destacou que a perda da opção de lazer afeta principalmente as crianças. Além disso, criticou a derrubada de mais de 50 árvores que ficavam no terreno. Em compensação, a construtora se comprometeu a plantar cerca de duas mil mudas.
"Está fazendo falta, principalmente para as crianças. Havia muitas crianças que frequentavam o clube, era uma opção de lazer. Além disso, também estamos sentindo falta das árvores, por causa das sombras, que deixavam a rua mais fresca. Acredito que tenham errado ao tirar essas árvores", pontuou.
Os filhos da aposentada Maria de Fátima, de 72 anos, frequentavam o clube desde crianças. "Quando cheguei ao Grajaú, meus filhos tinham 3 anos e já começaram a frequentar o clube. Era um espaço de lazer e, agora, não temos mais, está fazendo falta. Meus filhos cresceram ali, jogando bola, fazendo natação. A retirada da vegetação foi incabível, tiraram muitas árvores. Eu moro em um apartamento de frente, bate sol o dia inteiro, então as árvores eram um refresco", reforçou.
O terreno pertencia à antiga empresa Ferro Carril, que construiu o clube no ano de 1905. Posteriormente, a Light comprou a companhia, e a área de lazer foi dividida entre o Independência, administrado pelos diretores, e o Força e Luz, comandado pelos funcionários de menor escalão. Em 1964, os dois espaços se uniram, fundando a Associação Atlética Light, que ficou popularmente conhecida como Clube da Light.
O advogado Wagner Coe, filho e neto de funcionários da empresa de energia, atuou como advogado do clube na década de 90, assumiu a vice-presidência de 2010 a 2013, ocupou a presidência de 2013 a 2019 e, após a pandemia, passou a integrar o conselho deliberativo até o fechamento. Ele explicou ao DIA que a Light sempre foi dona do terreno e, com a privatização, passou a procurar compradores para o espaço.
"Em 2009, a Light fez uma notificação judicial pedindo a devolução do clube. Ela sempre foi dona do terreno, mas o clube era administrado por uma associação de funcionários. Depois de ser privatizada, a empresa começou um processo de se desfazer de todos os imóveis. Em 2010, eu fui a uma reunião com a Light e ajustamos um novo contrato de comodato, mas era anual — acabava todo ano. Isso porque a intenção deles era vender o terreno assim que arranjassem alguém interessado", disse Wagner.
O advogado, que também atuou como subsecretário municipal de Esportes, pleiteou o tombamento do Clube da Light, assinado pelo prefeito Eduardo Paes em 2016, com o objetivo de afastar compradores interessados. No entanto, a vida social do clube perdeu ainda mais força após a pandemia, chegando a menos de 200 pagantes.
"Até 2017, o clube tinha diversas atividades: a escolinha de natação era grande, assim como as de futebol e de voleibol… Em determinado ponto, isso também caiu. Na reta final, nós só tínhamos uma escolinha de futsal, que já dividíamos com o Grajaú Country, eram poucos alunos. O voleibol acabou em 2022 e o futebol de campo era uma escolinha terceirizada. A vida social do clube caiu muito depois da pandemia, mas tínhamos um histórico grande. Nossas escolinhas chegaram a ter de 250 a 300 alunos. O Clube da Light chegou a ter 15 mil sócios e, agora, no final, tinha 184 sócios pagantes", lamentou.
Wagner ainda comentou que os outros dois clubes do bairro também passam por dificuldades financeiras, assim como outras associações da cidade. O Grajaú Country Clube está em processo de leilão, enquanto o Grajaú Tênis Clube teve o terreno desapropriado pela Prefeitura do Rio.
"Basicamente, todos os clubes sociais do Rio de Janeiro estão com o pires na mão, a maioria dos casos é de dívida trabalhista. Os clubes têm uma dificuldade semelhante: o número de sócios não é suficiente para a demanda. A manutenção dos clubes é muito cara e não há sócios suficientes. Pavunense acabou, Everest acabou... Na região do Grajaú, os prédios estão subindo com piscina e quadra, então os moradores já não têm essa dependência", detalhou o advogado.
"A Light, até certo ponto, dava uma subvenção, uma ajuda de aproximadamente R$ 15 mil por mês e ainda fazia um desconto em folha, mas isso acabou a partir do processo judicial. Como presidente, fiz show do Raça Negra, Grupo Bom Gosto, Belo, Pique Novo, MC Marcinho… Os bailes arrecadavam um dinheiro bom para os clubes, mas não conseguimos fazer mais por causa da lei do silêncio", acrescentou.
Por fim, o ex-presidente relembrou os momentos que passou no Clube da Light. "Tenho amigos com quem jogamos futebol juntos há 40 anos, nossos filhos nasceram e frequentaram o clube. Eu pulava Carnaval lá, tinha vários 'bailinhos'. Comecei a namorar minha mulher na colônia de férias da Light, em 1984. Nos conhecemos no clube, jogávamos vôlei juntos, fomos criados juntos. Tem muita gente que se manifesta agora, mas não contribuía quando a gente chamava para participar das festas, dos eventos. O morador só reclama quando vão subir um prédio na frente do prédio dele. Mas, no dia a dia, não havia essa preocupação", lamentou.
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