Publicado 12/04/2026 00:00
Qual criança nunca quis completar seu álbum de figurinhas? Se para as meninas, o melhor eram os mais românticos, para a maioria dos meninos eram os ligados ao mundo dos esportes, principalmente ao futebol. Às vésperas da Copa do Mundo, muito adulto também já está por aí na busca de seus cromos cada vez mais modernos. Mas colecionar figurinhas, seja na infância ou na vida adulta, não é barato. Está cada vez mais oneroso. E pensa que quem gosta para? Qual nada. O assistente de comunicação Wellington Melo, de 30 anos, morador de Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio, é desses que desde criança coleciona, não perdeu o hábito e, mesmo com ou aumento do preço, continuará com o seu hobby. fotogaleria
"Sempre tive paixão por colecionar álbuns de figurinhas. Lembro que meu primeiro álbum da Copa foi em 2006, que era o da Copa da Alemanha. Não cheguei a completá-lo porque, como era criança, dependia dos meus pais para comprar as figurinhas para mim'', diz ele, que ainda assim não desistiu do objetivo. "Só consegui completar o álbum de 2006 e 2010 depois de adulto. Com auxílio dos grupos de Facebook e tudo mais, a gente acaba pegando contatos de pessoas que têm as figurinhas e vendem avulsas, e a gente acaba comprando para completar".
PublicidadeO colecionador conta que na Copa de 2014 conseguiu completar realizando as trocas indo em vários lugares no Rio. " Até dentro do metrô eu troquei! Depois disso, todas as copas eu vou para lugares específicos onde tem grupos de trocas, como na Uruguaiana ou no Shopping Nova América. Hoje na minha coleção, tenho um total de seis álbuns da copa masculina (2002 - este comprei de um colecionador e paguei a bagatela de R$ 800 para adicionar a coleção - ,2006, 2010, 2014, 2018 e 2022) e quatro da Copa feminina (2011, 2015, 2019 e 2023)", orgulha-se.
Wellington afirma que a expectativa para o álbum da Copa do Mundo 2026 está enorme, pois se trata da primeira edição com 48 seleções. "Como só ocorre de 4 em 4 anos, acaba que eu e muitos colecionadores esperam ansiosamente para trocar. Acho muito maneiro ver pessoas de todas as idades trocando, desde crianças com os pais, até senhores de 50, 60 anos. E isso mostra que o colecionismo, mesmo com os valores altos para o álbum deste ano, ainda está vivo e forte". conta ele que também tem uma coleção pequena de camisa de times e uma coleção de chaveiros, em grande parte de lugares que visitei, seja em viagens ou eventos. "Adoro colecionar, pois me remetem a lembranças de momentos que vivi, e de coisas que fiz", afirma.
Morador da Praça da Bandeira, Zona Norte do Rio, João Marcelo Calil, de 37 anos, também cultiva até hoje o hábito que começou na Copa de 1994, "Meu primeiro álbum de Copa foi o de 1994, quando tinha 5 anos. O costume foi se mantendo e perdura até hoje'', diz ele que acha de suma importância esses álbus para quem é aficcionado por futebol. "Todo álbum de Copa é um documento histórico do futebol daquele ano em questão. E no caso da seleção da Suíça, por exemplo, é possível até mesmo notar o aumento de filhos de imigrantes ao longo do tempo; entre 94 e 2006, quando o país voltou à Copa após 12 anos, já é possível notar uma certa diferença", diz ele que vê colecionar figurinhas como mais do que um hobby. "É uma boa forma de preservação para ajudar a manter os itens colecionados para gerações futuras''.
Além dos álbuns, João Marcelo tem alguns itens raros. "São relativos a videogames; mais especificamente, ao Super Nintendo. Uma pistola não-oficial que permite jogar jogos das duas pistolas oficialmente lançadas para o console (Super Scope e Justifier) e a segunda versão do Super Game Boy (que, além de permitir jogar jogos de Game Boy no console como a primeira versão, tem a entrada do cabo de link que permite jogar jogos multiplayer com um Game Boy em separado)", finaliza o colecionador.
Organizador interno
Organizador interno
Especialistas falam sobre este 'hobby'; Psicóloga do esporte intercultural, Andréia Batista, Andréia Batista afirma que quando alguém abre um álbum da Copa, não está só colecionando, está voltando para si. "O álbum acessa uma camada emocional profunda, muitas vezes construída ainda na infância. Para muitos, ele resgata experiências do recreio, as trocas, a expectativa por um pacote novo, o vínculo com amigos, irmãos ou pais. Não se trata apenas de lembrança, é uma emoção que se atualiza no presente", pontua a profissional.
Ela acrescenta que do ponto de vista psicológico, o colecionismo funciona como um organizador interno. "A cada figurinha colada, há sensação de avanço, previsibilidade e uma espécie de ordem diante de um mundo que, muitas vezes, parece caótico. Existe também a ativação do circuito de recompensa, que reforça esse comportamento, mas reduzir isso à química é superficial. O que está em jogo é algo mais simbólico: a busca por continuidade, conexão e sentido", destaca.
Para a especialista, no contexto esportivo, isso ganha ainda mais potência. "O álbum deixa de ser um objeto e se transforma em um espaço emocional onde identidade, memória e história pessoal se encontram", finaliza.
Para a especialista, no contexto esportivo, isso ganha ainda mais potência. "O álbum deixa de ser um objeto e se transforma em um espaço emocional onde identidade, memória e história pessoal se encontram", finaliza.
Para a psicóloga Valéria Araujo, o hábito de colecionar objetos envolve aspectos emocionais, cognitivos e comportamentais e pode representar uma estratégia de organização interna. "Podemos pensar na coleção como um mecanismo afetivo que remete a memórias da infância, ou de conquistas, por exemplo; servindo como uma conexão para a história pessoal, identidade e pertencimento. O ato de organizar e cuidar da coleção pode ser terapêutico, funcionando como uma válvula de escape para o estresse do dia a dia", salienta.
A profissional explica que a sensação da conquista e o prazer de pesquisar, encontrar e adquirir um item especial gera satisfação e a percepção de realização e sucesso. "Esse hábito se torna preocupante quando de algum modo interfere na rotina e relações pessoais. A diferença fundamental entre um colecionador saudável e transtorno de acumulação compulsiva é a desorganização e o prejuízo funcional. O colecionador organiza, limpa e exibe suas peças (com prazer), o acumulador retém objetos aleatórios e desorganizados o que gera sofrimento ou isolamento social", pontua.
'Consumo não é racional'
Economista formado pelo Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec), Tiago Velloso fala que mesmo com a alta dos preços nos álbuns, o colecionador não deixa o hábito de lado. "Primeiramente, o consumo não é só racional, mas sim emocional e social. Mesmo com o preço mais alto a cada Copa do Mundo, as pessoas continuam comprando porque ali não está só o produto, está a experiência, existe um componente muito forte de pertencimento, você quer trocar figurinha e falar com seu ciclo de amigos sobre, é um momento coletivo", explica Tiago.
Para o especialista, entra um ponto muito importante. "É o medo de ficar de fora, quando todo mundo está falando, trocando figurinha, participando, quem não está sente que está perdendo algo é de fato está. Isso gera um comportamento conhecido na economia comportamental como FOMO (fear of missing out), que faz com que a decisão deixe de ser puramente financeira e vira psicológica", diz Tiago.
Segundo o profissional, o modelo de marketing e distribuição é muito inteligente. "As figurinhas vêm de forma aleatória, o que cria um efeito parecido com jogos de azar, em que a sorte ela irá te recompensar, como você nunca sabe o que vai vir isso gera repetição de compra. Mas no final, o álbum vira uma combinação de nostalgia, hábito e interação social que se torna saudável quando não prejudica sua vida financeira".
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