Rede municipal de Saúde passa a ofertar transplante de córneaEdu Kapps/SMS
Publicado 14/04/2026 16:35
Rio - O Centro Carioca do Olho (CCO) realizou o primeiro transplante de córnea, um procedimento de alta complexidade capaz de devolver a visão plena do paciente, em março. Localizado no Super Centro Carioca de Saúde, em Benfica, na Zona Norte, o CCO, maior centro oftalmológico da América Latina, é a primeira unidade a ofertar a cirurgia na rede municipal de Saúde.
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Com a integração, a quantidade de vagas disponíveis para o procedimento foi ampliada aos casos indicados, que são regulados pelo Programa Estadual de Transplantes (PET), da Secretaria de Estado de Saúde (SES), que também é responsável pela distribuição dos tecidos às unidades credenciadas.
O procedimento é uma cirurgia que substitui parcial ou totalmente a córnea, película transparente que fica na frente do olho e funciona como uma “lente natural”, do paciente por um tecido saudável de um doador. O transplante é indicado quando a córnea perde transparência ou regularidade, comprometendo a visão, cicatrizes, infecções ou falência de transplantes prévios.
“Estamos falando de um dos procedimentos com maior taxa de êxito no pós-cirúrgico do paciente, capaz de transformar vidas, e que agora é oferecido na rede municipal. Trata-se de um avanço fundamental para o Sistema Único de Saúde da cidade”, afirmou Rodrigo Prado, secretário municipal de Saúde.
Aline Domingues, de 45 anos, foi a primeira paciente a receber o transplante de córnea no CCO. Ela, que fez o procedimento no dia 10 de março, já tinha passado por dois hospitais especializados nos últimos 10 anos, mas nunca foi chamada na fila para a cirurgia.
Com ceratocone grave, uma doença degenerativa genética rara que afeta a estrutura da córnea – deixando ela com uma estrutura de cone, e não esférica, causando astigmatismo e miopia altos, deixando a visão embaçada, dupla e com fotofobia –, Aline passou por consultas e exames ao longo do mês de fevereiro que confirmaram o diagnóstico nos dois olhos.
Embora precise fazer o transplante nos dois olhos, Aline apenas realizou o procedimento na córnea esquerda, já que, para a segurança do paciente, a cirurgia só pode ser feita em um olho de cada vez. A operação durou cerca de 1h30 e foi um sucesso.
“Meu problema de visão trouxe outras doenças, tive que parar de trabalhar e ser dependente das pessoas ao meu redor. Agora, tenho tratamento de excelência. Eu vou ter a chance de voltar a viver, sair sozinha, não pegar ônibus errado por não conseguir enxergar, poder retomar aos poucos a normalidade da minha vida”, celebrou Aline.
Para corrigir o problema da outra córnea, Aline entrará novamente na fila do PET. Enquanto aguarda o prazo de recuperação do procedimento recente, ela usará uma lente especial no olho direito.
“Infelizmente, o Estado do Rio tem um dos piores desempenhos nas estatísticas de transplante de córnea do país. O grande desafio do estado é a captação do tecido, mas, sem dúvida, a disponibilidade das dez salas cirúrgicas do Centro Carioca do Olho para a realização desta cirurgia amplia a agilidade, a qualidade e a segurança dos transplantes. A expectativa é de apresentarmos crescimento progressivo, conforme regulação e disponibilidade do tecido pela regulação estadual”, disse Alexandre Modesto, coordenador geral do Super Centro Carioca de Saúde.
A operação envolveu cirurgião oftalmologista especialista em córnea, médico auxiliar, anestesiologista, enfermeiro de centro cirúrgico, técnico de enfermagem e equipe de processamento e logística do tecido. Aline teve alta cerca de meia hora após o procedimento, depois de receber todas as orientações para o pós-operatório. Ela seguirá sendo acompanhada pelo CCO pelos próximos meses.
Para realizar o transplante de córnea, o paciente deve ser inserido no Sistema Nacional de Transplantes, órgão vinculado ao Ministério da Saúde, por indicação médica, após avaliação clínica especializada. A porta de entrada é a rede de Atenção Primária (centros municipais de saúde e clínicas da família), onde o paciente receberá o direcionamento para os exames e consultas necessários.
O CCO recebeu a habilitação do Sistema Nacional de Transplantes, após cumprir uma série de critérios estruturais e assistenciais, o que inclui equipe habilitada e certificada, centro cirúrgico adequado, rastreabilidade do tecido, integração com banco de olhos e capacidade de acompanhamento pós-operatório, entre outros.
Quem pode doar
A doação de córnea é feita após a morte. No Brasil, não há limite rígido de idade do doador. Pessoas que já usam óculos ou lentes de contato ou passaram por cirurgias oculares também podem fazer a doação.
Algumas condições impedem a doação, principalmente por risco de transmissão de doenças, como infecções graves no momento da morte, doenças transmissíveis como HIV não controlado ou hepatites ativas, alguns tipos de câncer (especialmente os que afetam o sangue, como leucemia) ou infecções oculares graves.
A família deve autorizar a doação após o falecimento. A retirada da córnea é feita, em média, seis horas depois da morte. Vale lembrar que a doação não causa deformação no rosto, não impede velório com caixão aberto e pode beneficiar até duas pessoas (uma córnea para cada olho).
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