Publicado 03/05/2026 00:00
No Rio de Janeiro, o barulho não faz apenas parte da paisagem, ele estrutura a rotina. Buzinas, obras, música muito alta, notificações e conversas se sobrepõem em um fluxo contínuo que raramente se interrompe. Até nos restaurantes fica impraticável conversar muitas vezes. Em uma cidade onde tudo acontece ao mesmo tempo, o silêncio passou a ser exceção. Celebrado em 7 de maio, o Dia Mundial do Silêncio, instituído pela Organização Mundial da Saúde, propõe justamente o oposto do que se vive no cotidiano: uma pausa consciente diante do excesso. fotogaleria
A questão, no entanto, vai além do incômodo. O silêncio, segundo especialistas, é uma necessidade biológica e psíquica que tem sido negligenciada em uma cultura marcada pela hiperestimulação. Para a psicóloga Anastacia Barbosa, o impacto dessa ausência é profundo e, muitas vezes, invisível no dia a dia.
"Vivemos em uma cultura que tem medo do silêncio. A cidade grande é barulho o tempo inteiro, externo e interno. Só que, quando não há silêncio, não há espaço para elaboração psíquica. O silêncio não é ausência de som, é presença de si. Sem esse espaço, a pessoa não consegue processar o que sente, o que vive, o que pensa. Vai acumulando estímulos, demandas, emoções até que o psiquismo entra em sobrecarga. O silêncio funciona como um intervalo necessário para que a mente organize a experiência. Sem ele, a gente reage. Com ele, a gente elabora", explica a especialista.
Esse acúmulo de estímulos se traduz em sintomas que já fazem parte da rotina de muitos brasileiros: cansaço constante, dificuldade de concentração, irritabilidade e uma sensação permanente de estar atrasado em relação à própria vida. A dificuldade de sustentar o silêncio, inclusive, é um dos sinais mais claros dessa sobrecarga.
O criador de conteúdo Luís Augusto Brito reconhece esse padrão em si mesmo e descreve uma rotina em que o silêncio é evitado. "Eu não gosto de silêncio. Minha mente funciona 24 horas do dia. Quando eu paro, sinto como se estivesse procrastinando. Então eu preencho tudo, deixo televisão ligada, mexo no celular, procuro estar falando com alguém. Eu não consigo ficar em silêncio, é algo que ainda estou tentando entender na terapia, porque eu sei que isso me afeta, mas é muito difícil se permitir parar", admite ele.
Publicidade"Vivemos em uma cultura que tem medo do silêncio. A cidade grande é barulho o tempo inteiro, externo e interno. Só que, quando não há silêncio, não há espaço para elaboração psíquica. O silêncio não é ausência de som, é presença de si. Sem esse espaço, a pessoa não consegue processar o que sente, o que vive, o que pensa. Vai acumulando estímulos, demandas, emoções até que o psiquismo entra em sobrecarga. O silêncio funciona como um intervalo necessário para que a mente organize a experiência. Sem ele, a gente reage. Com ele, a gente elabora", explica a especialista.
Esse acúmulo de estímulos se traduz em sintomas que já fazem parte da rotina de muitos brasileiros: cansaço constante, dificuldade de concentração, irritabilidade e uma sensação permanente de estar atrasado em relação à própria vida. A dificuldade de sustentar o silêncio, inclusive, é um dos sinais mais claros dessa sobrecarga.
O criador de conteúdo Luís Augusto Brito reconhece esse padrão em si mesmo e descreve uma rotina em que o silêncio é evitado. "Eu não gosto de silêncio. Minha mente funciona 24 horas do dia. Quando eu paro, sinto como se estivesse procrastinando. Então eu preencho tudo, deixo televisão ligada, mexo no celular, procuro estar falando com alguém. Eu não consigo ficar em silêncio, é algo que ainda estou tentando entender na terapia, porque eu sei que isso me afeta, mas é muito difícil se permitir parar", admite ele.
Danos para a audição
Se do ponto de vista emocional o silêncio é essencial para organizar a experiência, no corpo ele também exerce uma função de recuperação. O otorrinolaringologista Thiago Zago alerta que o excesso de ruído, comum em centros urbanos, pode causar danos progressivos à saúde auditiva.
"Hoje vemos cada vez mais pacientes expostos a níveis elevados de ruído no dia a dia, especialmente em ambientes urbanos. O excesso de som sobrecarrega o sistema auditivo e, a longo prazo, pode afetar estruturas delicadas da cóclea, responsáveis pela captação dos sons. Sons acima de 85 decibéis, quando frequentes ou prolongados, podem lesar as células do ouvido interno. Essas células não se regeneram, o que significa que a perda auditiva pode ser permanente. Além disso, muitos pacientes relatam zumbido e fadiga auditiva, que é uma sensação de audição abafada, dificuldade para compreender a fala e cansaço após exposição prolongada ao barulho.".
Assim, criar pausas deixa de ser uma escolha e passa a ser uma estratégia de saúde. Em ambientes de alta exigência cognitiva, como a preparação para vestibulares, essa lógica já começa a ser incorporada.
A professora de yoga do Foco Medicina, Clarissa Quintanilha, trabalha diretamente com estudantes que enfrentam rotinas intensas de estudo e pressão por desempenho. No curso, as aulas de yoga são oferecidas duas vezes por semana e já fazem parte do programa, sem custo adicional para os alunos do preparatório completo.
"Os alunos vivem sob uma pressão muito grande, com muitas horas de estudo, alta cobrança e pouco espaço para descanso. As aulas entram como uma pausa estruturada dentro da rotina. Não é um momento de desconexão do objetivo, mas de reconexão com o próprio corpo e com a própria mente. A meditação ajuda o aluno a se perceber da pele para dentro, reconhecer pensamentos e sensações e organizar isso de forma mais consciente. Não existe um tempo ideal para essa pausa, o mais importante é a constância. Pequenos momentos de silêncio, quando incorporados ao dia a dia, já fazem diferença no foco, na memória e na forma como o estudante lida com o estresse", avalia.
"Hoje vemos cada vez mais pacientes expostos a níveis elevados de ruído no dia a dia, especialmente em ambientes urbanos. O excesso de som sobrecarrega o sistema auditivo e, a longo prazo, pode afetar estruturas delicadas da cóclea, responsáveis pela captação dos sons. Sons acima de 85 decibéis, quando frequentes ou prolongados, podem lesar as células do ouvido interno. Essas células não se regeneram, o que significa que a perda auditiva pode ser permanente. Além disso, muitos pacientes relatam zumbido e fadiga auditiva, que é uma sensação de audição abafada, dificuldade para compreender a fala e cansaço após exposição prolongada ao barulho.".
Assim, criar pausas deixa de ser uma escolha e passa a ser uma estratégia de saúde. Em ambientes de alta exigência cognitiva, como a preparação para vestibulares, essa lógica já começa a ser incorporada.
A professora de yoga do Foco Medicina, Clarissa Quintanilha, trabalha diretamente com estudantes que enfrentam rotinas intensas de estudo e pressão por desempenho. No curso, as aulas de yoga são oferecidas duas vezes por semana e já fazem parte do programa, sem custo adicional para os alunos do preparatório completo.
"Os alunos vivem sob uma pressão muito grande, com muitas horas de estudo, alta cobrança e pouco espaço para descanso. As aulas entram como uma pausa estruturada dentro da rotina. Não é um momento de desconexão do objetivo, mas de reconexão com o próprio corpo e com a própria mente. A meditação ajuda o aluno a se perceber da pele para dentro, reconhecer pensamentos e sensações e organizar isso de forma mais consciente. Não existe um tempo ideal para essa pausa, o mais importante é a constância. Pequenos momentos de silêncio, quando incorporados ao dia a dia, já fazem diferença no foco, na memória e na forma como o estudante lida com o estresse", avalia.
Ferramenta de produtividade
Se na rotina de estudos o silêncio melhora desempenho, no ambiente corporativo ele já começa a ser tratado como estratégia. A psicóloga, escritora e especialista em saúde mental organizacional Daisy Cangussú, com mais de 30 anos de experiência em gestão de pessoas, defende que o silêncio deixou de ser apenas um conceito subjetivo e passou a ser uma ferramenta concreta de produtividade e equilíbrio.
"Em um cenário corporativo marcado por múltiplos estímulos, notificações constantes e alta demanda cognitiva, o silêncio passou a ser um recurso estratégico para a saúde mental e para a sustentabilidade do trabalho. O cérebro humano tem limites para sustentar atenção contínua em ambientes de alta estimulação. Quando não há pausas, não há recuperação da atenção. Isso aumenta a fadiga mental, reduz a qualidade das decisões e compromete a autorregulação emocional. A produtividade não pode ser medida apenas pelo volume de entregas, mas pela capacidade sustentável de desempenho ao longo do tempo.”
A especialista também defende que o tema precisa ser tratado de forma estrutural dentro das empresas. "Criar espaços de pausa e silêncio não é um privilégio, é uma estratégia de prevenção. Pode ser por meio de ambientes físicos, como salas silenciosas, ou por organização do trabalho, com pausas entre reuniões, limites de comunicação fora do expediente e redução de interrupções. A saúde mental no trabalho não depende apenas do indivíduo, mas da forma como o ambiente é estruturado".
Se na rotina de estudos o silêncio melhora desempenho, no ambiente corporativo ele já começa a ser tratado como estratégia. A psicóloga, escritora e especialista em saúde mental organizacional Daisy Cangussú, com mais de 30 anos de experiência em gestão de pessoas, defende que o silêncio deixou de ser apenas um conceito subjetivo e passou a ser uma ferramenta concreta de produtividade e equilíbrio.
"Em um cenário corporativo marcado por múltiplos estímulos, notificações constantes e alta demanda cognitiva, o silêncio passou a ser um recurso estratégico para a saúde mental e para a sustentabilidade do trabalho. O cérebro humano tem limites para sustentar atenção contínua em ambientes de alta estimulação. Quando não há pausas, não há recuperação da atenção. Isso aumenta a fadiga mental, reduz a qualidade das decisões e compromete a autorregulação emocional. A produtividade não pode ser medida apenas pelo volume de entregas, mas pela capacidade sustentável de desempenho ao longo do tempo.”
A especialista também defende que o tema precisa ser tratado de forma estrutural dentro das empresas. "Criar espaços de pausa e silêncio não é um privilégio, é uma estratégia de prevenção. Pode ser por meio de ambientes físicos, como salas silenciosas, ou por organização do trabalho, com pausas entre reuniões, limites de comunicação fora do expediente e redução de interrupções. A saúde mental no trabalho não depende apenas do indivíduo, mas da forma como o ambiente é estruturado".
Reconexão com a própria essência
Se para muitos o silêncio ainda é desconfortável, para outros ele se torna prática de equilíbrio. É o caso do ator Phellipe Marques, que encontra no budismo uma forma de se reconectar em meio à rotina intensa.
"Pelo que entendo, o Dia do Silêncio é um convite para olhar para dentro e perceber como está a nossa saúde mental. No budismo, essa prática já faz parte do dia a dia, porque a gente aprende a buscar essa reconexão com a própria essência. Muitas vezes procuramos silêncio fora, mas ele começa dentro da gente. Quando eu recito o Nam-myoho-renge-kyo, é como se eu organizasse minha mente e me reconectasse com algo maior. Não é sobre ausência de som, é sobre estado interno", pontua.
A atriz Raiza Noah, que segue a prática do budismo de Nichiren Daishonin, encontrou no silêncio uma forma de se proteger do excesso de estímulos e se reconectar com a própria essência.
"Pelo que entendo, o Dia do Silêncio é um convite para olhar para dentro e perceber como está a nossa saúde mental. No budismo, essa prática já faz parte do dia a dia, porque a gente aprende a buscar essa reconexão com a própria essência. Muitas vezes procuramos silêncio fora, mas ele começa dentro da gente. Quando eu recito o Nam-myoho-renge-kyo, é como se eu organizasse minha mente e me reconectasse com algo maior. Não é sobre ausência de som, é sobre estado interno", pontua.
A atriz Raiza Noah, que segue a prática do budismo de Nichiren Daishonin, encontrou no silêncio uma forma de se proteger do excesso de estímulos e se reconectar com a própria essência.
"O silêncio tem um papel muito profundo na minha vida, não como ausência de som, mas como presença de mim mesma. Eu preciso criar esses espaços de forma intencional, principalmente porque sou uma pessoa facilmente superestimulada. Busco momentos de solitude real, longe de telas e distrações. E, curiosamente, é através da recitação do meu mantra que eu organizo esse silêncio interno. Pode parecer contraditório, mas é justamente esse som que me conduz a um estado de quietude mais profunda. Como atriz, isso é essencial, porque o silêncio me ajuda a diferenciar o barulho do mundo da minha própria voz interior", avalia.
Entre quem busca o silêncio e quem ainda resiste a ele, há um ponto em comum: a percepção de que o excesso cobra um preço. Em uma cidade que não desacelera, a pausa precisa ser uma escolha consciente.
Mais do que reduzir o volume externo, o Dia Mundial do Silêncio propõe algo mais difícil e mais necessário: criar espaço para escutar o que, no meio de tanto ruído, deixou de ser ouvido.
Entre quem busca o silêncio e quem ainda resiste a ele, há um ponto em comum: a percepção de que o excesso cobra um preço. Em uma cidade que não desacelera, a pausa precisa ser uma escolha consciente.
Mais do que reduzir o volume externo, o Dia Mundial do Silêncio propõe algo mais difícil e mais necessário: criar espaço para escutar o que, no meio de tanto ruído, deixou de ser ouvido.
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