Para Selma, o brechó é a realização de um sonhoArquivo pessoal
Publicado 11/05/2026 00:00
Se antigamente a maioria das pessoas, especialmente o público feminino, não podia ver uma grife para chamar de sua, hoje esse conceito vem mudando consideravelmente. E usar roupa usada não é mais visto de forma pejorativa e de pessoas com menos grana. Pelo contrário, a pegada agora é moda circular,  culto à sustentabilidade e fazer  economia também, é claro. Nâo à tôa o número de brechós e bazares vem crescendo a cada ano.Segundo dados de relatórios globais da ThredUp (uma das maiores plataformas online de consignação e revenda de roupas, calçados e acessórios de segunda mão do mundo, especializada em moda feminina e infantil), o mercado de revenda de roupas deve movimentar cerca de US$ 350 bilhões mundialmente até o ano que vem. No Brasil, não é diferente. O Sebrae aponta que o número de micro e pequenas empresas que comercializam artigos usados cresceu mais de 30% nos últimos anos. Trata-se de uma economia circular que injeta bilhões de reais anualmente, transformando o desapego numa nova cultura da moda.
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Para o empresário e especialista em moda Leonardo Mencarini, o fato é resultado direto de uma transformação no perfil do consumidor. "O crescimento dos brechós e da moda circular vem da combinação de três mudanças importantes no comportamento do consumidor. A primeira é econômica, já que as pessoas perceberam que conseguem comprar peças de qualidade por preços muito mais acessíveis. O segundo ponto é a busca por exclusividade, com peças únicas e fora do circuito tradicional. E, por fim, existe um forte apelo pela sustentabilidade, com consumidores mais atentos ao impacto do descarte de roupas", explica.
Realização de sonhos
No Rio de Janeiro, a tendência ganha força tanto em lojas físicas quanto no ambiente digital. A empresária Aline Andrade é um exemplo de como o setor cresceu nos últimos anos. O negócio começou de forma improvisada dentro de casa, durante a pandemia, e hoje se transformou em uma loja estruturada em Rocha Miranda. "Comecei vendendo algumas peças minhas em casa, atendendo amigas e vizinhas. Com o tempo, o movimento cresceu, e percebi que precisava de um espaço maior. Hoje tenho uma loja física e também vendo pelas redes sociais. O aumento da procura é muito claro, especialmente em datas comemorativas, quando o consumo cresce ainda mais", conta.
Proprietária do Brechó Bandini Modalitá, em São Cristóvão, Selma Bandin D´Almeida resolveu abrir o espaço por vários motivos. "Sempre gostei de roupas diferentes, únicas e vintages. Também é uma forma alternativa sustentável de produzir, usar e descartar, além de prolongar a vida útil das peças. Vejo o brechó como realização de sonhos''.
Além do comércio tradicional, iniciativas coletivas e feiras também impulsionam o setor. A presença de brechós em eventos e espaços públicos fortalece o contato direto com o consumidor e amplia o alcance da moda circular. A experiência de compra, aliás, é um dos diferenciais.
Para a jornalista Cristine Pappi, o brechó vai além do preço. "Gosto bastante de comprar roupas em brechó porque encontro peças de qualidade que não vejo mais nas lojas. Muitas vezes são itens de outras épocas, que têm mais personalidade. Além disso, alguns trabalham com sistema de troca, o que cria uma dinâmica de economia circular muito interessante", relata.
Da mesma profissão, Bia Carvalho, de 34 anos, moradora de São João de Meriti, virou frequentadora assídua de vários brechós. . "Sempre fui muito natureba, sou militante por causas sociais e o contexto de gostar de coisas artesanais me levou a comprar em brechó. Eu comecei a ser cliente de moda sustentável em 2023. Quem sempre comprava era minha mãe e uma vizinha dele. Minha mãe  chegava com umas coisas bem bacanas e diferentes, eu perguntava e ela falava que comprou no brechó da dona Dilma, que fica em Vilar dos Telles. É um brecho raiz, com aquela mística para garimpar. Ali achei várias roupas bem transadas, que eu não costumava ver em lojas convencionais. Nesse brechó descobri peças que nunca imaginei. Algumas tenho até hoje porque é mito achar que as peças não tem durabilidade porque são de segunda mão'', diz Bia.

Curadoria para todo o país
O ambiente digital também tem papel importante. Empreendedores que começaram de forma simples nas redes sociais hoje atendem clientes em todo o país. É o caso da Tamires Tavares, 36 anos, que transformou uma renda extra em negócio consolidado. Ela iniciou o projeto de brechó com uma amiga, o negócio cresceu durante a pandemia e hoje é sucesso de vendas nas redes sociais:
"Eu comecei em 2018, vendendo minhas próprias roupas porque precisava complementar a renda. Com o tempo, outras pessoas passaram a confiar no meu trabalho e a me entregar peças para vender. Hoje faço toda a curadoria, envio para todo o Brasil e percebo claramente como a consciência sobre consumo mudou. As pessoas estão mais preocupadas com sustentabilidade e reaproveitamento", afirma.
A nova geração também tem papel central nesse movimento. Para a estudante de moda e corretora, Bruna Campanholo, o consumo consciente deixou de ser tendência e se tornou necessidade. "A indústria têxtil é uma das mais poluentes do mundo. Consumir em brechó é uma forma de reduzir esse impacto. É uma escolha que vai além da estética, é um posicionamento", diz.
Além da sustentabilidade, a inclusão também aparece como um fator relevante. A fotógrafa Nathalie Paiva destaca que os brechós ampliam o acesso à moda para diferentes perfis de consumidores. "Para mim, que sou plus size, é difícil encontrar roupas em lojas convencionais. No brechó, consigo encontrar opções para mim, para meu filho e para meu esposo. É uma alternativa que ajuda a economizar e ainda promove consumo consciente”, conta.
Estratégia e posicionamento
Além do comportamento do consumidor, o crescimento dos brechós também passa por estratégia e posicionamento. Para Pricilla Rissi, estrategista em implementação comercial e fundadora da Essencial Assessoria Virtual, o diferencial está na forma como o negócio se apresenta ao público." O que diferencia um brechó que vende bem de um que tem dificuldade em converter clientes não é apenas o produto, mas a experiência e o posicionamento. Brechós que performam melhor entendem que não estão vendendo roupa usada, mas estilo, curadoria e identidade. Eles têm clareza de público, comunicação consistente e um processo de venda estruturado. Já os que têm dificuldade normalmente operam sem estratégia e acabam competindo apenas por preço”, explica.
Segundo ela, a percepção de valor é construída principalmente pela forma como as peças são apresentadas. "Quando o brechó investe em storytelling, produção visual e posicionamento de marca, ele deixa de ser visto apenas como uma opção barata e passa a ser percebido como algo único, com propósito. Isso muda completamente a relação do consumidor com a compra, afirma. No ambiente digital, a especialista reforça que a estratégia precisa ser clara e consistente. "No Instagram, o foco deve ser gerar desejo com conteúdos que mostrem looks, tendências e bastidores do garimpo. Já no WhatsApp, o diferencial está no atendimento. Não é só responder, é conduzir o cliente até a decisão com segurança, criando conexão e confiança", orienta.

Cuidado com poeira e mofo

Do ponto de vista da saúde, especialistas alertam para cuidados importantes na compra de peças de segunda mão. A alergista e imunologista Brianna Nicolleti explica que a higienização é fundamental para evitar reações adversas. "Roupas de brechó podem acumular ácaros, fungos e resíduos químicos ao longo do tempo, principalmente se ficaram armazenadas por longos períodos. Pessoas com histórico de alergias podem apresentar irritações na pele, coceiras e até crises respiratórias. Por isso, é essencial lavar bem as peças antes do uso, preferencialmente com produtos hipoalergênicos", orienta.
A otorrinolaringologista Renata Mori também chama atenção para o impacto em pacientes com doenças respiratórias. "Tecidos que acumulam poeira ou mofo podem desencadear crises de rinite e sinusite. Isso é ainda mais comum em peças mais antigas ou que não passaram por um processo adequado de higienização. O ideal é sempre lavar, secar completamente e, se possível, passar as roupas antes de usar", destaca.
Origem da palavra

De "Belchior" a Brechó
O termo brasileiro tem raízes no século XIX, no Rio de Janeiro. Um mascate chamado Belchior ficou famoso por vender roupas e objetos usados. Devido à dificuldade de pronúncia do nome, a expressão evoluiu popularmente para "belchior", depois "brecó" e, finalmente, brechó. 

Alguns preconceitos que vêm mudando

Higiene e Medo de Doenças - Muitas pessoas sentem aversão à ideia de vestir algo que já foi usado por um desconhecido, imaginando que a peça possa estar suja, malcuidada ou carregar germes.
Associação à pobreza - Historicamente, brechós e bazares eram vistos como o único recurso para pessoas de baixa renda. Para alguns, comprar usado ainda sinaliza uma suposta falta de capacidade financeira para comprar algo novo.

Energia ruim - O medo de carregar uma "energia negativa" ou um espírito (no caso de falecimento do antigo dono) cria um bloqueio psicológico.
Desorganização - Muitos associavam brechós a locais bagunçados, com pilhas de roupas desorganizadas, o que torna a experiência de compra desagradável para quem prefere ambientes organizados.

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