Rafael Azevedo (E) e Cláudio André de Castro (D) receberam em mãos as peças sacras recuperadasReginaldo Pimenta / Agência O Dia
Publicado 13/05/2026 14:54 | Atualizado 13/05/2026 15:01
Rio - A Polícia Federal devolveu, nesta quarta-feira (13), duas peças sacras à histórica Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, localizada na Rua do Ouvidor, no Centro do Rio. Os itens, que juntos são avaliados em cerca de R$ 85 mil, estavam desaparecidos há décadas. A entrega aconteceu na Superintendência da PF.
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As peças, um atril litúrgico – espécie de suporte para apoiar livros sagrados – e um porta-paz – objeto que é cumprimentado pelos fiéis como símbolo da troca da paz –, ambos de prata de lei, foram encontrados em leilões em São Paulo.

As obras, datadas entre os séculos XVIII e XIX, têm o brasão original da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, o que permitiu a rápida identificação. O porta-paz foi localizado em um leilão de Campinas, no interior de São Paulo. Já o atril litúrgico, em um da capital paulista.

Depois da descoberta, a igreja comunicou o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a Polícia Federal, que fizeram os procedimentos de apreensão e restituição judicial das peças. A Justiça Federal determinou que os objetos sejam entregues pessoalmente ao provedor da irmandade, Cláudio André de Castro.

Na porta da Superintendência da PF, Cláudio celebrou o retorno dos itens religiosos à irmandade e falou um pouco sobre o trabalho de busca pelas obras desaparecidas. “Com a ajuda do Iphan e da Polícia Federal, temos feito um inventário dessas peças. Localizamos fotografias delas em uso e fotos de acervo, e a equipe da irmandade tem buscado, junto aos leilões no país inteiro, por essas peças. Temos conseguido recuperar muitas. Essas já são as sétimas recuperadas”, disse.

Embora as peças sejam avaliadas em R$ 85 mil, o valor histórico, artístico e religioso é considerado inestimável. As obras faziam parte de um dos mais importantes acervos de prataria litúrgica do Rio, que foi severamente depredado entre as décadas de 1970 e 1990.

Segundo levantamento da irmandade, mais de 300 peças desapareceram nesse período, sendo mais de 100 em prata, incluindo cálices, coroas, cruzes processionais, castiçais, tocheiros, imagens sacras e alfaias litúrgicas.

“São peças de valor inestimável para nossa irmandade, pela história e pela conexão que elas têm com a história do Brasil e do Rio de Janeiro. Nós acreditamos que essas recuperações servem para conscientizar as pessoas, cada vez mais, da importância de se manter esse patrimônio sacro. Mesmo quando a pessoa tem outra religião, não deixa de ser um patrimônio dela, porque é um patrimônio do povo brasileiro”, afirmou Cláudio.

Como colecionador de arte, o provedor da irmandade também pede atenção aos compradores das peças. “Se todos tivermos atenção, se buscarmos saber qual a procedência das peças que compramos, se aprendermos um pouquinho sobre a simbologia das ordens terceiras, das irmandades, das congregações, porque muitas dessas peças são marcadas. A nossa maior preocupação, com a imensa valorização da prata, é o risco que essas peças correm de serem destruídas. Porque as pessoas vão vender pelo peso”, alertou.

Segundo Rafael Azevedo, museólogo do Departamento de Patrimônio Material e Fiscalização do Iphan, o órgão fiscaliza todas as peças que entram em leilão.

“O Iphan tem essa função de receber os avisos de leilão. Todos os leilões que têm, Brasil afora, de antiguidades e obras de arte, o Iphan é avisado. A gente faz toda essa análise. Também temos uma relação muito profícua de parceria com as irmandades, com a polícia, com os antiquários e com colecionadores que têm boas intenções. Como é o caso, por exemplo, da irmandade da Lapa dos Mercadores, que está sempre muito atenta”, explicou.

Para Rafael, o crescimento do mercado da prata é uma preocupação em relação aos itens sacros. “São peças de prata de grande valor, grande requinte. Estamos atentos tanto a esse mercado da prataria, que está aquecido pela alta valorização do metal, quanto aos objetos litúrgicos, devocionais, obras de arte, esculturas e pinturas. Temos conseguido restituir tudo isso, o que tem colocado o Rio de Janeiro em primeiro lugar, em nível nacional, na restituição de obras de arte”, revelou.

O museólogo explicou ainda que a gravação do brasão da irmandade nas peças recuperadas ajudou na identificação das obras. Inventários atualizados também potencializam o trabalho do Iphan. De acordo com ele, o órgão está montando uma plataforma que promete facilitar esse tipo de trabalho.

“A gente precisa ter inventários sempre atualizados. O Iphan está montando uma plataforma de inventário também. O Iphan tem um Banco de Bens Culturais Procurados, o BCP. Estimulamos todo mundo que é do mercado de obras de arte, museus, colecionadores, interessados e diletantes a consultar o banco. Lá também temos um canal de denúncia para recuperar ainda mais objetos e devolvê-los à sociedade”, disse.

A devolução, no entanto, não é a primeira. Em operação anterior da PF, outras cinco peças desaparecidas há cerca de 50 anos foram recuperadas e devolvidas à igreja.

Para comemorar o retorno dos objetos recuperados, a irmandade organizará uma grande cerimônia religiosa. A celebração deverá ocorrer em missa solene com coral e grande orquestra, reunindo representantes da Polícia Federal, do Iphan, autoridades religiosas e convidados ligados à preservação do patrimônio histórico brasileiro.

Durante a cerimônia, o atril e o porta-paz entrarão em procissão pela igreja, retornando simbolicamente ao altar da Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores. A data da celebração ainda não foi divulgada.

*Colaboração: Reginaldo Pimenta
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