Polícia Federal diz que agente da própria corporação atuava como um informante para Daniel VorcaroÉrica Martin / Arquivo O Dia
Publicado 14/05/2026 16:58 | Atualizado 14/05/2026 17:24
Rio - Segundo a Polícia Federal, o agente da própria corporação, lotado no Aeroporto Internacional do Rio, Anderson Wander da Silva Lima atuava como um informante dentro do órgão a serviço do policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva, apontado como integrante do grupo criminoso conhecido como 'A Turma'. Ambos foram alvos da 6ª fase da Operação Compliance Zero, deflagrada nesta quinta-feira (14).
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De acordo com a investigação, Anderson usava seu acesso aos sistemas internos da PF para consultar informações sigilosas e repassá-las a Marilson, que encaminhava os dados a Daniel Vorcaro, presidente do Banco Master, Felipe Mourão e outros membros da organização.

As mensagens apreendidas mostram que essa atuação não foi isolada. Desde agosto de 2023, Anderson teria realizado uma série de consultas irregulares em bancos de dados da Polícia Federal para descobrir, por exemplo, viagens internacionais, localização de pessoas e detalhes de investigações sigilosas. Em um dos episódios, Marilson enviou ao agente a foto do passaporte de uma mulher e pediu que ele verificasse se ela havia deixado o país e para qual destino. Anderson atendeu ao pedido e encaminhou uma captura de tela do sistema da PF com os registros de entrada e saída do Brasil.

Os diálogos também indicam que Anderson buscava ser recompensado pelos serviços prestados. Em uma das conversas, ele afirmou que "moral se paga com moral" e pediu "fortalecimento", expressão interpretada pela PF como um pedido de pagamento ou benefício. Poucos dias depois, Marilson solicitou a chave Pix do agente para enviar um "presente" à filha dele, aprovada no vestibular. Anderson agradeceu e informou que a jovem "adorou o presente".

Para os investigadores, as mensagens revelam que o policial não atuava apenas em consultas pontuais, mas fazia parte de um esquema contínuo de obtenção de informações reservadas em troca de vantagens financeiras. Em setembro de 2023, Anderson chegou a dizer que precisava de "alguma coisinha boa" e se colocou à disposição para fazer novos "trabalhinhos". Marilson respondeu que, no mês seguinte, teria "um negócio muito interessante" que dependeria do apoio dele.

A PF também identificou que Anderson era acionado para levantar dados sobre investigações envolvendo diretamente a família Vorcaro. Em fevereiro de 2024, Marilson pediu que o agente verificasse, com urgência, se um inquérito tratava de crimes financeiros relacionados a Daniel Vorcaro. Para atender ao pedido, Anderson consultou ao menos três colegas e enviou prints das respostas recebidas. Dias depois, realizou nova busca sobre outro procedimento que mencionava Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro.

Na avaliação da Polícia Federal, as conversas mostram que Anderson usava sua posição na Superintendência Regional da PF no Rio de Janeiro para abastecer o grupo com informações estratégicas sobre pessoas monitoradas e sobre investigações em andamento. Para os investigadores, ele integrava o braço policial da organização criminosa, oferecendo acesso privilegiado a dados sigilosos em troca de pagamentos e outros benefícios.
6ª fase da Operação Compliance Zero
Na sexta fase da operação, a Polícia Federal aprofundou as investigações sobre a atuação de diferentes núcleos de uma organização criminosa suspeita de espionagem, ataques cibernéticos e infiltração em órgãos públicos para obtenção de informações sigilosas. 
Entre os presos está o empresário Henrique Vorcaro, pai do banqueiro Daniel Vorcaro. Ele foi detido em Minas Gerais, momentos antes de embarcar para Brasília para visitar seu filho na carceragem da Superintendência da PF.

O pai de Vorcaro é suspeito de se beneficiar de desvios do Banco Master, por meio de operações fraudulentas com fundos de investimento. Segundo a investigação da corporação, o dono do Master tentou esconder R$ 2 bilhões na conta do pai.

Núcleo "A Turma"

A nova etapa da operação está ligada à fase deflagrada no início de março, quando o ministro responsável pelo caso determinou o retorno de Daniel Vorcaro à prisão e autorizou a detenção de integrantes do grupo conhecido como "A Turma".

Segundo a Polícia Federal, esse núcleo era responsável por monitorar e espionar pessoas, além de infiltrar agentes em órgãos públicos para acessar informações sigilosas.

As investigações apontam que Henrique Vorcaro atuava como principal operador financeiro da organização e era encarregado de repassar ao grupo as ordens de Daniel Vorcaro, inclusive durante o andamento das diferentes fases da operação.

Também integravam esse núcleo o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva, apontado como líder operacional da organização, mesmo após sua prisão; Manoel Mendes Rodrigues, acusado de comandar um braço do grupo no Rio de Janeiro; Sebastião Monteiro Júnior, também policial aposentado; e Anderson Wander da Silva Lima, policial federal em atividade na Superintendência Regional da Polícia Federal no Rio.

Núcleo 'Os Meninos'

Outro braço da organização, conhecido como 'Os Meninos', era liderado, segundo a investigação, por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como 'Sicário'. Ele foi preso em uma fase anterior da operação e morreu no sistema prisional.

De acordo com a Polícia Federal, o grupo era responsável por operações tecnológicas, incluindo ataques cibernéticos, invasões telemáticas, derrubada de perfis em redes sociais e monitoramento ilegal de comunicações telefônicas e digitais, sempre sob ordens do comando central da organização.

Foram presos David Henrique Alves, apontado como líder do núcleo tecnológico, além de Victor Lima Sedlmaier e Rodrigo Pimenta Franco Avelar Campos, investigados por atuar como hackers no esquema.

Infiltração nas forças de segurança

As apurações também indicam que a organização contava com integrantes infiltrados nas forças de segurança para obter informações sigilosas sobre investigações em andamento.

Entre os investigados estão a delegada da Polícia Federal Valéria Vieira Pereira e o agente Francisco José Pereira da Silva. Segundo a PF, ambos teriam utilizado o acesso ao sistema e-Pol para repassar dados sigilosos ao policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva.

Por determinação do ministro relator, a delegada e o agente foram afastados de suas funções e proibidos de acessar dependências e sistemas da Polícia Federal. Também foram impostas medidas cautelares, como a entrega dos passaportes e a proibição de deixar as cidades onde residem e o país.

Na decisão, o ministro afirmou que as provas reunidas pela Polícia Federal apontam para a existência de uma organização criminosa sofisticada, estruturada em núcleos presencial, policial-informacional, financeiro e tecnológico, o que, segundo ele, exige uma resposta judicial compatível com a gravidade dos fatos apurados.

Todas as prisões preventivas e demais medidas cautelares receberam parecer favorável do Ministério Público Federal.
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