Publicado 18/05/2026 15:55
Há uma criança agora mesmo no Brasil crescendo sem acesso à água tratada e com esgoto a céu aberto na rua de casa. Ela já teve diarreia tantas vezes que a família parou de contar e já faltou à escola nos dias em que a febre não a deixou sair da cama. Não se trata de acaso, nem de uma realidade inevitável. A falta de saneamento básico adoece, interrompe trajetórias e compromete o futuro de milhões de brasileiros de forma silenciosa e persistente.
PublicidadeSó em 2024, o país registrou mais de 330 mil internações por doenças transmitidas pela água, segundo dados do DataSUS. Hepatite A, leptospirose, febre tifoide e diarreias severas seguem atingindo, principalmente, as populações mais vulneráveis. Enfermidades antigas e inteiramente evitáveis com acesso ao básico: água tratada e coleta e tratamento de esgoto. Foi para tratar desse assunto que pesquisadores, médicos e agentes comunitários de saúde se reuniram no evento "Saneamento e Saúde em Diálogo", promovido pela Águas do Rio, empresa da Aegea, no Centro do Rio.
A médica pneumologista Margareth Dalcolmo, pesquisadora da Fiocruz e embaixadora do projeto Saneamento Salva, da Aegea - plataforma que reúne dados, notícias e análises sobre os avanços do setor no país -, costuma chamar os agentes comunitários de saúde de “os diamantes do SUS”. São eles que entram nas casas, constroem confiança nas comunidades e transformam informação técnica em orientação prática no dia a dia.
“Sem vocês, tudo que nós fazemos cai por terra. São os agentes que levam a informação para dentro das comunidades, que convencem, que acompanham. Eles são fundamentais para que as transformações trazidas pelo saneamento de fato cheguem a quem mais precisa”, afirmou.

O impacto da falta de saneamento na infância
A pesquisadora e doutora em Ciências pela Fiocruz Maria Fantinatti Fernandes também participou do bate-papo e destacou que os impactos da falta de saneamento vão muito além da doença imediata. Crianças expostas continuamente à água contaminada e ao esgoto convivem com parasitas e infecções intestinais recorrentes que impedem o organismo de absorver corretamente nutrientes essenciais ao crescimento e ao desenvolvimento cognitivo.
O efeito é silencioso, mas profundo. Muitas crescem menos do que poderiam, têm o aprendizado comprometido e chegam à escola em desvantagem. Não por falta de capacidade, mas porque o próprio corpo foi privado nos primeiros anos de vida das condições básicas necessárias para se desenvolver plenamente.
“Quando falamos de saneamento, falamos de futuro. Uma criança que cresce exposta ao esgoto tem seu desenvolvimento comprometido, e isso afeta o aprendizado, a saúde ao longo da vida e, no fim, as chances que ela terá. As doenças geradas pela falta de saneamento acabam prendendo essa criança a uma vida na pobreza”, explicou Fantinatti.
Para Édison Carlos, presidente do Instituto Aegea, um dos aspectos mais graves da crise do saneamento é a forma como ela foi naturalizada ao longo das décadas. Há regiões inteiras do Brasil onde gerações cresceram sem nunca ter experimentado o que é abrir a torneira e confiar na água que sai. A ausência se torna rotina e o risco passa a ser tratado como parte da vida. “Quem sempre teve saneamento nem sempre percebe a importância desse serviço. E quem nunca teve acaba naturalizando situações de risco. É uma injustiça que a gente precisa nomear e enfrentar”, afirmou.
As comunidades mudam quando o investimento chega
Reconhecer a desigualdade é parte do caminho, e mudar essa realidade exige infraestrutura, investimentos e continuidade. Desde que assumiu a concessão, em novembro de 2021, a Águas do Rio já investiu R$ 6,3 bilhões em intervenções no abastecimento de água e coleta e tratamento de esgoto nos 27 municípios fluminenses onde atua. Ao longo dos 35 anos de concessão, a previsão é que os investimentos cheguem a R$ 24,4 bilhões, com a meta de universalizar os serviços até 2033, conforme determina o Marco Legal do Saneamento.
A expectativa é que essa transformação produza impactos diretos também na saúde pública. Segundo estudo do Instituto Trata Brasil, a universalização do saneamento no Rio de Janeiro, apenas na área atendida pela concessionária, deve gerar uma economia de R$ 101,4 milhões em despesas médicas até o fim da concessão. Na prática, isso significa menos internações, menos crianças afastadas da escola e menos famílias perdendo renda para cuidar de doenças que poderiam ter sido evitadas. Outros R$ 4,9 bilhões devem ser gerados em produtividade até 2056.
Saneamento Salva: a cartilha que nasceu de quem vive o território
Foi pensando em fortalecer o trabalho de quem atua diretamente nas comunidades que a Águas do Rio lançou, durante o evento, a cartilha educativa “Saneamento Básico é Vida”, voltada aos agentes comunitários de saúde que atuam em Clínicas da Família e Centros de Saúde do Rio e da Baixada Fluminense.
A publicação apresenta um tom acessível com orientações sobre como reconhecer doenças transmitidas pela água e pelo esgoto, limpar corretamente a caixa d'água e entender os benefícios das obras da Águas do Rio.
O agente comunitário de saúde Alexandre Silva resumiu bem o que esses encontros significaram na prática. "Estamos recebendo informações bem específicas sobre saneamento, o que está ajudando a desempenhar nosso trabalho. Por exemplo, a gente agora sabe como orientar da forma mais correta sobre a limpeza da caixa d'água e explicar para o morador a importância desse hábito para a qualidade da água que ele bebe", contou.
Para Tâmara Mota, gerente de Responsabilidade Social da concessionária, a cartilha só funciona porque foi construída junto com os agentes de saúde. "O conhecimento técnico só chega às famílias quando passa pelo filtro da experiência desses profissionais. Eles são o elo", afirma.
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