Publicado 28/05/2026 13:15 | Atualizado 28/05/2026 13:28
Rio – Faltando 16 dias para a estreia do Brasil na Copa do Mundo, diversas ruas da Zona Norte já estão "preparadas" para receber a torcida pelo hexa. Perpetuando uma tradição, moradores de um trecho da Pereira Nunes, em Vila Isabel, e da Rua Carlos Vasconcelos, na Tijuca, coloriram o asfalto, além de muros e os postes com bandeiras e desenhos em homenagem à Seleção.
PublicidadeO supervisor de projetos Celso Mendes, de 48 anos, que lidera os festejos na Pereira Nunes, não esconde o orgulho de ver a mobilização há décadas na rua. “Desde 1978 a gente continua essa tradição. É tão incrível que 42 países já vieram nos visitar para ver essa história em reportagens. Conseguimos atrair países como a Índia, que nunca teve vontade de conhecer a cultura brasileira, e falar por 10 minutos no maior jornal deles sobre [Rua] Pereira Nunes, Brasil, Rio de Janeiro, enfim, sobre a nossa festa.”
Celso também conta que a preparação para a Copa de 2026 foi inclusiva. “Quase 30 crianças autistas vieram pintar esse desenho [a ilustração “Hexa Vem” com o símbolo da causa]. Foi feita por eles, é um espaço só para eles! Teve um café da manhã com as mães atípicas, um dia incrível. E eles ficaram felizes demais, no sol, com tinta no cabelo.”
Ele destaca, ainda, a importância da preservação da tradição. “Em 1994 eu entendi que era minha vez de pegar essa gestão, e naquele ano, a rua foi a campeã do município, e o Brasil, campeão mundial! É um projeto que muita gente gosta, e mete a mão na massa, com R$ 15 ou até menos. E é importante manter essa cultura com os mais jovens porque é esporte, lazer, arte. Não há só perigo”, reitera.
O publicitário e ilustrador Rodrigo Habib, 48, comenta que o projeto começou em abril e aguarda só os retoques finais: “Tudo começou por um grupo de WhatsApp em que os moradores trocam ideia e os desenhos vão surgindo. Eu faço o risco e eles pintam, gente de todas as idades, crianças, jovens, idosos. Passando de geração, ninguém deixa morrer, e fica bem bacana. Estamos desde o dia 1º de abril montando isso. Quarta mesmo estávamos aqui trabalhando, e terminamos a pintura do Neymar, mas ainda falta umas bandeirinhas.”
Além do camisa 10 do Santos, o personagem infantil Menino Maluquinho, de Ziraldo, e o mascote Canarinho também foram homenageados. Houve ainda a “imitação” das figurinhas com o rosto dos ícones como Pelé (1940-2022), Zagallo (1931-2024), Ronaldinho e Romário nas paredes. Os moradores também confeccionaram uma camisa oficial e uma faixa gigante da “Galera da Pereira Nunes”, instalada logo na entrada. No dia dos jogos, haverá telão e música.
Para a festa acontecer, as tarefas foram divididas entre a população, em um sistema de cooperação.
“Minha participação começou através do meu filho, que desde 6 anos se envolve e agora, com 17, fez esse ‘teto’ lindo. Eu cuido do telão e do som, então não posso falhar, senão o pessoal não assiste”, brinca o microempreendedor Otávio Greco, 55.
“Aqui é assim, a gente faz camisa, rifa, bate de porta em porta para a tradição não acabar, e se manter para os anos seguintes. Quem sabe o Hexa não vem agora, que a rua está competindo?”, projeta Otávio.
“Aqui é assim, a gente faz camisa, rifa, bate de porta em porta para a tradição não acabar, e se manter para os anos seguintes. Quem sabe o Hexa não vem agora, que a rua está competindo?”, projeta Otávio.
A aposentada Lilia Neves, que reside no local há 50 anos, conta que viu as ornamentações da rua ao longo de diversas outras Copas: “Meus filhos e eu descíamos, ficávamos aqui até a madrugada, pintando, fazendo o lanche. É muito bom, sabia? É a única rua que não deixou morrer.”
Festa na Tijuca
Na Carlos Vasconcelos, nos arredores da Praça Saens Peña, a ornamentação também chama a atenção. Com giz de cera azul, amarelo e verde, os moradores coloriram no chão a frase "Rumo ao Hexa". No alto, tirinhas brancas e as bandeiras dos países participantes criam o cenário perfeito para a festa.
Dono do restaurante Princesa da Tijuca, que serve como "GQ" da festa, Manoel Vasconcellos, 44, está empolgado com os preparativos. “Os enfeites ficavam na metade da rua, aí nós, do comércio, decidimos entrar e fazer aqui. Estamos já na finalização, acredito que no domingo [31] estará tudo pronto, com a criançada participando da pintura. Tudo feito com uma ‘vaquinha’ entre os moradores e quem quiser participar."
Ivana chagas, moradora da rua, celebra a iniciativa: “Eu estou achando maravilhoso esse resgate do nosso passado! Tenho na memória a gente indo para a rua, pintando, desenhando... Qualquer moeda valia e a gente virava a noite, acho isso lindo! Era delicioso demais, eu acho que deu uma murchada porque a população cresceu muito, cada um para um lado, mas acho que vai ser bom.”
A estudante Maria Fernanda, 20, filha de Ivana, diz que está empolgada. “Estou ansiosa para participar, é uma coisa diferente, que eu nunca tinha feito. É interessante a gente se juntar para pintar, mesmo que não tenha a vitória, porque vale pelo momento, a alegria que a gente tem. Eu não sou desenhista, mas curto muito artesanato, vou ajudar."
Para o empresário Diego Marques, 36, o evento reforça a coletividade no bairro: “É bem colaborativo. Toda a arrecadação foi feita pelos moradores, empresários da região, e o que for faltando, a gente vai implementando. Vamos trazer o Hexa, todo mundo junto!”, declara.
Subprefeito da Grande Tijuca, Igor Gomes afirma que a movimentação tem o poder de fortalecer o senso de comunidade: “A gente estimula os moradores a se envolverem e estimula o sentimento coletivo que um evento como esse desperta. A rua enfeitada cria união, resgata uma tradição bonita na nossa cidade”.
* Reportagem da estagiária Ágatha Araújo, sob supervisão de Raphael Perucci
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