Moradores mostram rÉrica Martins/Agência O DIA
Publicado 29/05/2026 15:26 | Atualizado 29/05/2026 15:26
Rio - O sepultamento do pedreiro Edivan Felipe de Assis, de 46 anos, morto por policiais militares no Jardim Catarina, em São Gonçalo, na Região Metropolitana, foi marcado por protesto, dor e revolta no Cemitério São Miguel, no mesmo município, na tarde desta sexta-feira (29). Com cartazes, bolas brancas e uma régua, semelhante à que os agentes teriam confundido com uma arma, os moradores da comunidade pediram Justiça.
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Segundo a família, Edivan administrava um bar com a mulher e trabalhava como pedreiro para complementar a renda. Ele deixa uma filha de 14 anos e um neto de apenas três meses.
Ao DIA, a cunhada dele, que preferiu não ser identificada, explicou que ele estava indo trabalhar em uma obra em Niterói, no município vizinho, junto com Marcelo da Cruz Silva, de 41 anos, quando ambos foram atingidos por mais de 40 tiros a cerca de 5 minutos de casa.
"Se fosse uma doença, ia doer, lógico, toda morte é doida, mas a gente ia se conformar. Mas da maneira que foi, eles foram executados. Eles estavam fazendo uma obra em Niterói, eles começaram na segunda e na quarta aconteceu isso. Da forma que foi, a gente nunca vai se conformar. Onde a gente mora não tem nenhum fuzil branco, como a polícia vai confundir uma régua branca com um fuzil?", questionou.
A cunhada também pediu por justiça e relembrou momentos ao lado do pedreiro. "A gente espera justiça, que muita das vezes a gente sabe que não vem, mas se não vier a justiça aqui da terra, eu tenho certeza que a de Deus não vai falhar (...) Edivan era alegria pura. Ele tinha acabado de ser avô, o netinho dele estava aqui, ele estava extremamente feliz que a única filha deu um netinho pra ele. Ele era um cara extrovertido, brincalhão, prestativo, alegria pura", lamentou.
Durante o velório, um ônibus trouxe diversos moradores da comunidade com cartazes com as seguintes frases: "Régua não é fuzil"; "Depois de morto não responde"; e "Trabalhador não é bandido".
Com a régua em mãos, o líder comunitário da Ipuca, região do Jardim Catarina, Tarcísio de Andrade de Oliveira, descreveu o medo da população em meio a violência.
"Isso aqui é uma régua! A gente não está aqui para criticar a polícia, a gente está aqui para mostrar que na comunidade tem trabalhador, tem profissionais, tem pessoas formadas na faculdade. Estamos aqui para mostrar para o estado e para sociedade que por causa disso aqui duas vidas foram ceifadas. Agora, trabalhadores estão com medo de andar com suas ferramentas, você sai pra trabalhar de manhã e vai colocar a ferramenta onde? Vai ter que fazer como agora com as ferramentas? Todo mundo agora está com medo", disse.
Emocionado e em tom de revolta, o também pedreiro e colega de trabalho de Edivan, Dirlei Alves Vieira, 52 anos, explicou como é usada a régua em obras.
"Isso é ferramenta de sarrafear massa, quando a massa é chapada na parede, isso aqui sarrafeada para parede ficar reta", repetiu enquanto mostrava como é usada.
Segundo Dirlei, os dois faziam muitos “biscates” juntos e o amigo era uma pessoa muito família. "Podia ser qualquer um de nós, a ficha ainda não caiu. Eu soube pelo jornal e fiquei muito impactado. Ele era uma excelente pessoa, trabalhamos juntos, já me deu vários conselhos. Dizem que no Brasil não tem pena de morte, mas parece que tem. Não tem protocolo de abordagem? Por que não abordou? Ele era muito trabalhador, chamava ele para beber fim de semana e ele falava que tinha que ir pra casa ver a família", lamentou.
Uma outra amiga, Dhorronna Azeredo, 31 anos, também demonstrou revolta com o ocorrido e pediu por justiça.
"Era um grande amigo, trabalhador, alegre, não tinha tristeza para nada, perder a vida, ter a vida ceifada e arrancada dessa forma. Ninguém aguenta mais a covardia que o estado faz com a gente, eles atiram para depois perguntar, será que uma régua e um fuzil tem o mesmo poder? De matar como eles fizeram? Porque os meninos não trocaram tiros com eles, eles não sabem nem porque morreram, até agora devem tá se perguntando", afirmou.
Dhorranna também lamentou a violência na comunidade. "Até quando? Qual vai ser o próximo morador? A gente não pode mais sair de casa de madrugada, não pode mais deixar um filho brincar, porque a gente não sabe o que vai acontecer. Até quando a gente vai passar por isso? Até quando a gente vai ter que se despedir de trabalhadores honestos?", questionou.
Para outro líder comunitário, Tchetcheco Trindade, o sentimento que fica é o de frustração. "O estado já não faz nada quando envolve comunidade, até faz, operações para entrar, dizem que vai entrar pra prender, mas na verdade entraram para matar., um exemplo disso é o que aconteceu na quarta, dois trabalhadores saíram para trabalhar e tiveram a vida ceifada. A gente pede justiça, que o estado conforte a família, as vidas não vão voltar mas que pelo menos façam justiça", frisou.
Relembre o caso
Na manhã de quarta, policiais militares dispararam mais de 30 vezes contra Marcelo e o amigo, Edivan. Os pedreiros foram baleados e mortos quando estavam a caminho do trabalho em uma motocicleta, na Avenida Doutor Albino Imparato, a principal do bairro Jardim Catarina.
Segundo moradores, eles foram confundidos com bandidos. Uma testemunha, ainda, afirmou que não houve ordem de parada nem voz de prisão.
Em nota, a PM informou que, de acordo comando do 7º BPM (São Gonçalo), "um procedimento apuratório segue em curso para averiguar todas as circunstâncias na qual policiais militares atingiram dois homens em uma motocicleta, durante ocupação na localidade de Ipuca".

"A Corporação lamenta a morte do Marcelo da Cruz Silva e do Edivan Felipe de Assis e ressalta que preza pela transparência de suas ações colaborando integralmente com as investigações do caso", disse a Corporação, em comunicado.

A Delegacia de Homicídios de Niterói e São Gonçalo (DHNSG) realizou a perícia e apreendeu as armas dos agentes do 7º BPM (São Gonçalo). O material será submetido a confronto balístico. Além disso, as imagens das câmeras corporais dos policiais já foram requisitadas. As gravações devem esclarecer a dinâmica dos fatos e o motivo de os agentes terem disparado tantas vezes contra os dois homens. Os agentes foram afastados das funções na corporação.
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