Mostra ficará em cartaz até 15 de junhoDivulgação / Biblioteca Parque Estadual
Publicado 05/06/2026 08:07 | Atualizado 05/06/2026 11:34
Rio – A Biblioteca Parque Estadual, no Centro, inaugurou a exposição gratuita “Saudação a Iemanjá – 3 tempos”, dedicada à figura ancestral da Rainha do Mar. A mostra, que vai até dia 15 de junho, reúne mais de 100 artistas contemporâneos, que trazem interpretações variadas da entidade que é símbolo de fé e conexão com a natureza.
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Entre as obras, há esculturas, pinturas e instalações com tecido, representando a figura que é mulher e sereia ao mesmo tempo. A diversidade de representações dialoga com a própria simbologia de Iemanjá, uma das entidades mais cultuadas das religiões de matriz africana. Associada ao mar, à maternidade e à proteção, ela também é marcada pelo sincretismo religioso, sendo a Virgem Maria para os católicos. Todos os trabalhos estão à venda.
Selecionada para compor a mostra, a pesquisadora e professora de artes Dessa Santoz, 26, revela ao DIA detalhes da produção: “Meu trabalho fala muito sobre afeto, rede familiar, de memória e imaginação, e de como tudo isso influencia a forma de como enxergamos o mundo e nossas vivências, especialmente dentro de uma perspectiva periférica. Sendo moradora de Nova Iguaçu, na Baixada, não poderia deixar de falar de relações interpessoais sem esse recorte”.
“A obra que exponho chama Oferendar. Gosto desse jogo de palavras em que você transforma uma palavra ligada a um ato simbólico em um verbo. Na imagem, há três mulheres vestidas com roupas ritualísticas, à beira-mar, carregando um barquinho azul, em oferenda à Iemanjá”
Dessa explora a questão do conjunto familiar na pintura: “Vemos que ali há uma relação familiar, da mesma forma que elas são o “pilar” do ritual. Até porque nas religiões de matriz africana, existe essa relação de parentalidade: mãe, irmã, pai de Santo. Tudo é feito em conjunto para postular, fazer pedidos”.
"Eu acho muito interessante também o fato de estar participando dessa exposição. A oportunidade surgiu logo quando, há pouco tempo, comecei a me iniciar no Candomblé, onde vejo a formação desses laços", conclui a artista.
Doutor e professor de Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rogério Athayde comenta ao DIA alguns aspectos da identidade da deusa: “Iemanjá vem da frase composta ‘Yèyé Omó Ejá’, que quer dizer ‘a mãe dos filhos-peixes’, e essa característica do cuidado é a que mais prevaleceu no Brasil. Ela é sempre lembrada como uma grande mãe, não só dos próprios filhos, mas de quem procura por ela.”
“Como todas as divindades yorubanas, ela também sofreu uma forma de adaptação sincrética, sendo associada à Mãe de Deus, mas também falamos da sereia, o que é curioso, considerando que elas sempre aparecem como assombrações, martirizando os marinheiros”, detalha.
Athayde conclui destacando a importância da representação: “Assim como Oxum, Nanã, e Oyá, Iemanjá é uma divindade extremamente relevante, sendo uma expressão do feminino. Precisamos lembrar o tempo todo da importância do feminino, ainda mais diante do quanto ele continua sendo violentado aqui no Brasil, com feminicídios, discriminações e outras formas de violência.”
O projeto tem curadoria de Bianca Branco e participação do Tabuleta Itinerante, movimento artístico independente, dedicado à criação de espaços de encontro e visibilidade para artistas contemporâneos.
A Biblioteca Parque Estadual fica na Avenida Presidente Vargas, 1261, e funciona de segunda a sexta, das 10h às 17h. 
 
*Reportagem da estagiária Ágatha Araújo, sob supervisão de Raphael Perucci
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