Imagem simboliza a formatura negada a Stuart Angel pela ditaduraReprodução/ Redes Sociais
Publicado 07/06/2026 12:05 | Atualizado 07/06/2026 12:52
A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) vai conceder, de forma póstuma, o diploma da Faculdade de Economia a Stuart Angel Jones, estudante morto sob tortura durante a ditadura militar. 

A cerimônia está marcada para o dia 7 de julho, às 16h30, no Salão Dourado da UFRJ. O anúncio foi feito pelo Centro Acadêmico Stuart Angel, vinculado ao Instituto de Economia da universidade.
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A cerimônia reconhece a condição do aluno, que teve sua formação interrompida após ser sequestrado e morto por agentes do Estado em maio de 1971, quando tinha 25 anos. O corpo nunca foi encontrado.

A divulgação da diplomação foi acompanhada por uma imagem simbólica, feita através de IA, que retrata Stuart sorrindo e segurando um canudo de formatura. A cena, entretanto, jamais ocorreu. Preso por órgãos de repressão da ditadura militar, o estudante foi impedido de concluir o curso e de retornar à vida acadêmica.

Stuart foi torturado para revelar informações sobre o paradeiro de Carlos Lamarca, ex-capitão do Exército e um dos líderes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).

De acordo com uma testemunha, ele teve a boca amarrada ao escapamento de um jipe que circulava pelo pátio da prisão, sendo forçado a inalar gases tóxicos até a morte. O episódio tornou-se um dos casos mais emblemáticos da violência praticada pelo regime contra opositores políticos.

Em 2019, a certidão de óbito de Stuart foi corrigida oficialmente. O documento passou a registrar que sua morte foi violenta e causada pelo Estado brasileiro, no contexto da perseguição sistemática promovida pela ditadura entre 1964 e 1985.

A luta de Zuzu Angel 
Stuart Angel era militante do MR-8, organização armada de resistência ao regime militar, e se tornou um dos desaparecidos políticos mais conhecidos do país.

Sem respostas sobre o paradeiro do filho, a estilista Zuzu Angel transformou sua busca em uma campanha pública de denúncia. Ela mobilizou autoridades brasileiras e estrangeiras, concedeu entrevistas e utilizou suas coleções de moda para chamar a atenção para o desaparecimento de Stuart.

A dor da mãe também inspirou a canção "Angélica", composta por Chico Buarque e Miltinho. A música faz referência à incansável procura de Zuzu pelo filho desaparecido.

O anúncio da diplomação ocorreu na mesma data em que a estilista completaria aniversário. Nascida em 5 de junho de 1921, Zuzu morreu em 1976, em um acidente de carro que, anos depois, também foi reconhecido como resultado da ação de agentes da ditadura.

Antes de morrer, ela deixou um bilhete com Chico Buarque no qual afirmava que qualquer atentado contra sua vida deveria ser atribuído aos responsáveis pela morte de Stuart. No texto, registrou que, caso sofresse um acidente ou fosse assassinada, os autores seriam os mesmos envolvidos no desaparecimento do filho.

Em agosto do ano passado, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos entregou à família a certidão de óbito retificada de Zuzu Angel. O documento reconhece oficialmente que sua morte também foi violenta e provocada pelo Estado brasileiro durante o período da ditadura.
'Cruzada'
Para Hildegard Angel, irmã de Stuart, a diplomação póstuma representa um reconhecimento simbólico, mas não encerra a busca da família por respostas. “Aquele período de chumbo continua a assombrar nossas vidas e a memória do país, por isso o compromisso de, enquanto vivermos, os familiares dos desaparecidos e mortos, dar continuidade a essa cruzada, que não acaba, em busca da verdade e dos restos mortais”, afirmou a jornalista, nas redes sociais.

Ela também reforçou a importância de localizar os vestígios do irmão para que a família possa encerrar uma espera que já dura mais de cinco décadas. “Mesmo que apenas a ossada. Quem procura osso não é cachorro. Somos nós, os que ficaram, os que eles esqueceram de matar”, declarou.
* Reportagem da estagiária Aretha Dossares, sob supervisão de Raphael Perucci
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