Um dos presos na operação da MaréReginaldo Pimenta/Agência O DIA
Publicado 10/06/2026 06:45 | Atualizado 10/06/2026 12:42
Rio - As polícias Civil e Militar realizam uma operação no Complexo da Maré, na Zona Norte, na manhã desta quarta-feira (10), para cumprir 56 mandados de prisão e 42 de busca e apreensão contra integrantes do Terceiro Comando Puro (TCP). Na região, houve registro de tiroteio e barricadas em chamas nas primeiras horas do dia. Até o momento, 20 criminosos foram presos. No local, agentes apreenderam ainda 128 pés de maconha, fuzis, automóveis e outros materiais.
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Segundo a PM, os alvos incluem traficantes de drogas envolvidos em roubos de veículos e cargas, além de disputas territoriais. Um dos detidos é um foragido da Justiça de Minas Gerais, conhecido como "Calica". Outros dois suspeitos foram presos em flagrante. Com o grupo, os agentes apreenderam dois fuzis, diversos carregadores, um rádio comunicador e outros materiais.
Na Vila do João, os policiais localizaram uma estufa clandestina de drogas, onde encontraram insumos e equipamentos para o cultivo, além dos 128 pés de maconha. O material foi transportado em caminhões da PM até a Cidade da Polícia, no Jacarezinho.
De acordo com a Civil, as ações são distribuídas em seis frentes investigativas independentes da 21ªDP (Bonsucesso), que juntas revelam a dimensão e a diversidade das atividades criminosas articuladas pelo TCP no território da Maré, abrangendo também crimes contra crianças, violência doméstica e homicídio.
Investigações em andamento

Roubo de cargas: A principal frente identificou um esquema estruturado de roubos de carga e lavagem de dinheiro. As apurações apontaram que criminosos ligados à facção realizavam ataques sistemáticos a caminhões e cargas que trafegavam pela Avenida Brasil, Linha Vermelha e Linha Amarela.

Cobrança de serviços a moradores: Outra investigação também apontou que a organização exerce controle econômico sobre serviços essenciais dentro das comunidades, monopolizando atividades como venda de gás, fornecimento de água e acesso à internet.

“Baile da Disney”: A facção também utilizava um baile funk dentro da Vila do João como ferramenta estratégica para o crime organizado. O local era utilizado para circulação de dinheiro, venda de produtos, fortalecimento da imagem das lideranças e comercialização de itens roubados. As apurações revelaram ainda registros de criminosos armados com fuzis durante o evento.

Roubo e receptação de celulares: Os agentes apuraram e identificaram também roubos e receptação de celulares. De acordo com os policiais civis, os assaltos não eram ações isoladas, mas parte de uma estrutura organizada pelo TCP.
Os bandidos atuavam sob ordens diretas do responsável pelo gerenciamento operacional dos crimes. Eles possuíam armas, motos e metas objetivas de arrecadação, com a exigência de um número determinado de aparelhos desbloqueados a cada ação. As vítimas eram abordadas e coagidas por criminosos armados a desbloquear os celulares durante a abordagem. A precificação era definida pela própria facção: aparelhos desbloqueados valiam até R$ 2,5 mil, enquanto os bloqueados eram avaliados entre R$ 300 e R$ 600.

A análise de encomendas, movimentações financeiras e registros de entrega permitiu aos agentes mapear toda a cadeia criminosa, desde as lideranças que impõem regras rígidas sob pena de morte, integrantes com função de perímetro, os executores dos roubos nas vias públicas e até os receptadores que revendiam os produtos ilícitos.

Pornografia infantil:
Os policiais também identificaram denúncias que demonstravam a participação dos suspeitos em grupos digitais voltados à divulgação e troca de material de abuso sexual infantil.
Os criminosos utilizavam aplicativos de mensagens para trocar arquivos com pornografia infantil, incluindo vídeos com crianças e bebês em situações de abuso sexual explícito. Os arquivos identificados incluem material de extrema gravidade, com vítimas em diferentes faixas etárias, desde bebês com menos de um ano até adolescentes.
Em um dos casos, os agentes identificaram ainda que um dos investigados marcava encontros com um adolescente de 13 anos, que já havia sido vítima de abuso por parte de um dos indivíduos.
Violência doméstica: A operação também está relacionada a um caso de violência doméstica ocorrido na Baixa do Sapateiro. Após agredir brutalmente uma mulher e descumprir as medidas protetivas, o criminoso passou a ser monitorado pelos agentes. No decorrer das diligências, surgiram informações sobre a posse de armas sem autorização legal.
Participam das ações equipes do Departamento-Geral de Polícia Especializada (DGPE), do Departamento-Geral de Polícia da Capital (DGPC), do Departamento-Geral de Polícia da Baixada (DGPB), do Departamento-Geral de Polícia do Interior (DGPI) e da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core). Também atuam policiais militares do Comando de Operações Especiais (COE), do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) e do Batalhão de Choque.
Impactos
Em imagens que circulam nas redes sociais é possível ver a intensidade do confronto no início da manhã. No BRT, na estação Fiocruz, passageiros chegaram a deitar no chão para se protegerem dos disparos.
Devido a a ação, a Secretaria Municipal de Educação informou que na região da Maré 42 escolas foram impactadas.
Além disso, até o momento, três unidades de Atenção Primária suspenderam o início do funcionamento e avaliam a possibilidade de abertura nas próximas horas.
Já a Fiocruz informou que como medida preventiva, orienta-se que os(as) trabalhadores(as) que ainda não iniciaram seu deslocamento para o Campus Maré – e cujas atividades possam ser realizadas remotamente – permaneçam em regime de trabalho remoto. Até o momento, as atividades no Campus Manguinhos seguem mantidas.

A UFRJ também se manifestou sobre o caso e informou que acompanha a situação. No entanto, explicou que não haverá suspensão das atividades acadêmicas e administrativas no momento.
"A situação permanece sob monitoramento contínuo e poderá ser reavaliada de acordo com a evolução do cenário. A orientação é que estudantes, servidores, trabalhadores terceirizados e visitantes permaneçam em locais seguros e acompanhem os canais oficiais da universidade para informações atualizadas", reforçou em comunicado.

 

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