Marcela Oliveira é especialista em neuroreabilitação infantil e dá dicas para a CopaDivulgação
Publicado 21/06/2026 00:00
Todas as crianças querem acompanhar as emoções de uma Copa do Mundo, mas as neurodivergentes podem esbarrar no problema do barulho excessivo e nas grandes aglomerações. É nessa hora que especialista, pais e mães se unem para que seus filhos também possam participar do maior evento esportivo do mundo sem se prejudicarem.
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Em entrevista ao jornal O DIA, a especialista em neuroreabilitação infantil, fundadora da Clínica Follow Kids e do NEPEN-RJ (Núcleo de Estudos e Pesquisas em Neurodesenvolvimento), Marcela Oliveira fala das perspectivas e de como os pais devem agir durante a Copa.
Marcela Oliveira também é Doutoranda em Ciências do Movimento e Reabilitação, atua há mais de uma década no acompanhamento de crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), Transtorno Opositivo-Desafiador (TOD) e outras condições relacionadas ao neurodesenvolvimento, além de participar de pesquisas científicas publicadas em revistas internacionais.

O DIA: Copa do Mundo costuma ser sinônimo de festa, fogos, buzinas e reuniões familiares. Por que esse ambiente pode ser mais desafiador para crianças neurodivergentes?
Marcela Oliveira: Porque estamos falando de um período em que tudo muda ao mesmo tempo. Tem mais barulho, mais gente reunida, mais movimentação, mais emoção e, na grande maioria das vezes, menos ou até zero rotina. Costumo explicar para os pais que aquilo que para nós é apenas uma festa pode ser percebido de forma muito diferente por uma criança neurodivergente. Imagine estar em um ambiente onde várias pessoas falam ao mesmo tempo, a televisão está alta, alguém grita a cada lance do jogo, fogos estouram do lado de fora e você não sabe exatamente quando isso vai parar, fora as vuvuzelas, apitos, muitas luzes... Para algumas crianças, especialmente aquelas com TEA, isso pode ser bastante desgastante. Não significa que elas não gostem da Copa ou que não queiram participar. Muitas vezes elas querem estar junto da família, mas precisam de mais apoio para lidar com a quantidade de estímulos que estão recebendo.
O DIA: Quais sinais indicam que uma criança está ficando sobrecarregada ou desregulada durante eventos com muito estímulo, como os jogos da Copa?
Marcela Oliveira: A criança normalmente avisa antes de chegar ao limite, mas nem sempre faz isso com palavras. Muitos pais esperam uma grande crise para perceber que algo está errado, mas os sinais costumam aparecer antes, como orientamos na Follow Kids. A criança pode ficar mais irritada, fazer movimentos repetitivos, ela fica mais agitada, começar a cobrir os ouvidos, procurar um lugar para ficar sozinha, chorar com mais facilidade ou até ficar muito quieta. Em alguns casos, elas começam a se desligar daquele lugar como autodefesa. Eu sempre digo que os pais conhecem seus filhos melhor do que ninguém. Quando a criança começa a agir de uma forma diferente do habitual, vale prestar atenção porque, muitas vezes, ela está dizendo que já está cansada daquele ambiente.
O DIA: Muitas famílias acabam deixando de participar das comemorações por medo de crises ou desconforto. É possível incluir a criança nesses momentos de forma segura e respeitosa?
Marcela Oliveira: Com certeza, e eu acho muito importante falar sobre isso. Existe uma ideia de que incluir é fazer a criança participar de tudo, mas nem sempre é assim. Inclusão não é obrigar uma criança a permanecer em um ambiente que está causando sofrimento. Na grande parte das vezes, pequenas adaptações já mudam tudo. A família pode escolher um ambiente mais tranquilo para assistir ao jogo, combinar pausas, levar objetos que tragam conforto para a criança, abafadores para proteção dos ouvidos ou até planejar uma saída mais cedo, se necessário. O objetivo não é que a criança viva a Copa da mesma forma que todo mundo. O objetivo é que ela possa participar de um jeito que faça sentido para ela.
O DIA: Como os pais podem preparar uma criança neurodivergente para assistir aos jogos, participar de reuniões familiares ou frequentar locais com grande movimentação?
Marcela Oliveira: A preparação não é durante, é antes do evento. E trabalhamos isso na Follow Kids. Uma coisa simples que ajuda muito é conversar com a criança sobre o que vai acontecer. Explicar quem estará presente, onde será o encontro, quanto tempo pretendem ficar lá e o que ela pode esperar daquele ambiente. Prever o que pode acontecer, crianças neurodivergentes precisam de previsibilidade e o quanto a gente puder trazer para elas essa previsibilidade, maior segurança elas terão. Nós, adultos, também nos sentimos mais seguros quando sabemos o que vai acontecer. Com as crianças não é diferente. Outra orientação importante é respeitar os limites individuais e usar abafadores, um material simples de fácil acesso que tranquiliza a criança para ficar em ambientes com muito barulho e estímulos sonoros. Tem criança que consegue ficar horas em uma comemoração. Tem criança que vai precisar de uma pausa depois de trinta minutos. E tudo bem.
O DIA: Existe diferença entre uma criança que simplesmente não gosta de barulho e uma criança que apresenta hipersensibilidade sensorial? Como identificar?
Marcela Oliveira: Com certeza. Não gostar de barulho é algo comum. Muitas pessoas preferem ambientes mais silenciosos. Na hipersensibilidade sensorial, o impacto costuma ser muito maior. Não estamos falando apenas de incômodo. Estamos falando de um desconforto que pode gerar sofrimento. É aquela criança que entra em desespero com determinados sons, que cobre os ouvidos imediatamente, que não consegue permanecer no ambiente ou que demora bastante tempo para se reorganizar depois daquela experiência. Quando esse desconforto começa a interferir na rotina e na qualidade de vida da criança, vale buscar orientação profissional.
O DIA: Existe uma forma de transformar a Copa em uma experiência positiva para crianças neurodivergentes?
Marcela Oliveira: Claro. A primeira coisa é abandonar a ideia de que existe apenas uma forma certa de viver a Copa do Mundo. Talvez a criança não queira assistir ao jogo em um restaurante lotado, mas adore acompanhar a partida em casa com a família. Talvez ela goste de vestir a camisa da seleção, brincar com bandeiras ou participar de um momento específico da comemoração. Quando tiramos a pressão e respeitamos as necessidades individuais, a chance de criar uma lembrança positiva aumenta muito. E sempre reforço o uso de abafadores, eles protegem e minimizam os barulhos.
O DIA: O que os familiares e amigos precisam entender antes de julgar uma criança que cobre os ouvidos, se isola ou demonstra desconforto durante as comemorações?
Marcela Oliveira: Precisam entender que aquilo não é falta de educação, frescura ou birra. Quando uma criança cobre os ouvidos ou procura um lugar mais tranquilo, ela está tentando lidar com algo que está difícil para ela naquele momento. Infelizmente, ainda existe muito julgamento. Muitas famílias escutam comentários como "na minha época isso não existia" ou "é só falta de limites". Mas a realidade é que cada cérebro funciona de uma forma diferente. Ter empatia com essas diferenças torna os encontros muito mais acolhedores para todos.
O DIA: Existe um trabalho que é feito na Follow Kids antes dessas situações para ajudar a criança a lidar com barulho, aglomerações e mudanças de rotina? Como ele funciona?
Marcela Oliveira: Sim. No nosso trabalho, nós não pensamos apenas na criança dentro da clínica. Pensamos nela vivendo a vida real. Por isso, trabalhamos habilidades relacionadas à autorregulação, ao processamento sensorial, à comunicação, à autonomia e à adaptação a diferentes contextos. Também orientamos muito as famílias. Muitas vezes os pais chegam acreditando que precisam fazer a criança se adaptar a qualquer situação, quando o caminho costuma ser outro: entender as necessidades daquela criança e criar estratégias para que ela participe do mundo com mais conforto e segurança.
O DIA: Quais erros os pais mais cometem ao tentar "forçar" a participação da criança nesses eventos?
Marcela Oliveira: O principal erro é acreditar que insistir além do limite vai resolver o problema. Forçar pra caber na expectativa de outras pessoas. Muitos pais fazem isso com a melhor das intenções. Eles querem que o filho participe, faça amigos, aproveite os momentos em família. Mas quando a criança está sofrendo, insistir pode gerar o efeito contrário e transformar aquela experiência em algo negativo ou até irreversível. A criança pode criar um trauma ali e para reverter é bem mais difícil. O desenvolvimento acontece aos poucos. É muito mais eficaz construir experiências positivas e graduais do que exigir que a criança enfrente tudo de uma vez.
O DIA: Como equilibrar inclusão e respeito aos limites da criança? Eu gosto de dizer que inclusão não significa fazer a criança caber em qualquer ambiente. Inclusão também significa adaptar o ambiente para que ela consiga participar. É possível incentivar novas experiências sem ignorar os sinais de desconforto. Quando existe acolhimento, compreensão e flexibilidade, a criança tende a participar muito mais do que quando se sente pressionada.
O DIA: O que você gostaria que mais pessoas soubessem sobre crianças neurodivergentes em períodos de grandes eventos e celebrações?
Marcela Oliveira: Que elas querem participar tanto quanto qualquer outra criança. O que muda é que, às vezes, elas precisam de condições diferentes para conseguir aproveitar aquele momento. Quando entendemos isso, deixamos de olhar apenas para o comportamento e passamos a enxergar a criança. E quando a criança se sente compreendida, tudo fica mais fácil.
O DIA: Por fim, o que você gostaria de falar para as famílias?
Marcela Oliveira: Eu gostaria de deixar uma mensagem para as famílias. A Copa é um momento de celebração, de encontro e de memória afetiva. Não vale a pena transformar isso em uma fonte de estresse. Se o seu filho precisar assistir ao jogo em um ambiente mais tranquilo, fazer pausas ou ir embora mais cedo, está tudo bem. O mais importante não é seguir um modelo ideal de comemoração imposto pelos outros. O mais importante é que ele se sinta seguro, acolhido e feliz participando daquele momento da forma que consegue.
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