Publicado 19/06/2026 07:55
Rio - A Polícia Civil realizou, na manhã desta sexta-feira (19), uma operação para combater uma milícia que atua na região do Catiri, em Bangu, na Zona Oeste. Segundo as investigações, o grupo é responsável por extorsões de obras públicas, comerciantes e moradores, além de uma rede de lavagem de dinheiro que movimentou mais de R$ 25 milhões. Três homens foram presos, sendo um deles policial militar.
PublicidadeAgentes da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco) cumpriram 50 mandados de busca e apreensão em endereços na capital, em municípios da Baixada Fluminense e em cidades do interior do estado.
Os policiais encontraram uma pistola 9mm na residência do policial militar Alexandre Santos Martins, que foi autuado em flagrante por porte ilegal de arma de fogo. O PM é investigado por integrar a rede de apoio da milícia. Os elementos reunidos apontam que ele, em tese, atuava tanto na circulação de valores vinculados ao grupo, quanto na realização de atividades de segurança privada em benefício de integrantes da cúpula da organização. Tais circunstâncias são objeto de aprofundamento no cumprimento das medidas cautelares e das demais diligências.
Ao DIA, a delegada Luciana Fonseca, adjunta da Draco, informou que o cabo, que não teve a identidade revelada, recebeu R$ 500 mil da ex-mulher, o que levantou suspeitas sobre lavagem de dinheiro.
"A ex-companheira dele é identificada como uma das responsáveis diretas por receber o valor advindo das extorsões. Ela chegou a movimentar R$ 5 milhões em um ano. Ela era beneficiária de Bolsa Família, o que demonstra incompatibilidade e incongruência. Ela chegou a transferir, para esse policial, R$ 500 mil, em diversos depósitos fracionados, o que é típico na tentativa de lavar e ocultar os valores", contou.
Um segundo homem foi preso em flagrante por constituição de milícia privada e resistência. Ele monitorava a atuação dos policiais no Catiri quando ocorreu a prisão.
O terceiro preso é responsável por uma padaria no Recreio dos Bandeirantes, estabelecimento suspeito de ser usado como conta de passagem para dinheiro adquirido de foram ilícita. No local, agentes encontraram condições insalubres e produtos impróprios para consumo, por isso o gerente foi autuado em flagrante por crime contra relação de consumo e saúde pública.
Os agentes apreenderam celulares e veículos, que serão periciados para aprofundar as apurações.
Extorsões contra obras, comerciantes e moradores
A investigação iniciou após denúncias de extorsões praticadas contra uma empresa terceirizada, responsável por executar obras públicas de infraestrutura e saneamento no Catiri. De acordo com as apurações, a milícia passou a exigir pagamentos para permitir a continuidade dos serviços e a permanência de trabalhadores no local. As cobranças eram impostas mediante ameaças e intimidações, características típicas de grupos que exercem domínio territorial armado. A empresa chegou a pagar R$ 75 mil aos criminosos.
"Moradores costumam reclamar muito. Os grupos criminosos empregam um temor e uma violência explícita em face das pessoas, exigindo o pagamento da taxa de segurança. A Polícia Civil identifica que é um grupo que atua de forma muito violenta, de modo que todos tenham um temor considerável", destacou Fonseca.
A especializada seguiu o caminho do dinheiro e identificaram contas bancárias usadas para receber valores obtidos com as extorsões. A análise financeira revelou uma sofisticada engrenagem de lavagem de capitais, estruturada para ocultar a origem dos recursos arrecadados.
A Draco detectou movimentações incompatíveis com a renda declarada dos investigados, além da utilização de contas de passagem, fragmentação de transferências e circulação acelerada de recursos entre pessoas físicas e jurídicas ligadas à organização.
A investigação apontou que o grupo possui um núcleo responsável pelo controle territorial e pelas decisões estratégicas, além de um núcleo financeiro encarregado de receber, movimentar, pulverizar e ocultar todos os recursos provenientes das atividades ilícitas. Empresas formalmente constituídas e contas bancárias de terceiros eram utilizadas para dificultar o rastreamento do dinheiro e conferir aparência de legalidade aos valores movimentados.
"Foram identificadas pessoas físicas e jurídicas que eram utilizadas como contas de passagem para dar essa aparência lícita. Foram identificadas duas padarias no Recreio dos Bandeirantes, que têm um grande fluxo de comércio. Essa prática é muito comum, tendo em vista que você consegue mesclar valores lícitos com outros decorrentes de atividades ilícitas, tentando dar uma roupagem a esses valores", completou a delegada.
De acordo com a Civil, a quadrilha não se limita às extorsões praticadas contra prestadores de serviço e empresas. Os elementos reunidos identificaram a existência de um sistema permanente de exploração econômica do território, mediante cobranças impostas a comerciantes e moradores.
Além do cumprimento dos mandados, a Draco pediu o bloqueio judicial de ativos, contas bancárias, bens e valores vinculados aos investigados, alcançando movimentações superiores a R$ 25 milhões.
O objetivo da ação é asfixiar financeiramente o grupo e interromper o fluxo de recursos que sustenta sua estrutura operacional e seu domínio territorial.
A ofensiva mobilizou equipes do Departamento-Geral de Polícia Especializada (DGPE), do Departamento-Geral de Polícia da Capital (DGPC), Departamento-Geral de Polícia da Baixada (DGPB) e da Corregedoria da Polícia Militar.
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