Surfista José Ricardo Ramos, conhecido como Bocão, foi velado na sede da Rocinha Surfe EscolaÉrica Martin / Agência O Dia
Publicado 30/06/2026 13:48 | Atualizado 30/06/2026 15:27
Rio - Familiares, amigos e alunos se despediram do surfista José Ricardo Ramos, conhecido como Bocão, na sede da Rocinha Surfe Escola, na comunidade da Rocinha, Zona Sul do Rio, nesta terça-feira (30). O corpo do professor foi encontrado no Costão da Avenida Niemeyer no último domingo (28), após quatro dias de buscas. O sepultamento aconteceu no Cemitério São João Batista, em Botafogo.
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Durante o velório, o DJ Ricardo Ramos, filho de Bocão, agradeceu à presença de quem foi se despedir do surfista e voltou a falar sobre os problemas financeiros que o pai enfrentava depois que o salário dele foi atrasado em um projeto que trabalhava.

“Meu pai estava devendo R$ 5.080 de aluguel. Estava trabalhando de carteira assinada, ele não podia arrumar outro trabalho por isso. Eu quero saber quem são esses culpados por atrasar o pagamento do meu pai. Que a justiça seja feita”, disse.

Ricardo ainda falou sobre a vontade que tem de achar um casal que conversou com Bocão antes dele entrar na água, na madrugada da última quarta-feira (24). “O meu pai parou na beira do mato e conversou com um casal durante seis minutos. Eu queria saber quem é esse casal. Para saber o que ele falou, o que o meu pai estava falando nesse dia. Eu não consegui saber”, contou.

O cantor Gabriel o Pensador esteve no velório e homenageou o surfista ao cantar o trecho da música “Cantão” que menciona Bocão e seu projeto social de surfe na letra. O artista relembrou a índole do surfista e falou sobre os próximos passos da escola de surfe.
“O Ricardo era um amigo querido desde quando eu tinha 12 anos. Ele já era apaixonado pelo surf, cheio de boa vontade. Se tornou esse homem que tinha uma missão de ajudar a criançada. Agora a gente está preocupado em aproveitar essa união para dar novos rumos à associação com o filho e com amigos que querem continuar esse trabalho. Alguns que têm ou tiveram trabalhos semelhantes aparentemente vão se unir para manter esse espaço. Infelizmente ele não vai estar tocando, mas o legado continua, o projeto tem que continuar”, afirmou.

Segundo o cantor, foi uma surpresa, tanto para ele quanto para os amigos do surfista, saber que Bocão passava por dificuldades financeiras.

“É uma pena, porque ele tinha tantos amigos, tanta gente disposta a ajudar se soubesse. O filho dele disse que não foi um suicídio, mas sabemos que com a cabeça perturbada, entrar no mar se torna muito mais perigoso, ainda mais de madrugada. Foi tudo muito triste”, contou.

Carlos, conhecido como Tubarão, amigo de Bocão, falou sobre as dificuldades enfrentadas pelo filho do surfista, que soube do desaparecimento do pai quando estava no hospital com a mãe, que passou por uma cirurgia - de sucesso - para retirada de um tumor.

“Eu fui a primeira pessoa a receber o áudio sobre o desaparecimento do Bocão. Para mim, passar aquela mensagem para o Ricardinho foi muito difícil. O Ricardinho teve que ser forte em dobro. Infelizmente, não é bom, mas a gente tem que receber a notícia. A gente que é surfista entende que o mar não é brincadeira, ainda mais à noite”, disse.

O guarda-vidas Leandro Viana, de 50 anos, que conhecia Bocão desde a adolescência, exaltou o legado do surfista e falou sobre o quão excepcional ele era.

“Era uma pessoa que poderia não ter nada, mas o pouco que ele tinha, ele dividia com o próximo, com os amigos, com quem chegasse precisando. Era um cara que tirava a roupa do corpo para dar para alguém que precisasse”, relatou.

Aluna de Bocão, a atriz Camila Barbosa, de 23 anos, disse que foi muito ajudada pelo surfista nos três anos em que participou do projeto. Ela também contou que tem uma promessa a cumprir em homenagem a ele.

“Não moro aqui na Rocinha e muitas vezes que eu não tinha muito para onde recorrer, até com passagem, o Bocão, mesmo sem ter, fazia questão de procurar uma forma para que eu viesse para a escolinha. Ele só não queria que nenhum aluno dele desistisse”, disse.

“No surfe, tem uma prancha específica, que é pequena e fina, geralmente usada por quem já é muito experiente, e eu ficava insistindo nela. Até que ele deixou eu surfar uma vez e ele falou assim: ‘Se você for para um campeonato, você pode usar essa prancha’. A promessa do campeonato está de pé. Isso aí não tem como deixar passar. Vou treinar até conseguir, para honrar o que ele construiu, porque ele merece”, contou.

Nesta quarta-feira (1º), os surfistas da região farão uma homenagem a Bocão na Praia de São Conrado, em frente à Avenida Niemeyer, às 9h.

Relembre o caso

O professor de surfe foi visto pela última vez na madrugada da última quarta-feira (24) ao entrar no mar de São Conrado nas proximidades do Hotel Nacional, indo em direção às Ilhas Tijucas.

O Corpo de Bombeiros foi acionado e deu início às buscas. Militares do 3º Grupamento Marítimo (3º GMAR/Copacabana) e do Centro de Embarcações de Resgate (CER) da corporação realizaram varreduras e monitoramento da área com o emprego de motos aquáticas e botes infláveis, viaturas de apoio terrestre e guarda-vidas.

Na manhã do último domingo, a corporação recebeu um chamado para recolhimento de um cadáver. Depois do resgate, os restos mortais seguiram para o Instituto Médico Legal (IML) do Centro, onde passaram por exames de identificação.

Projeto social

O velório de Bocão aconteceu na sede do projeto social Rocinha Surfe Escola, um programa que ensinava crianças e adolescentes da Rocinha a surfar. Além disso, ainda realizava ações voltadas à inclusão social, educação ambiental e sustentabilidade. A escola, fundada há 39 anos, atendia cerca de 300 alunos.
*Colaboração: Érica Martin
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