Publicado 04/07/2026 19:46 | Atualizado 04/07/2026 19:54
Rio - O Centro viveu neste sábado (4) uma celebração marcada pela memória, ancestralidade e valorização da cultura afro-brasileira. Realizado na sede da Associação Cultural Recreativa Filhos de Gandhi Rio, na Rua Camerino, o evento Zungu Camerino reuniu moradores, pesquisadores, representantes de instituições culturais, autoridades e visitantes.
PublicidadeCom uma programação gratuita, a reunião teve como símbolo principal a distribuição de angu, alimento historicamente ligado à resistência da população negra na cidade.
Ao longo do dia, o público acompanhou apresentações de capoeira, roda de samba, a Charanga dos Filhos de Gandhi e o Grupo Malê Aiyeo. Mais do que uma programação cultural, o encontro buscou resgatar a história dos antigos zungus, espaços que funcionavam como locais de acolhimento, convivência e preservação das tradições africanas durante o século XIX.
Presidente dos Filhos de Gandhi Rio, Célio Oliveira destacou o significado do encontro justamente na região conhecida como Pequena África. "Hoje foi um dia único para a valorização da cultura afro-brasileira e da importância das casas de zungu dentro da comunidade afro. Estamos em um local por onde passaram mais de um milhão de africanos que chegaram ao Brasil em condição de escravidão. O Cais do Valongo era o palco dos horrores para essas pessoas, porque elas sabiam que, ao pisar ali, suas vidas jamais seriam as mesmas", afirmou.
Segundo ele, a celebração também representa uma vitória da memória sobre a dor. "Por isso o povo negro precisa festejar sempre. Onde houve sofrimento, morte e tristeza, hoje existe alegria. É a alegria dos nossos ancestrais. O evento serviu para relembrar o papel das mulheres negras que, através da venda do angu, alimentavam famílias e ajudavam pessoas escravizadas a conquistar a liberdade", disse.
O pesquisador e professor Luiz Espírito Santo, que estuda a história da Pequena África, ressaltou a importância histórica do imóvel que atualmente abriga os Filhos de Gandhi. "Esse espaço teve diferentes significados ao longo de aproximadamente 250 anos. Existe a possibilidade de ele ter funcionado como uma casa de encontro para africanos recém-chegados durante o período escravista. Depois, pode ter se transformado em um zungu, uma espécie de quilombo urbano onde negros livres, escravizados de ganho e fugitivos conviviam e encontravam proteção", explicou.
Para o pesquisador, a trajetória do imóvel simboliza as transformações da própria história da população negra no Rio. "É sobre resistir, mas não apenas. É também existir, se reinventar e se reconstruir. Hoje esse espaço abriga uma das instituições mais importantes de preservação da herança afro-brasileira. Isso mostra como os lugares podem ser ressignificados ao longo do tempo", destacou.
Luiz também classificou o encontro como um momento de grande valor simbólico. "Participar de um evento dessa natureza foi muito gratificante. Acompanho desde 2021 o trabalho de recuperação do espaço e sua inserção nos debates sobre a Pequena África. Ver essa história sendo compartilhada com tantas pessoas é emocionante", afirmou.
Além da programação cultural, o evento reuniu representantes de movimentos sociais, pesquisadores, integrantes de terreiros, parlamentares e gestores públicos ligados às áreas de cultura e patrimônio.
“Participar do Zungu Camerino foi uma experiência muito significativa para mim. Foi uma celebração que reuniu arte, cultura, ancestralidade e representatividade em um ambiente de muita troca e respeito. Estar presente em um evento como esse é uma forma de fortalecer nossas raízes, valorizar artistas e incentivar iniciativas que mantêm viva a nossa identidade cultural. A importância da festa vai além da celebração. Ela cria oportunidades de encontro, visibilidade e reconhecimento para quem faz e vive a cultura, além de inspirar novas gerações a valorizarem esse patrimônio. Saí do evento muito feliz e honrada por ter participado desse momento tão especial”, afirmou a Fátima Malaquias, que fez questão de prestigiar a festa.
A celebração terminou com clima de confraternização e reforçou o papel dos Filhos de Gandhi como um dos principais centros de preservação da memória afro-brasileira na região do Valongo, reconhecida pela Unesco como Patrimônio Mundial da Humanidade.
A celebração terminou com clima de confraternização e reforçou o papel dos Filhos de Gandhi como um dos principais centros de preservação da memória afro-brasileira na região do Valongo, reconhecida pela Unesco como Patrimônio Mundial da Humanidade.
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